Discurso em Setúbal

Correia da Fonseca
O «Opinião Pública» do passado dia 11 ocupou-se do discurso que na véspera o Presidente da República pronunciara em Setúbal no âmbito das comemorações do 10 de Junho. Como se sabe, o «Opinião Pública», da Sic-Notícias, é um programa que acolhe em directo os comentários de telespectadores acerca de um tema escolhido pela estação enquanto em estúdio está uma personalidade convidada a quem cabe esclarecer o que porventura careça de esclarecimento ou comentar os comentários ouvidos. Desta vez, o convidado foi o jornalista Eduardo Dâmaso mas, como aliás muitas vezes acontece com quaisquer outros, as suas intervenções não foram especialmente interessantes, o que não significa necessariamente penúria de méritos mas talvez escassez de oportunidades. Em compensação, foi notório haver da parte de muitos telespectadores desapontamento e desencanto perante o discurso que o PR proferira, e esse desencanto e desapontamento (quando não expressa irritação), esses sim, são motivo de interesse porque, enfim, são vozes do povo mesmo que não sejam vozes dos deuses. É certo que as palavras presidenciais estiveram desde logo muito longe de serem galvanizantes, antes pelo contrário, é mesmo preciso reconhecer que foram sobre o chocho. Mas isso é o menos e não é surpresa: bem se sabe que o senhor professor Cavaco não tem vocação para as letras, que é antes um homem de números, ele próprio já uma vez explicou perante câmaras e microfones que lá em casa tem quem se ocupe dessas coisas das palavras. Aliás, já na véspera havia sido penoso ouvi-lo ler custosamente a primeira estrofe de «Os Lusíadas», aquele poema que ele agora sabe muito bem que tem dez cantos. Reconheçamos, porém, que a maioria do eleitorado não o elegeu para recitador. De resto, também é mais ou menos sabido que não é o presidente que escreve os seus discursos de uma ponta a outra, que também para isso tem os assessores necessários e em princípio adequados. O que talvez tenha acontecido é que não os tenha escolhido optimamente e, sendo assim, a coisa é um bocado chata porque não se trata de assunto em que possa alegar-se que gostos não se discutem. Aliás, como também se sabe, na generalidade dos casos os gostos discutem-se, sim senhores, e, mais ainda, educam-se. Mas esse é um outro assunto que já pouco ou nada tem com o discurso de Setúbal.

«Todos» e «alguns»

O discurso foi, pois, salvo melhor opinião, um bocado para o chocho, mas cada qual terá sobre ele o parecer mais condizente com as suas próprias opiniões e situação, por exemplo, ao senhor primeiro-ministro, o que mais terá desagradado terá sido talvez aquela parte em que o PR se mostrou insatisfeito com a pequenez do crescimento económico. Contudo, para o comum dos cidadãos, e são os cidadãos comuns que intervêm no «Opinião Pública», o mais desagradável terá sido a maneira vaga e generalizada como o PR se referiu ao necessário esforço de «todos» para enfrentarmos e ultrapassarmos as dificuldades actuais. Porque parecem terem escapado ao senhor presidente um ou dois factos que aos tais cidadãos comuns dificilmente escapam. Um deles é que as dificuldades actuais não são sentidas de igual modo por «todos» os portugueses. Um outro é que não foram «todos» os portugueses que contribuíram para que o País esteja agora numa situação difícil, tal como nem «todos» os portugueses têm vindo a arrecadar proventos, alguns deles fabulosos, com o percurso percorrido desde há anos pelas políticas económica e financeira que nos conduziram ao ponto onde estamos. É claro que o senhor Presidente da República é, como diz a fórmula consagrada, o «presidente de todos os portugueses», mas essa condição não é uma espécie de miopia que impeça o PR de se aperceber de diferenças, de entender as coisas. É certo que o senhor professor e presidente já se deu conta, decerto que há muito tempo, da existência de excluídos, de idosos, de desempregados, de imigrantes. E, digamos, tem pena deles, como do seu discurso ficou claro. Mas de muitas opiniões recolhidas em «Opinião Pública» se percebeu que há cidadãos a pensarem que esse reconhecimento e essa implícita compaixão são pouca coisa. Talvez que na presidencial interpretação da realidade portuguesa e dos caminhos necessários haja uma inflação da ideia de «todos» e uma deflação da identificação de «alguns». Por mim, que aliás não sou praticamente ninguém, peço licença para me demarcar do eventual conceito segundo o qual é de «todos nós» a responsabilidade pela actual situação do País. Perdoe-se-me, mas minha não é. E julguei aperceber-me de que muitos dos intervenientes no «Opinião Pública» estão possuídos por idêntica convicção no que lhes diz respeito. Até de que alguns deles se sentem vítimas. O que pode implicar a convicção de que existem algozes.


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