Dar um peixe ao pescador...

Jorge Messias
É frequente ouvir-se citar o provérbio chinês «se vires um pescador a morrer à fome não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar». A sentença é curiosa mas é evidente que se não se der ao pescador um peixe para comer morrerá de fome e já não poderá aprender a pescar. Ou seja, não há incompatibilidade entre o acto do socorro imediato e as medidas que, a prazo, ensinam ao pescador a arte de pescar. A diferença está na graduação dos dois actos. O peixe que é dado para afastar a fome pode ser oferecido por qualquer cidadão da sociedade civil. Mas as funções de ensino e de integração social competem ao Estado. É a este que o pescador deve exigir o seu lugar ao sol. Vem isto a propósito das confusões que, de forma deliberada, a Igreja e o Estado portugueses estabelecem em torno da prática da caridade e do cumprimento dos deveres estatais na sua área de competência.
A responsabilidade pela solução das questões da pobreza e do ensino não é de «todos nós», como astutamente nos afirmam. As soluções e os métodos de acção competem ao Estado, no quadro dos poderes e dos deveres constitucionais. E, como facilmente se constata, a promiscuidade entre a Igreja, o Estado e o Capital gera mais pobreza, mais atraso e mais corrupção.

As ajudas ao desenvolvimento

A forma típica que o capitalismo propõe aos povos para combater a pobreza resume-se à conhecida fórmula «dos que podem aos que precisam». Ou seja: aqueles que têm muito devem sentir caridade pelos que nada têm, desde que estes aceitem um certo modelo de organização que extinguirá o Estado.
Trata-se de uma fórmula neocapitalista que eterniza a pobreza. Se os pobres são pobres, é por terem sido explorados pelo sistema que os ricos agora lhes propõem como condição da promoção do desenvolvimento. Dizia Lénine, a propósito das causas da pobreza: «Foram as políticas bárbaras da civilização burguesa que construíram a prosperidade dos exploradores de um pequeno número de nações sobre a escravização de centenas de milhões de trabalhadores.» É o que actualmente acontece em todos os continentes. São cenários de pobreza vividos em territórios de uma riqueza ímpar. Os exploradores impõem aos povos a pobreza para se apropriarem das matérias-primas, escravizando a força do trabalho. Depois, envolvem os seus crimes nas roupagens do desenvolvimento, da civilização e da caridade. Disfarçam, porque sabem que a humilhação dos povos explorados se irá transformar, inevitavelmente, em luta de classes.
As operações tácticas do grande capital, sustentando e eternizando os estados de pobreza recorrem então ao malabarismo das palavras para melhor omitirem as situações reais. Não se fala em «terceiro mundo» mas em «países em vias de desenvolvimento». Nem se diz, nua e cruamente, que os ricos exploram os pobres, os patrões sugam os trabalhadores e a religião promove o obscurantismo. Para a propaganda, o capitalismo gera riqueza e a pobreza é fruto da inacção. Tenta-se ocultar que, mesmo no interior dos países «desenvolvidos» aumenta o número de explorados, progride a crise económica e que o modelo proposto para o desenvolvimento é, nos países desenvolvidos, exactamente o mesmo que o capital instala nas nações tecnicamente atrasadas. Portugal é disto um exemplo, nos índices sociais, nos níveis de corrupção e nos compadrios entre a Igreja e o Estado.
Na banca, levanta-se o véu a escândalos monumentais que fazem erguer das tumbas o Banco Ambrosiano e o cardeal Marcinkus. Os grupos económicos privados crescem oito vezes mais rapidamente que a riqueza nacional. Aumenta o desemprego, a fraude e a inflação. O Estado impõe as leis ditadas pelos banqueiros.
A Igreja tem importantes negócios em curso e a principal preocupação dos bispos portugueses é a boa gestão empresarial. O Estado retira-se, cria espaços vazios na área social e a Igreja, só ou em «parceria» com os capitais privados, ocupa-os. Chovem exemplos desta estratégia neocapitalista: as misericórdias partem ao assalto dos centros de saúde. As urgências dos hospitais são extintas em catadupa e substituídas por «alternativas» das comanditas entre a Igreja e os privados. O Estado abre à sociedade civil a gestão das universidades. O governo «descobre» que faltam no País creches e infantários; é a Igreja e são as misericórdias as instituições melhor posicionadas para preencherem estas falhas. E é um nunca acabar de casos idênticos: os novos hospitais privados, o ensino médico particular, os dinheiros para as ONGS e IPSS, o voluntariado dos desempregados, a ocupação estratégica do SNS e das sub-regiões de saúde, etc., etc. Sempre a partir de um mesmo esquema: a Igreja e os privados ocupam os espaços vagos; o Estado subsidia e paga. Veja-se o caso recente do futuro Hospital de Todos os Santos que o Estado constrói e a Igreja administra.
Assim vai a vida. Pobres dos bispos, tão assoberbados estão...


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