O Natal dos desempregados

Manuel Bravo
Nos discursos natalícios dos nossos governantes é habitual ouvirmos referências ao drama do desemprego, sempre apresentado como uma inevitabilidade das sociedades modernas, num mundo globalizado, blá, blá, blá... É também habitual ouvirmo-los falar de cor sobre as dificuldades e angústias dos desempregados, que nesta quadra se acentuam, etc., etc..
Palavras bonitas, mas sempre levianas e tão leves que o vento as leva na mesma hora, enquanto as políticas concretas para inverter a situação não vão sequer para a gaveta, pois não chegam a ser equacionadas.
Estamos, pois, em plena quadra natalícia. Dizem alguns que se trata de um período propício à reflexão. Façamo-la, então!
Nesta nossa reflexão, não podemos esquecer que, apesar das desigualdades serem gritantes, a tendência é no sentido da sua acentuação e o actual Governo tem contribuído de forma decisiva, activa e passivamente, para o agravamento do fosso entre ricos e pobres. O próprio Almeida Garrett, no séc. XIX, pasmaria, por certo, se soubesse quantos pobres custa hoje um rico.
Não podemos, também, deixar de ter em conta que a precariedade laboral alastra, como um surto epidémico, e que o Governo se prepara para tentar dar mais um rude golpe nos direitos de quem trabalha, objectivo já expresso no relatório da sua comissão do Livro Branco para a revisão da legislação laboral.
Não podemos olvidar que, contrariamente à promessa eleitoral do PS (criação de 150 mil postos de trabalho), o desemprego assume proporções alarmantes e não pára de crescer, trazendo à evidência a ausência total de uma política séria de emprego, por parte do Governo.
Não podemos esquecer que este Governo tem usado todos os artifícios e malabarismos para tentar escamotear os dados sobre o desemprego.
Não podemos deixar de lembrar que este mesmo Governo procedeu à revisão do regime jurídico de protecção no desemprego e veio assim dificultar, ainda mais, o acesso dos trabalhadores aos subsídios, veio impor-lhes novos deveres e aumentar as despesas dos desempregados para o seu cumprimento.
Não podemos deixar de considerar que, em matéria de formação profissional, a política deste Governo tem sido também desastrosa, não promovendo formação com vista à qualificação dos trabalhadores desempregados e à sua inserção no mercado de trabalho;
Não podemos esquecer que este Governo, numa linha de clara subserviência aos objectivos do capital, está tentado, mais uma vez, a fazer a vontade ao patronato e, na revisão do Código do Trabalho, entre outros maus propósitos, pretende facilitar os despedimentos, criando assim condições para que o desemprego aumente ainda mais.
Mas, nesta reflexão, não podemos também deixar de ter em conta a contestação popular a estas políticas, expressa nas enormes acções de massas, que têm vindo, em crescendo, a reclamar o direito a uma vida melhor.
Certamente, bastar-nos-á esta pequena reflexão para concluirmos que é urgente uma efectiva mudança de políticas, com implementação de políticas concretas para o desenvolvimento do País, que promovam a melhoria das condições de vida dos trabalhadores e do povo, em geral. E só então será Natal!

(*) Presidente da Direcção do Movimento dos Trabalhadores Desempregados


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