O Clube dos Quatro

Correia da Fonseca
A história, aliás triste história, é conhecida: a pretexto das eleições presidenciais francesas, o «Prós e Contras» aplicar-se-ia, na passada segunda-feira, a averiguar o que ainda é isso de Esquerda e Direita, se é que a diferença subsiste. Note-se que o mero facto de se colocar a questão já induz a possibilidade de resposta negativa, isto é, de isso de Direita e Esquerda serem reminiscências de um passado obsoleto e aliás abominável, herança maléfica da Revolução Francesa: não se põe em dúvida a existência do dia e da noite, por exemplo. A questão, como bem se sabe, é que os campeões da modernidade, que são muitos e bem distribuídos, sustentam com maior ou menor clareza que isso de Direita e Esquerda é história antiga que só serve para empatar, lenda só ainda repetida por velhos sobreviventes de um tempo que aliás não existiu, meio caminho andado para insinuar a existência de uma coisa designada por «luta de classes» que de resto também não há. Ora, neste quadro entende-se que o «Prós e Contras» teria de seleccionar muito cuidadosamente os participantes no anunciado debate. Nada de comunistas, gente inconveniente e teimosa que aliás praticamente também não existe. Porém, porque a exclusão dos comunistas poderia ser tomada, é claro que erradamente, por défice de pluralismo político, ocorreu à jornalista que é a dona-da-casa no «Prós e Contras» avançar publicamente com uma outra explicação. Louvo-me na transcrição de palavras suas tal como as publicou o insuspeito «Público» de 7 do corrente: «foram convidados quatro pensadores, escolhidos pelo seu valor intelectual». Estamos pois esclarecidos: para a dona Fátima Campos Ferreira os comunistas serão pouco mais que uma cambada de burros, pelo que seriam tempo e espaço perdidos convidar um deles para se sentar junto de cérebros como, por exemplo, o dr. Paulo Rangel, estrela em manifesta ascensão no firmamento PSD. É preciso admitir que a explicação não é um grande exemplo de cortesia e mesmo de boa educação, mas se dona Fátima Campos Ferreira é assim nada mais há a fazer que conformarmo-nos. Aliás, ao encerrar o programa, já então se caminhava para as duas da madrugada, a simpática senhora argumentou de uma outra forma: disse que os convites para o seu programa não tinham a ver com o «arco» (palavra que está a usar-se muito neste contexto) da representação parlamentar. Perante o que não podemos fazer muito mais que soltarmos um sintético comentário: «- Pois!...»

Uma triste sequência

Quanto ao debate propriamente dito, nem foi caso para nos atrevermos a sobre ele tecermos muitas reflexões. Desta vez, e ao contrário do que é costume no «Prós e Contras», não houve intervenções colhidas na plateia. Uma questão de simplificação e cautelas, supõe-se. A direita estava representada pelo prof. Adriano Moreira; mas será útil notar que a direita a que o professor pertencerá é a que emerge da chamada Doutrina Social da Igreja, isto é, do esforço que em dado momento a igreja de Roma fez para de algum modo «ser de esquerda». De onde alguma confusão possível. O outro suposto representante da Direita era o já referido dr. Rangel, mas não recordo nada de interessante que por ele tenha sido dito, de onde me permito suspeitar de que o convite foi feito sobretudo para nos habituarmos mais um pouco à sua presença televisiva enquanto esperamos que ele, Rangel, cresça e apareça. A Esquerda foi representada, antes do mais, por Mário Soares que, aliás, está agora a viver uma fase muito esquerdizada, pelo que a sua presença era mais que compreensível, inevitável. Porém, infelizmente as gentes portuguesas já sabem tudo acerca do perfil de Mário Soares como homem de Esquerda, tanto e de tal modo que por vezes o confundem com um homem da Direita mas em versão mais eficaz. Deste breve inventário das presenças no palco do Teatro Armando Cortês resta Miguel Portas. Ainda sou do tempo em que Miguel Portas era militante do PCP. Mas não se deu bem, parece. É sabido que há mais como ele, espalhados agora pelos recantos de outros partidos, e não é nada que espante porque ser militante do PCP nem é coisa fácil nem nada que suscite aprovações e aplausos generalizados. Do que a Miguel Portas se ouviu na segunda-feira é possível confirmar o que já se podia concluir: que a sua passagem pelo PCP lhe permitiu juntar à inteligência de que já dispunha algumas avulsas ideias de Esquerda desligadas de um projecto global e coerente para uma sociedade futura, activo este de que o Bloco não dispõe, o que até o torna simpático aos olhos da Direita. Assim, supor que um homem como Miguel Portas poderia, integrando o «Clube dos Quatro» em que este «Prós e Contras» se tornou, substituir uma voz do PCP, só mesmo na cabecinha de Fátima Campos Ferreira ou na de quem porventura a tenha ajudado. Não, seguramente, na cabeça dos milhares que bem sabem que a Esquerda coerente e firme é, em Portugal, o Partido Comunista Português. Que sempre sobrevive às calúnias, aos boicotes, às RTP’s, às Fátimas. Décadas atrás, um censor fascista despachou que «este partido não existe». Infelizmente para ela, Fátima Campos Ferreira agiu de modo a situar-se na triste sequência desse anónimo mas histórico pateta.



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