O Abrigo

Correia da Fonseca
Por razões técnicas que têm a ver com as necessidades da produção do Avante!, o texto que preenche esta dupla coluna deve ser alinhavado à segunda-feira. Por vezes, sob invocação de conveniência de abordar criticamente algum programa com transmissão anunciada para o serão de segunda-feira, é o limite para entrega do texto adiado para a manhã seguinte, o que implica um adicional esforço de boa-vontade por parte dos camaradas que subsequentemente o tratarão. É, pois, uma situação que deve ser excepcional: o abuso das boas-vontades alheias não é propriamente uma
atitude simpática. Ainda assim, porém, esta semana esteve-se mesmo à beirinha de apelar para o tal tratamento de excepção. Foi o caso que para o serão de segunda-feira passada estavam anunciados dois programas cujos conteúdos prometiam ser apetitosos, digamos assim. Um deles, o muito famoso «Prós e Contras», aplicar-se-ia a debater o incidente havido entre o presidente Hugo Chávez e El-Rei Don Ruan Carlos. Não seria preciso ser bruxo para adivinhar que ali se preparava mais um momento da campanha anti-Chávez que percorre o mundo ocidental. O outro programa, a ser transmitido pela RTP2, trazia um título por si só esclarecedor: «Comunismo – História de uma Ilusão». Claramente se previa que se tratava de mais uma missa de requiem por alma do comunismo, esse defunto teimosamente redivivo, e que quanto um olhar crítico acerca dela, a missa, poderia fazer seria reeditar mais uma vez as provas de que a notícia de tal falecimento são manifestamente exageradas como se dirá parafraseando a conhecida frase de Twain. Pelo que, enfim, nem num nem noutro caso se tratando de desatada sangria a que seria imperativo aplicar o torniquete contraditório da crítica fundamentada, bem poderia passar-se a um outro tema que eventualmente a TV nos propusesse e apelasse também para uma reflexão crítica. Reflexão que, como sempre, se exerceria sobre o conteúdo de algum momento do permanente fluxo televisivo: pois, ao contrário do que muito é sugerido, o importante na TV são os conteúdos e o que deles possam fazer germinar nas nossas cabecinhas por vezes tontas de telespectadores desprevenidos, não as maravilhas de um hardware tecnológico ao serviço de mediocridades ou imposturas. Ora, aconteceu justamente que a TV fez o favor de nos fornecer o tal outro tema, e por isso foi decidido relegar para outra altura, que aliás provavelmente não faltará, a irreverência de Chávez e o óbito do comunismo

Os suspeitos um a um

Foi uma breve reportagem de Cymerman, o correspondente da SIC no Médio Oriente: deu-nos ele notícia da construção do que vai ser o maior abrigo antinuclear do mundo, situado em Israel para protecção dos dirigentes israelitas civis e militares em caso de necessidade. Vimos breves imagens do lugar, aquilo que fazia lembrar uma gigantesca gruta subterrânea em desenho feito para ilustrar a «Viagem ao Centro da Terra» de Verne, e ouvimos o jornalista dizer que dali poderão os comandos de Israel continuar a dirigir o país em caso de guerra nuclear. Pelos vistos os coitados julgam que nessa sinistra eventualidade ainda haverá país para dirigir. Porém, o mais interessante da notícia e do facto que lhe está subjacente é que ela se constitui em denúncia de uma implícita ameaça nuclear que impenda sobre o Estado de Israel. É inevitável a pergunta: de onde virá tão feia coisa? De uma potência nuclear, decerto, mas de qual? Não seguramente dos Estados Unidos, nem da Grã-Bretanha ou da França, membros fundadores do «clube nuclear». É improvável que da Rússia, o outro membro fundador, pois é sabido que o uso de armas nucleares fora de um contexto de defesa e consequente resposta está fora do seu perfil político. Tirando este, quem sobra? A China, a Índia, o Paquistão, a África do Sul, tudo países que têm mais que fazer do que bombardear Israel. Após este sumário exame aos possíveis suspeitos, emerge naturalmente o sentido da denúncia que a construção do abrigo e a notícia (excepcionalmente consentida!) constituem: o denunciado é o Irão e a denúncia vem fornecer ao Estados Unidos, muito gentilmente, mais uma forcinha para as ameaças de ataque ao Irão que Washington vem fazendo regularmente. Pode não ser um apoio relevante. Mas assim se fazem as cousas, como escreveu um experiente autor antigo. E grão a grão enche o belicismo o papo.


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