Crise do “modelo” federado

A. Mello de Carvalho
A emergência dos «modelos» da prática desportiva fez-se no meio de enormes contradições. De facto, tendo surgido com origem social bem determinada (aristocracia e alta burguesia) e finalidades bem definidas (codificação dos jogos da população e oposição a que a classe trabalhadora pudesse aceder à prática desportiva) o modelo dominante, o chamado modelo federado, agregando os clubes de carácter selectivo e segregativo, nunca tomou verdadeira consciência das necessidades da generalidade da população.
O modelo parte do principio de que só os jovens estão aptos para fazer desporto, e, entre estes, escolhia e escolhe, os mais dotados. Naturalmente, o modelo vai entrando progressivamente em contradição com a evolução sócio-económica, visto que um número cada vez mais elevado de indivíduos vai tomando consciência de que também tem direito a praticar.
As novas condições de trabalho e de vida, provocadas pela evolução da Revolução Industrial e pelos resultados das lutas dos trabalhadores em conseguir melhorar a qualidade de vida, leva não só ao tão apregoado aumento do tempo livre, como ao desejo de usufruir daquilo que, até antes da última Grande Guerra, estava reservado a uma pequeníssima percentagem da população, e que agora parece começar a estar ao alcance de «todos». O modelo entra progressivamente em crise, porque o princípio orientador da sua actividade se orienta para a selecção dos mais dotados.
A agregação de vários clubes, através das suas secções desportivas, em Federações Nacionais e Associações Regionais, deu origem ao chamado «modelo federado». Este começa a viver dificuldades de carácter novo logo na década de sessenta, dando lugar a uma autêntica crise com a generalização do profissionalismo entre atletas. A alta competição, constituindo um subsistema com especificidade própria, coloca exigências de tal modo elevadas a que o clube não tem capacidade para fornecer resposta. As chamadas «secções amadoras», em muitos casos, entram em colapso e o sensacionalismo dos órgãos de informação toma conta, durante os últimos 20 anos, dos grandes acontecimentos desportivos – inclusive criando-os eles próprios à margem das federações.

Um modelo em crise

A crise do modelo federado é, assim profunda. Incapaz de fornecer resposta às necessidades do «alto rendimento», não conseguindo resolver as relações com o sector escolar com quem entra em permanente litígio, também rejeitando a integração dos praticantes do desporto para todos, as suas dificuldades culminam na contradição maior, ao exigirem ao Estado os meios para o seu funcionamento quando, facto significativo, a maioria dos seus dirigentes exprime claramente uma opinião precisa a favor da teoria do «menos Estado» em relação à totalidade da vida social.
Na situação actual o desporto federado limita-se a fornecer resposta a um pequeno segmento da procura (a percentagem de «federados» é, no nosso País, de cerca de 4% da população). No entanto, no quadro geral da prática desportiva portuguesa, esta resposta continua a assumir um carácter determinante, na medida em que o País ainda está longe de ter estruturado um autêntico «subsistema» de alto nível. A grande maioria dos elementos que integram as equipas nacionais e se afirmam nos quadros competitivos europeus ou mundiais, continuam a ser detectados, formados e orientados pelos clubes (recrutamento nos pequenos e médios clubes que se encarregam da formação, e especialização nos maiores) e as associações regionais e as federações continuam a encontrar enormes dificuldades em apoiarem, racionalizando e organizando eficazmente todo esse trabalho.
No pólo oposto, naquilo a que poderíamos chamar a «crise da abundância», encontram-se os «grandes» clubes, os verdadeiros elementos estruturadores do modelo. Também aí a crise é permanente, apesar de constituírem as autênticas estruturas do espectáculo desportivo, elemento estruturante do actual modelo federado. Crise que muitos entendem não ser só de natureza financeira, pois assume aspectos éticos essenciais (corrupção, traficância de influências, movimentação de verbas astronómicas, esbanjamento de meios, etc.). No entanto, é aqui que mais são aplicadas as modernas técnicas de management e de marketing o que não deixa de constituir uma outra faceta curiosa da crise que mostra, com enorme clareza, que ela não se radica na ausência da tão defendida «gestão empresarial».
Como se pode ver a crise do «modelo federado» é global e, por uma ou outra razão, percorre toda a estrutura de lés a lés. Será bom não se esquecer esta conclusão quando se analisar o processo de desenvolvimento desportivo de acordo com a indispensável visão globalizante.


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