O propagandista

José Casanova
Vital Moreira não perdeu tempo: em cima da hora e em bicos de pés, apressou-se a cumprir e mostrar que cumpria o seu papel de propagandista da política de direita e do seu mais exímio praticante, José Sócrates –segundo a sua análise, «o grande triunfador da jornada política de domingo». Que é como quem diz: força Sócrates, para a frente com a flexigurança; com a liquidação do SNS; com o ataque aos direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores e dos cidadãos; com o alargamento da rede de bufos e delatores às mais recônditas paragens; com a prepotência e a arrogância; com a liquidação do regime democrático de Abril; com a entrega da independência nacional aos patrões da Europa e dos EUA – e viva a democracia: a do propagandista, que é a do primeiro-ministro e do seu governo, a bem da nação: portugueses, quem vive?: Portugal, Portugal, Portugal!, portugueses, quem manda?: Sócrates, Sócrates, Sócrates!
Diz o propagandista que «o lamentável comportamento dos partidos no governo municipal de Lisboa pode justificar o castigo que quase todos sofreram» - o «quase» serve, é claro, para realçar a «excepção»: «o PS, único que melhorou os resultados de há dois anos». (Melhorou?: ó propagandista faça lá bem as contas). Assim, cabe ao novo presidente da Câmara, Vital o diz, entre outras coisas, «restaurar a credibilidade política dos partidos na capital». Já agora podia explicar que partidos precisam dessa «restauração», e ensinar que ela deve ter como principal destinatário precisamente o PS – cujos entendimentos com a direita foram decisivos para que a Câmara de Lisboa chegasse ao estado a que chegou.
Vital ensina, ainda, uma outra «lição a tirar destas eleições, a saber: a necessidade de «uma profunda reforma do sistema de governo municipal». Das hipóteses que coloca, não é difícil aprender que no pensamento do professor está qualquer coisa que, mais coisa menos coisa, se aproxima de uma coisa parecida com um sistema de governo que confira ao primeiro candidato da lista mais votada poderes absolutos para fazer o que quiser e lhe apetecer. A bem da democracia. E da Nação.


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