Não apenas um dia
Decidiu a RTP juntar-se às celebrações do centenário do l de Fevereiro de 1908, dia em que o rei D.Carlos I foi abatido no Terreiro do Paço, transmitindo em dias consecutivos uma mini-série acerca do acontecimento e dos seus antecedentes. Não sei se foi boa ideia. É certo que os monárquicos portugueses não são hoje propriamente uma multidão, antes pelo contrário, estando mais perto de constituírem uma espécie de grupo selecto que usa o seu monarquismo como quem usa na lapela uma orquídea, flor distinta e também de distintas tradições. Porém, republicanos há muitos em Portugal, uns com plena consciência de o serem e outros porque nem sequer imaginam a possibilidade séria de um outro regime. Sobretudo em relação aos primeiros, o Regicídio é um assunto tendencialmente polémico, não porque sejam uns selváticos mata-reis mas porque entre o projecto de um país monárquico, designadamente situado nos princípios do século XX, e o de uma república, há diferenças substancialíssimas que ultrapassam largamente a questão da vida ou morte de dois homens para implicarem a vida, e também a morte, de milhões. Por outro lado, esta comemoração foi, como aliás sempre seria natural e esperável, aproveitada por alguns monárquicos para regarem um pouco o fanado sonho de uma restauração monárquica. Chegámos mesmo a ouvir algumas vozes a alegar uma suposta floração das monarquias na Europa. Numa altura em que a monarquia inglesa vive transes difíceis que não prometem solidez num futuro próximo e em que a monarquia espanhola, restaurada por Franco, é largamente contestada e pode não encontrar na dupla Filipe/Letícia um par que garanta a desejada continuidade, a visão optimista que tais vozes exprimem é curiosa. De qualquer modo, é claro que a invulgar atenção dispensada pela RTP à efeméride sempre poderia excitar ilusões. Sobretudo se não fosse cuidadosamente fiel às diversas verdades que no l de Fevereiro confluíra.
O projecto omitido
Ora, a questão é que esse requisito fundamental falhou. Pode-se considerar que a manipulação dos factos começou por uma espécie de operação de melhoria estética aplicada à figura de D.Carlos: uns bons quilos a menos, um ventre muito reduzido, eliminaram a sugestão, muito aproveitada pelos caricaturistas do tempo, de um rei que devorava em seu proveito um reino inteiro. Sublinhe-se de passagem que D.Carlos não foi propriamente um mau homem, perverso e cruel: gostava de gozar a vida, de festas e de mulheres, da caça e da pesca, e parecia nem sequer imaginar que um rei não tivesse direito, provavelmente divino, a tais prazeres.
Também se interessava por algumas questões científicas e, tal como a rainha, pintava. Infelizmente para ele, porém, era rei, isto é, era responsável pelo País e pelas condições de vida do povo sobre o qual reinava. E essas condições eram de generalizada miséria que atingia não apenas as camadas rurais e o operariado urbano mas também a pequena e mesmo média burguesia. Foi neste quadro de pobreza geral, a que se acrescentava a ruína das finanças públicas, que o escândalo dos adiantamentos à casa real, dando relevo público às despesas sumptuárias do rei, redobraram a hostilidade a D.Carlos. Acresce que o projecto republicano era uma ideia que vinha soprada da Europa e que não se limitava à mera substituição de um rei por um presidente: transportava consigo a implementação do que hoje se chama Direitos Humanos , de justiça social e de um desenvolvimento económico que sustentasse. Ora, a mini-série da RTP, talvez cuidadosamente intitulada “O Dia do Regicídio” embora de facto retrotraísse a acção para muito antes, não quis saber de todas estas coisas, preferindo compensar-nos com imagens de cama com um D.Carlos beneficiado na sua seminudez pelo emagrecimentopreviamente escolhido. Porém, como se a indiferença por dados fundamentais não lhe bastasse, a mini-série presenteou-nos com uns republicanos de péssimo aspecto, de meter medo, em dado momento émulos dos encapuçados da Ku Klux Klan, sem uma ideia generosa na cabeça. Acreditasse eu na versão que “O Dia do Regicídio” e deixaria de ser republicano com efeito retroactivo a 1908. E, por arrastamento, abandonaria a convicção, que também animava o republicanismo de então, de que é preciso desejar uma sociedade mais justa e fazer alguma coisa por isso.
O projecto omitido
Ora, a questão é que esse requisito fundamental falhou. Pode-se considerar que a manipulação dos factos começou por uma espécie de operação de melhoria estética aplicada à figura de D.Carlos: uns bons quilos a menos, um ventre muito reduzido, eliminaram a sugestão, muito aproveitada pelos caricaturistas do tempo, de um rei que devorava em seu proveito um reino inteiro. Sublinhe-se de passagem que D.Carlos não foi propriamente um mau homem, perverso e cruel: gostava de gozar a vida, de festas e de mulheres, da caça e da pesca, e parecia nem sequer imaginar que um rei não tivesse direito, provavelmente divino, a tais prazeres.
Também se interessava por algumas questões científicas e, tal como a rainha, pintava. Infelizmente para ele, porém, era rei, isto é, era responsável pelo País e pelas condições de vida do povo sobre o qual reinava. E essas condições eram de generalizada miséria que atingia não apenas as camadas rurais e o operariado urbano mas também a pequena e mesmo média burguesia. Foi neste quadro de pobreza geral, a que se acrescentava a ruína das finanças públicas, que o escândalo dos adiantamentos à casa real, dando relevo público às despesas sumptuárias do rei, redobraram a hostilidade a D.Carlos. Acresce que o projecto republicano era uma ideia que vinha soprada da Europa e que não se limitava à mera substituição de um rei por um presidente: transportava consigo a implementação do que hoje se chama Direitos Humanos , de justiça social e de um desenvolvimento económico que sustentasse. Ora, a mini-série da RTP, talvez cuidadosamente intitulada “O Dia do Regicídio” embora de facto retrotraísse a acção para muito antes, não quis saber de todas estas coisas, preferindo compensar-nos com imagens de cama com um D.Carlos beneficiado na sua seminudez pelo emagrecimentopreviamente escolhido. Porém, como se a indiferença por dados fundamentais não lhe bastasse, a mini-série presenteou-nos com uns republicanos de péssimo aspecto, de meter medo, em dado momento émulos dos encapuçados da Ku Klux Klan, sem uma ideia generosa na cabeça. Acreditasse eu na versão que “O Dia do Regicídio” e deixaria de ser republicano com efeito retroactivo a 1908. E, por arrastamento, abandonaria a convicção, que também animava o republicanismo de então, de que é preciso desejar uma sociedade mais justa e fazer alguma coisa por isso.