No salão de Dona Fátima

Correia da Fonseca
Fátima Campos Ferreira reuniu na passada segunda-feira na sua mais visível casa de trabalho, que é o teatro/estúdio Armando Cortez, mais um punhado de convidados. Desta vez o tema da conversa foi a pobreza, no seguimento de um Dia Mundial consagrado ao projecto da sua erradicação. Quatro convidados em palco, mais uns tantos na plateia, como é costume. A primeira intervenção pertenceu ao eng. Alfredo Bruto da Costa, e ainda bem, porque sempre que Bruto da Costa veio à TV falar sobre a pobreza, que parece ser o tema da sua vida, ouvimos-lhe palavras justas, claras e corajosas, o que desgraçadamente não ocorre com grande parte de outras figuras eventualmente convocadas para debitarem sobre o mesmo assunto. Isso mesmo aconteceu na segunda-feira, com Alfredo Bruto da Costa a denunciar desde logo a hipocrisia que recentemente comandou a substituição da palavra «pobreza», pela expressão «risco de pobreza» fórmula menos inquietante para a generalidade das gentes. Por curioso acaso, ou talvez não, logo a seguir o dr. Luís Rodrigues, sociólogo, alargou a situação de pobreza para áreas surpreendentes aos olhos dos leigos, designadamente a info-exclusão que se caracteriza por o cidadão não possuir computador ligado a uma rede ou não ter acesso a um desses instrumentos, chamemos-lhe assim. Seguiram-se outras intervenções com mais alguns contributos até que Fátima Campos Ferreira decidiu definir o que em seu entendimento será a chave da questão: «-Em primeiro lugar é preciso criar riqueza!», disse ela. Para distribuir num tempo posterior. É uma sentença que muito se ouve, sobretudo na televisão, sempre ou quase sempre vinda dos que precisamente ainda estão na fase de acumular a riqueza que os próprios ou outros criam mas ainda estão distantes do momento da sua distribuição. Parece uma excelente ideia. A longuíssima experiência tem demonstrado, porém que tem um defeito: é que a altura da partilha nunca chega. Ou chega supostamente sob a forma não exageradamente eficaz, nem sequer digna, da maior ou menos esmola etiquetada cristãmente como caridade, que até é uma das três virtudes teologais (e ai fica com direito a maiúscula inicial) ou, de um modo mais laico e até mais moderno como solidariedade.

Sociedade que «não deixa»

A partir de certa altura, o eixo da generalidade das intervenções pareceu ter-se deslocado para este género de «partilha». Não se põe minimamente em dúvida os sentimentos excelentes de quem se aplica a transferir excedentes das mãos (ou das mesas) de quem os tem para as mãos (ou para as bocas) dos que têm défices de tudo. Aliás não apenas assim conseguem muitas vezes acudir ao mais urgente como esses lindíssimos procedimentos dão direito a substanciais indulgências no reino dos Céus, o que de modo nenhum é despiciente. Mas foi ainda com Alfredo Bruto da Costa que voltámos a ouvir coisas fundamentais. Perante o argumento de que a taxa de pobreza havia diminuído ligeiramente de 2004 para 2005, sublinhou que «o essencial do que se está a fazer não vai ao cerne do problema!». Mais: avisou de que «não basta dizer que não podemos aumentar as pensões e, usando gráficos para tornar televisivamente mais eficaz o que diria, lembrou que cerca de um terço dos dois milhões de pobres em Portugal estão empregados (mas a receber salários que não os arrancam da pobreza) e um outro terço são reformados (nas mesmas ou ainda piores condições). Lembrou que «há maneiras de criar riqueza aumentando a pobreza», citando o caso concreto da Irlanda, e que muitas vezes «os governos não podem porque a sociedade não deixa.» Citou ainda um estudo acerca da opinião dita pública sobre as causas da pobreza: 18% dos inquiridos atribuíram-na à má sorte, 30% à preguiça, 10% consideram-na «inevitável», o que significará que perto de 60% da população «não está preparada» (culturalmente, supõe-se) para contribuir para a efectiva erradicação da pobreza. Depois disto, o programa continuou ainda longamente. Mas, embora Bruto da Costa não tenha chegado a explicar porque é que «a sociedade não deixa», e que sociedade é essa, o que lhe ouvimos valeu o tempo que gastámos a ouvir outros e outras. É que, como se sabe, na TV as mais discretas verdades são pérolas raras. E reconfortam.


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