Torga

Correia da Fonseca

A televisão celebrou o centenário de Miguel Torga um dia mais cedo: o poeta nasceu a 13 de Agosto de 1907 e a TV comemorou o facto a 12. Não por estar movida por alguma irreprimível ansiedade, decerto, mas talvez antes porque assim lhe dava mais jeito. O dia 12 era domingo, dia de notícias escassas e programação por vezes difícil, o dia 13 seria em grande parte consagrado à Grande Peregrinação Imigrante a Fátima, antecipar Torga conviria, conciliava Terra e Céu, o poeta não iria queixar-se. Tudo bem, pois. De resto, RTP 1, SIC e TVI não se alongaram muito em comemorações, umas notícias alargadas foram consideradas bastantes, evocações mais demoradas ficaram a cargo da RTP 2, mais acolhedora para estas coisas de cultura, embora não o seja tanto quanto consta, e da RTPN para os que acedem à TV por cabo. Que tenham paciência os que porventura desejavam que as coisas fossem de outro modo, as coisas são como são, não se pode exigir mais de uma televisão que dá muito mais destaque e tempo de antena a festivais mais ou menos dominados por uma já não muito jovem trilogia, «sexo, drogas e rock’n’roll», que a eventos suspeitos de estarem implicados com a cultura. Por agora ainda Fátima escapa a critérios postergadores, mas também não admira porque Fátima, bem se sabe, é outra coisa, é um fenómeno que dá a volta ao mundo inteiro como uma espécie de primeira escala na velha Sanpetersburg como se pode depreender do muito que sobre ela se tem dito e escrito.

Até aos Pirinéus

Quanto a Torga, tudo é muito diferente deste tipo de transcendência e quando se lhe quer atribuir algum tipo de misticismo não há outro remédio que não seja o de supor vínculos místicos com a paisagem, a terra «carregada de sol e de pinhais», com as fragas. A gente lê um poema como «Livro de Horas» e logo se esclarece quanto a essa questão. Mas, já que se falou em paisagem, deixe-se já o recado que talvez seja o reparo mais importante a fazer aos que acerca de Torga se disse na televisão ao celebrar-se o seu centenário: muito se falou do seu individualismo, da sua difícil sociabilidade, e muito pouco da fraternidade comovida e militante que é a outra e porventura a mais robusta vertente da sua poesia, para não dizer que de toda a sua obra. Até os títulos de alguns dos seus mais importantes livros depõem nesse sentido: Libertação, Cântico do Homem. Também as palavras de muitos dos seus mais belos poemas: «Fronteira», «Rendição», «Legado», «Dies Irae», «Fé», «Drama», aquele exasperado «Ar Livre» e mais todos os outros que não acodem agora à memória. E já que me lembrei de «Fronteira», cabe lembrar não apenas o Poemas Ibéricos


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