Um lugar em Alcântara
Reportagem na SIC. O local, talvez devesse dizer-se que o cenário de um pungente drama permanente que não é de ficção, que infelizmente é bem do quotidiano real, é o balneário público do bairro de Alcântara, em Lisboa. Como se sabe, Alcântara tem a justa tradição de bairro operário, isto é, de bairro cuja população dominante não é constituída por gente que se habituou a viver explorando o trabalho alheio, bem pelo contrário. Não sei até que ponto os tempos mais recentes terão alterado este perfil, mas o certo é que o que nos foi mostrado por esta reportagem coincide com a vertente mais triste dessa tradição. Por aquele balneário e perante os olhares já habituados mas não endurecidos dos dois funcionários que ali trabalham, desfilam dia após dia homens e mulheres que sobrevivem despojados de tudo ou de quase tudo. Velhos na sua maioria, envelhecidos muitos deles, mas também gente ainda numa maturidade robusta e até jovens. Estes últimos são os há muito desempregados e a eles se refere o funcionário do balneário quando diz, com a amarga sabedoria que a sua experiência profissional lhe dá, que em certas circunstâncias «os que não sabem roubar caiem na miséria». Mas é claro que a observação também é válida, e de que maneira!, para os mais velhos. O facto é que vastíssimas camadas da população portuguesa são hoje flageladas pela efectiva desumanidade das políticas sociais, ou da ausência delas, decididas por sucessivas governações que escolheram ficar do lado oposto ao dos mais desamparados. Em suposta substituição dos deveres de solidariedade activa que cabem ao Estado prega-se a prática da velha caridadezinha, tão do agrado dos que têm o bastante ou, mais frequentemente, dos que têm tudo ou quase tudo e ainda lhes sobeja muito. Diz-se então, num requinte de hipocrisia, que é preciso dar lugar a iniciativas dessa espécie de fantasma de imprecisos contornos que é comummente designada por «sociedade civil». Não terá sido por acaso, e tem mesmo um significado esclarecedor, que o mais importante semanário português tenha designado como «figura nacional do ano de 2007» a presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares e dirigente do Banco Alimentar contra a Fome em Lisboa, Isabel Jonet. Estão fora de dúvida as virtudes e méritos da senhora, mas seria esperável que neste limiar já avançado do século XXI português a tarefa de «dar de comer a quem tem fome», obra de caridade secularmente recomendada pelo cristão, não constituísse uma área de actividade de tão destacado protagonismo.
Presépio
Porém, como a reportagem da SIC mostrou, as fomes que diariamente passam no balneário público de Alcântara não são apenas de natureza alimentar embora o sejam também. É que falta de roupa que permita uma defesa eficaz contra o frio (vestuário, cobertores), a marginalização social que condena os velhos ao deserto afectivo que é a solidão, a espera da morte em habitações degradadas contudo cheias de memórias que são afinal os sinais agridoces de uma vida inteira, correspondem a diversas formas de fome. E não se diga que apesar de tudo não se morre dessas penúrias, porque na verdade por elas se vai também esvaindo a vida numa espécie de hemorragia lenta. Por isso, o balneário da freguesia de Alcântara é muito mais que o lugar onde carenciados vão tratar do corpo, é porto de fugaz abrigo e ponto de dolorosa observação social que justifica não apenas a consternação mas também e sobretudo o alarme. A isso mesmo foram decerto sensíveis os autores da reportagem, os jornalistas Miriam Alves e Filipe Ferreira (escapou-me, infelizmente, o responsável pelo comentário musical a sublinhar com perfeita adequação tudo quanto na reportagem se via e ouvia, mais aquilo que facilmente se adivinhava). Na verdade, esta reportagem não apenas correspondeu às mais nobres tarefas que esperam o jornalismo, que são as de abordar o que de mais significativo e urgente ocorre na sociedade onde se inscreve, mas também correspondeu a um «espírito de Natal» que devia ser imperativo mas de facto se tornou raro. Não será arrojo excessivo dizer que aquele balneário surge, em tempos de Natal, como uma espécie de presépio. Não onde nasça um Jesus menino, o que é costume festejar, mas sim onde um invisível Jesus é todos os dias crucificado.
Presépio
Porém, como a reportagem da SIC mostrou, as fomes que diariamente passam no balneário público de Alcântara não são apenas de natureza alimentar embora o sejam também. É que falta de roupa que permita uma defesa eficaz contra o frio (vestuário, cobertores), a marginalização social que condena os velhos ao deserto afectivo que é a solidão, a espera da morte em habitações degradadas contudo cheias de memórias que são afinal os sinais agridoces de uma vida inteira, correspondem a diversas formas de fome. E não se diga que apesar de tudo não se morre dessas penúrias, porque na verdade por elas se vai também esvaindo a vida numa espécie de hemorragia lenta. Por isso, o balneário da freguesia de Alcântara é muito mais que o lugar onde carenciados vão tratar do corpo, é porto de fugaz abrigo e ponto de dolorosa observação social que justifica não apenas a consternação mas também e sobretudo o alarme. A isso mesmo foram decerto sensíveis os autores da reportagem, os jornalistas Miriam Alves e Filipe Ferreira (escapou-me, infelizmente, o responsável pelo comentário musical a sublinhar com perfeita adequação tudo quanto na reportagem se via e ouvia, mais aquilo que facilmente se adivinhava). Na verdade, esta reportagem não apenas correspondeu às mais nobres tarefas que esperam o jornalismo, que são as de abordar o que de mais significativo e urgente ocorre na sociedade onde se inscreve, mas também correspondeu a um «espírito de Natal» que devia ser imperativo mas de facto se tornou raro. Não será arrojo excessivo dizer que aquele balneário surge, em tempos de Natal, como uma espécie de presépio. Não onde nasça um Jesus menino, o que é costume festejar, mas sim onde um invisível Jesus é todos os dias crucificado.