A Cantata da Revolução
A chamada Cantata Outubro – título abreviado pelo qual ficou conhecida a Cantata para o 20º. Aniversário da Revolução de Outubro, op. 74 – começou a ser idealizada por Sergei Prokofiev no início da década de 1930, depois de o compositor se ter debruçado sobre alguns textos clássicos de Lenine e empolgado pela ideia de compor uma obra de grandes proporções inspirada pela Revolução de 1917.
Os trabalhos de composição da obra tiveram início em 1936, tendo-a Prokofiev (que entretanto acrescentara ao libreto a ser executado pelo coro textos originais de Marx e Stáline) concluído no verão de 1937.
As razões por que a peça não foi então estreada mantêm-se obscuras (o próprio Prokofiev terá colocado eventualmente esclarecedoras limitações), embora sejam seguramente inseparáveis da intensa batalha ideológica que opunha então na URSS formalistas e modernistas, concedendo aliás a vários aspectos da obra interpretações polémicas que se mantêm e acabam a constituir um efectivo índice da sua riqueza.
A extrema dificuldade na sua execução não terá sido igualmente alheia ao facto de a Cantata se ter mantido inédita até Maio de 1966 (sendo contudo significativo da importância que o autor lhe atribuiria o facto de não ter utilizado para outras obras entretanto compostas senão uma mínima sequência dos numerosos e frutíferos temas que para ela criara). À estreia não terá sido alheia à realização dos XX e XXII Congresso do PCUS, até na medida em que a versão editada na URSS e dirigida pelo prestigiado Cyril Kondrashin não respeita a versão original, realizando alguns cortes relacionados com o libreto do coro e respectivo envolvimento musical. O atraso de treze anos na estreia e os cortes então efectuados continuam, evidentemente, a ser objecto de intermináveis especulações, para as quais a melhor resposta é, como sucederá na Festa do «Avante!», a execução integral da composição de Serguei Prokofief
Prokofiev sempre gostou de utilizar grandes massas orquestrais mas jamais se tinha aventurado, até aí, a convocar um tão grande número de executantes para qualquer das suas obras anteriores. Se se pensar, apenas, na componente coral, é um gigantesco conjunto de vozes que, de facto, estará presente em palco, uma vez que ao longo da obra as vozes têm que dividir-se em dois coros e estes em nada menos que em oito partes! Quanto à formação básica da orquestra sinfónica, ela própria é aumentada de um considerável número de músicos, desde logo nos naipes de sopros – com uma dúzia de «madeiras», oito trompas, quatro trompetes, quatro trombones, duas tubas – aos quais se acrescenta um naipe reforçado de cordas – violinos, violas, violoncelos e contrabaixos – e a habitual secção de percussão, tímpanos, harpas e teclados.
Mais ainda, em momentos particularmente importantes e exigentes da Cantata – e cujo significado e ilustração sonora justificariam um instrumentário mais diversificado e adequado – Prokofiev necessitou de fazer apelo a três agrupamentos instrumentais extra: uma pequena orquestra de acordeões (o bayan russo, passível de ser substituído, no todo ou em parte, por concertinas ou instrumentos da mesma família), portanto uma evocação do domínio da música popular e cuja inclusão se faz ouvir, num brilhante efeito de surpresa, no sexto andamento, Revolução; uma «banda militar» constituída por instrumentos das famílias dos metais e dos saxofones que se ouve em fundo, nos bastidores do palco; e, finalmente, toda uma panóplia de dispositivos de percussão comuns, sirenes de alarme, megafones ou ruídos de passos em marcha ou de disparos de vários tipos de armas, capazes de traduzir uma crescente atmosfera sonora de confronto e batalha, para além da própria voz de Lenine.
Nunca antes tocada no Ocidente e sobretudo conhecida em versões de diversa duração e amplitude nos ex-países socialistas do Leste Europeu, a Cantata para o 20º. Aniversário da Revolução de Outubro, op. 74 acabou por ter a sua estreia integral em 6 de Junho de 1992 no Royal Festival Hall (Londres) sob a direcção de Neeme Järvi.
Obra de grande impacte sonoro e instrumental e de um significado que ultrapassa a própria qualidade estética e musical, inúmeros momentos da estratégia de escrita da Cantata Outubro estão à altura de outras grandes obras-primas de Prokofiev cujo conteúdo temático e dramatúrgico é relativamente próximo ou equiparável, como a Ode para o Fim da Guerra, Alexandre Nevsky ou a ópera Guerra e Paz. Mas a trajectória musical de Sergei Prokofiev – tanto nos seus primeiros tempos de compositor na Rússia czarista como depois no Ocidente (EUA, França, Alemanha) onde se radicou após a Revolução de 1917, como mais tarde no seu regresso à União Soviética em 1936, contém uma riqueza que se traduz em grandes obras de muito diversa configuração composicional e instrumental como a ópera O Amor das Três Laranjas, o bailado Romeu e Julieta, o conto musical para crianças Pedro e o Lobo, a Primeira Sinfonia («Clássica») ou a Quinta Sinfonia (op. 100) , o Terceiro Concerto para Piano, a música para os filmes Ivan, O Terrível ou O Tenente Kije, a Sétima Sinfonia, o bailado Flor de Pedra, o Segundo Quarteto de Cordas ou a Sinfonia Concertante para Violoncelo e Orquestra, entre tantos outros.
Os trabalhos de composição da obra tiveram início em 1936, tendo-a Prokofiev (que entretanto acrescentara ao libreto a ser executado pelo coro textos originais de Marx e Stáline) concluído no verão de 1937.
As razões por que a peça não foi então estreada mantêm-se obscuras (o próprio Prokofiev terá colocado eventualmente esclarecedoras limitações), embora sejam seguramente inseparáveis da intensa batalha ideológica que opunha então na URSS formalistas e modernistas, concedendo aliás a vários aspectos da obra interpretações polémicas que se mantêm e acabam a constituir um efectivo índice da sua riqueza.
A extrema dificuldade na sua execução não terá sido igualmente alheia ao facto de a Cantata se ter mantido inédita até Maio de 1966 (sendo contudo significativo da importância que o autor lhe atribuiria o facto de não ter utilizado para outras obras entretanto compostas senão uma mínima sequência dos numerosos e frutíferos temas que para ela criara). À estreia não terá sido alheia à realização dos XX e XXII Congresso do PCUS, até na medida em que a versão editada na URSS e dirigida pelo prestigiado Cyril Kondrashin não respeita a versão original, realizando alguns cortes relacionados com o libreto do coro e respectivo envolvimento musical. O atraso de treze anos na estreia e os cortes então efectuados continuam, evidentemente, a ser objecto de intermináveis especulações, para as quais a melhor resposta é, como sucederá na Festa do «Avante!», a execução integral da composição de Serguei Prokofief
Prokofiev sempre gostou de utilizar grandes massas orquestrais mas jamais se tinha aventurado, até aí, a convocar um tão grande número de executantes para qualquer das suas obras anteriores. Se se pensar, apenas, na componente coral, é um gigantesco conjunto de vozes que, de facto, estará presente em palco, uma vez que ao longo da obra as vozes têm que dividir-se em dois coros e estes em nada menos que em oito partes! Quanto à formação básica da orquestra sinfónica, ela própria é aumentada de um considerável número de músicos, desde logo nos naipes de sopros – com uma dúzia de «madeiras», oito trompas, quatro trompetes, quatro trombones, duas tubas – aos quais se acrescenta um naipe reforçado de cordas – violinos, violas, violoncelos e contrabaixos – e a habitual secção de percussão, tímpanos, harpas e teclados.
Mais ainda, em momentos particularmente importantes e exigentes da Cantata – e cujo significado e ilustração sonora justificariam um instrumentário mais diversificado e adequado – Prokofiev necessitou de fazer apelo a três agrupamentos instrumentais extra: uma pequena orquestra de acordeões (o bayan russo, passível de ser substituído, no todo ou em parte, por concertinas ou instrumentos da mesma família), portanto uma evocação do domínio da música popular e cuja inclusão se faz ouvir, num brilhante efeito de surpresa, no sexto andamento, Revolução; uma «banda militar» constituída por instrumentos das famílias dos metais e dos saxofones que se ouve em fundo, nos bastidores do palco; e, finalmente, toda uma panóplia de dispositivos de percussão comuns, sirenes de alarme, megafones ou ruídos de passos em marcha ou de disparos de vários tipos de armas, capazes de traduzir uma crescente atmosfera sonora de confronto e batalha, para além da própria voz de Lenine.
Nunca antes tocada no Ocidente e sobretudo conhecida em versões de diversa duração e amplitude nos ex-países socialistas do Leste Europeu, a Cantata para o 20º. Aniversário da Revolução de Outubro, op. 74 acabou por ter a sua estreia integral em 6 de Junho de 1992 no Royal Festival Hall (Londres) sob a direcção de Neeme Järvi.
Obra de grande impacte sonoro e instrumental e de um significado que ultrapassa a própria qualidade estética e musical, inúmeros momentos da estratégia de escrita da Cantata Outubro estão à altura de outras grandes obras-primas de Prokofiev cujo conteúdo temático e dramatúrgico é relativamente próximo ou equiparável, como a Ode para o Fim da Guerra, Alexandre Nevsky ou a ópera Guerra e Paz. Mas a trajectória musical de Sergei Prokofiev – tanto nos seus primeiros tempos de compositor na Rússia czarista como depois no Ocidente (EUA, França, Alemanha) onde se radicou após a Revolução de 1917, como mais tarde no seu regresso à União Soviética em 1936, contém uma riqueza que se traduz em grandes obras de muito diversa configuração composicional e instrumental como a ópera O Amor das Três Laranjas, o bailado Romeu e Julieta, o conto musical para crianças Pedro e o Lobo, a Primeira Sinfonia («Clássica») ou a Quinta Sinfonia (op. 100) , o Terceiro Concerto para Piano, a música para os filmes Ivan, O Terrível ou O Tenente Kije, a Sétima Sinfonia, o bailado Flor de Pedra, o Segundo Quarteto de Cordas ou a Sinfonia Concertante para Violoncelo e Orquestra, entre tantos outros.