A comercialização das práticas
A necessidade de praticar ou, pelo menos, de experimentar uma prática qualquer realizada ao seu nível e dentro das suas capacidades actuais, de acordo com o seu gosto, para a melhoria do bem estar de cada ser humano; a aspiração em conviver com os outros num ambiente sadio, confrontar-se em competições ao seu nível, com os outros e consigo próprio, e de participar no ambiente festivo das grandes organizações desportivas; a necessidade em contactar com a natureza por aqueles que vivem, permanentemente, nas cidades de cimento, e a de confraternizar entre si, da parte daqueles que vivem no meio rural, constituem aspectos essenciais da nova realidade vivida pelo desporto na sua relação com a sociedade. A necessidade de melhorar a saúde de todos e contribuir para o crescimento sadio dos mais jovens, garantindo uma educação completa às crianças e uma substancial melhoria da qualidade de vida dos idosos, constituem, no seu conjunto, «necessidades» que a maioria da população não pode «procurar» unicamente em termos comerciais.
Desta forma a grande dificuldade reside, de facto, no choque das contradições sociais que se exprimem, na actualidade, em torno do desporto. Por um lado, as leis do mercado e a estratégia de submissão aos imperativos do lucro. Por outro, as leis do desenvolvimento do indivíduo e a expressão de novas necessidades que traduzem as suas novas aspirações a uma vida melhor e mais rica.
O aparecimento constante de novas práticas, e algumas transformações das antigas, encontra aqui a sua origem. Nuns casos, são os próprios indivíduos que as inventam, adaptam, criam, recriam. Noutros casos, são os próprios comerciantes que introduzem alterações e sugerem novas formas. Nada disto é negativo em si, nem se opõe à definição das novas respostas. A degradação surge no momento em que a lei do máximo lucro se apodera das aspirações das camadas populares, faz delas um novo mercado de consumo, retirando ou limitando o valor humanizador às novas práticas, fazendo prevalecer unicamente o seu carácter espectacular e o princípio da obtenção do lucro a qualquer preço.
Muitos dos actuais responsáveis pela difusão da prática do desporto entre a população defendem que a noção de «necessidade» deve ser substituída pela de «procura». Desta forma passar-se-ia de uma perspectiva de vincado caracter social para uma outra, mais objectiva, dizem eles, referida à dinâmica da «oferta» possível.
Mudança de conceitos
Esta mudança de conceitos (os mais sofisticados dirão «de paradigma») não é nem ingénua nem desinteressada. De facto a noção de procura e oferta está directamente integrada na concepção de que tudo, na sociedade actual, deve ser comercializado e objecto de obtenção de lucro capitalista. Vista a questão deste ângulo ficamos com a possibilidade de compreender melhor muitos dos fenómenos que passaram a caracterizar o desporto actual.
Em 1.º lugar e antes de tudo, compreende-se porque é que os governos social–democratas (na realidade defendendo e pondo em prática soluções neoliberais) se desresponsabilizaram fortemente em relação à questão da difusão das práticas, só mantendo interesse por aqueles aspectos de que podem retirar lucro político imediato (assim se compreende que a educação física no 1.º ciclo do ensino básico se mantenha nula apesar de fazer parte do programa oficial e, ao mesmo tempo, se financie a grande operação dos novos estádios de futebol com muitos milhões de contos – quantas dezenas, no final?)
Em 2.º lugar também se passa a compreender melhor que, cada vez mais insistentemente, se fale de «quem quer desporto paga-o», e o movimento associativo seja acusado de «subsídio – dependência» quando reivindica meios para poder exercer as suas importantíssimas funções em termos correctos e de acordo com as características da sociedade actual.
Mas o problema das necessidades não se resolve com a sua intensa comercialização. Esta questão, para além das concepções do funcionamento social, impõe-se com toda a força. E a crise da educação no antigo ensino primário (e em todo o sistema educativo, diga-se em abono da verdade), ao lado ou integrando a crise do associativismo, e as outras «crises» que estruturam a crise global, estão aí para o demonstrar.
Esta situação, com características novas e ainda algo confusas, cria perplexidades e dúvidas que, na maioria dos casos, atrasam a formulação das novas respostas. Mas uma coisa parece certa: no presente, a estrutura federada já não responde às necessidades de um grande número de indivíduos que desejam praticar e as novas estruturas comerciais põem a nu a profunda segregação social que subsiste. Na sua maioria os elementos da população encontram sérios obstáculos para acederem a uma prática regular da actividade da sua predilecção.
Desta forma a grande dificuldade reside, de facto, no choque das contradições sociais que se exprimem, na actualidade, em torno do desporto. Por um lado, as leis do mercado e a estratégia de submissão aos imperativos do lucro. Por outro, as leis do desenvolvimento do indivíduo e a expressão de novas necessidades que traduzem as suas novas aspirações a uma vida melhor e mais rica.
O aparecimento constante de novas práticas, e algumas transformações das antigas, encontra aqui a sua origem. Nuns casos, são os próprios indivíduos que as inventam, adaptam, criam, recriam. Noutros casos, são os próprios comerciantes que introduzem alterações e sugerem novas formas. Nada disto é negativo em si, nem se opõe à definição das novas respostas. A degradação surge no momento em que a lei do máximo lucro se apodera das aspirações das camadas populares, faz delas um novo mercado de consumo, retirando ou limitando o valor humanizador às novas práticas, fazendo prevalecer unicamente o seu carácter espectacular e o princípio da obtenção do lucro a qualquer preço.
Muitos dos actuais responsáveis pela difusão da prática do desporto entre a população defendem que a noção de «necessidade» deve ser substituída pela de «procura». Desta forma passar-se-ia de uma perspectiva de vincado caracter social para uma outra, mais objectiva, dizem eles, referida à dinâmica da «oferta» possível.
Mudança de conceitos
Esta mudança de conceitos (os mais sofisticados dirão «de paradigma») não é nem ingénua nem desinteressada. De facto a noção de procura e oferta está directamente integrada na concepção de que tudo, na sociedade actual, deve ser comercializado e objecto de obtenção de lucro capitalista. Vista a questão deste ângulo ficamos com a possibilidade de compreender melhor muitos dos fenómenos que passaram a caracterizar o desporto actual.
Em 1.º lugar e antes de tudo, compreende-se porque é que os governos social–democratas (na realidade defendendo e pondo em prática soluções neoliberais) se desresponsabilizaram fortemente em relação à questão da difusão das práticas, só mantendo interesse por aqueles aspectos de que podem retirar lucro político imediato (assim se compreende que a educação física no 1.º ciclo do ensino básico se mantenha nula apesar de fazer parte do programa oficial e, ao mesmo tempo, se financie a grande operação dos novos estádios de futebol com muitos milhões de contos – quantas dezenas, no final?)
Em 2.º lugar também se passa a compreender melhor que, cada vez mais insistentemente, se fale de «quem quer desporto paga-o», e o movimento associativo seja acusado de «subsídio – dependência» quando reivindica meios para poder exercer as suas importantíssimas funções em termos correctos e de acordo com as características da sociedade actual.
Mas o problema das necessidades não se resolve com a sua intensa comercialização. Esta questão, para além das concepções do funcionamento social, impõe-se com toda a força. E a crise da educação no antigo ensino primário (e em todo o sistema educativo, diga-se em abono da verdade), ao lado ou integrando a crise do associativismo, e as outras «crises» que estruturam a crise global, estão aí para o demonstrar.
Esta situação, com características novas e ainda algo confusas, cria perplexidades e dúvidas que, na maioria dos casos, atrasam a formulação das novas respostas. Mas uma coisa parece certa: no presente, a estrutura federada já não responde às necessidades de um grande número de indivíduos que desejam praticar e as novas estruturas comerciais põem a nu a profunda segregação social que subsiste. Na sua maioria os elementos da população encontram sérios obstáculos para acederem a uma prática regular da actividade da sua predilecção.