A feia notícia
A informação nasceu na primeira página de um jornal diário e estoirou nos noticiários da manhã de todos os canais abertos: uma comissão de peritos terá recomendado um pesadíssimo agravamento de custos para os utentes do Serviço Nacional de Saúde que se atrevam a recorrer aos cuidados médicos, designadamente sob a forma de consultas, «sem justificação clínica». Não foram acrescentados pormenores à notícia, provavelmente porque as próprias redacções não os conheciam, mas pareceu óbvio que por detrás da aliás nada surpreendente recomendação dos peritos terá estado a suspeita, se não convicção, de que os utentes do SNS adoram acorrer aos postos clínicos ou lugares equivalentes, aguentar horas de espera, sofrer a cansada impaciência de muitos funcionários para quem o guichet é simultaneamente trincheira e torre de comando, arrastarem-se de novo para casa horas e horas depois, e tudo isto «sem justificação clínica», por puro prazer. Aliás, como decerto todos nós lembramos, suspeita idêntica perpassou nos cérebros dirigentes quando, há uns meses atrás, se tratou da revisão das taxas moderadoras, tendo-se mesmo ficado à beirinha de presumir que magotes de cidadãos encheriam ilegitimamente as listas de espera para intervenções cirúrgicas sem efectiva necessidade clínica, porventura apenas ávidos de conhecerem por dentro os blocos operatórios dos hospitais lusitanos. Temos, pois, que a altamente provável suspeita dos peritos que formularam esta última proposta já tinha precedentes pela mão de outros peritos não menos ilustres e competentes, a menos que, por curiosa coincidência, tenham sido os mesmos. De qualquer modo, o certo é que os noticiários matinais da passada segunda-feira produziram comoção e impacto em muitos cidadãos, sobretudo nos que integrando a massa de cerca de dois milhões de velhos, quase todos eles pobres, que vão sobrevivendo em Portugal para grande mal da Segurança Social e do Serviço Nacional de Saúde, mais se sentiram sob o risco de serem acusados de recorrerem aos médicos «sem justificação clínica» e, portanto, incorrerem no seu «uso excessivo». Isto porque sendo muito limitados, como facilmente se acreditará, os conhecimentos da gente vulgar na área da medicina do diagnóstico, a qualquer momento uma dor forte no peito, uma dificuldade respiratória, uma ponta de febre mais alta, pode induzir esses utentes em erro e levá-los a procurar médico. Dir-se-ia mesmo que, em face do que se sabe da proposta dos peritos, mesmo uma diarreia forte e persistente pode conduzir ao mesmo efeito. E, sendo assim, lá estarão eles em risco de esportular cerca de cinco contos em moeda antiga para aprenderem a corrigir o uso excessivo.
Quem?
É provável que novas informações sobre este assunto venham a público depois deste apontamento ser escrito e publicado mas, na dúvida, talvez não seja inútil deixar aqui registada a conveniência de se esgravatar um pouco e de se averiguar que espécie de criaturas são os peritos que produziram tão notável proposta. Formulada para nosso bem, acrescente-se, pois o que é prioritário é viabilizar o Serviço Nacional de Saúde, e é claro que quem tem de contribuir para essa viabilização, digamos que para esse alargado peditório, hão-de ser os utentes, mesmo os velhos e os de saúde nada inspiradora de confiança, sobretudo esses, pois já se sabe que não há outra maneira de arranjar dinheiro, outro lugar onde ir buscá-lo. Então, e retomando o fio a esta curta meada, ocorre perguntar quem são esses sábios: se são gente que conheça o povo português e as angústias que sobre ele têm vindo a ser continuamente disparadas, se são cavalheiros e cavalheiras que à sua decerto superior capacidade técnica acrescentam o conhecimento por dentro do que é a velhice e a sua fragilidade, a doença e as suas incertezas. Por mim, sujeito de boa-fé e inesgotavelmente crédulo, estou certo de que sim, de que conhecem tudo isso e muito mais. De que tomaram essas e outras realidades penosas, duríssimas, como factores a ter em conta antes de apresentarem a sua proposta. Estou certo de que sim porque, caso assim não fosse, estaríamos perante um acto onde teriam sido decisivos, em alternativa, a incompetência ou o inescrúpulo. Uma outra hipótese, aliás de todo absurda, seria a de os peritos o serem também na delicada matéria de proporem o que ao governo convém que seja proposto. Mas esta não é eventualidade que sequer mereça ser examinada: por cá, tais coisas não se fazem.
Ou fazem?
Quem?
É provável que novas informações sobre este assunto venham a público depois deste apontamento ser escrito e publicado mas, na dúvida, talvez não seja inútil deixar aqui registada a conveniência de se esgravatar um pouco e de se averiguar que espécie de criaturas são os peritos que produziram tão notável proposta. Formulada para nosso bem, acrescente-se, pois o que é prioritário é viabilizar o Serviço Nacional de Saúde, e é claro que quem tem de contribuir para essa viabilização, digamos que para esse alargado peditório, hão-de ser os utentes, mesmo os velhos e os de saúde nada inspiradora de confiança, sobretudo esses, pois já se sabe que não há outra maneira de arranjar dinheiro, outro lugar onde ir buscá-lo. Então, e retomando o fio a esta curta meada, ocorre perguntar quem são esses sábios: se são gente que conheça o povo português e as angústias que sobre ele têm vindo a ser continuamente disparadas, se são cavalheiros e cavalheiras que à sua decerto superior capacidade técnica acrescentam o conhecimento por dentro do que é a velhice e a sua fragilidade, a doença e as suas incertezas. Por mim, sujeito de boa-fé e inesgotavelmente crédulo, estou certo de que sim, de que conhecem tudo isso e muito mais. De que tomaram essas e outras realidades penosas, duríssimas, como factores a ter em conta antes de apresentarem a sua proposta. Estou certo de que sim porque, caso assim não fosse, estaríamos perante um acto onde teriam sido decisivos, em alternativa, a incompetência ou o inescrúpulo. Uma outra hipótese, aliás de todo absurda, seria a de os peritos o serem também na delicada matéria de proporem o que ao governo convém que seja proposto. Mas esta não é eventualidade que sequer mereça ser examinada: por cá, tais coisas não se fazem.
Ou fazem?