Corrigir o tiro

Jorge Messias
Tentando simplificar o que é complicado, bem poderia dizer-se que o país político actual se descreve em meia dúzia de palavras.
Sócrates não governa, aterroriza. Destrói e cria condições para se instalar a ditadura do capital. Os empresários não produzem riqueza mas apenas dinheiro que depois distribuem entre si. A Constituição e as Conquistas de Abril são valores diariamente ultrajados. Chama-se diálogo à imposição, coragem ao banditismo, democracia à farsa política. A Igreja só existe no mundo do lucro e do negócio. Se isto não é inteira novidade, a forma como ela hoje aluga e vende os seus próprios valores não é comparável com as outras idades da História.
No caso do referendo da despenalização da IVG, as estratégias concertadas das forças do não são já bem evidentes. O PS diz-se preso aos compromissos de honra assumidos por Guterres. Por isso, propôs o referendo. Mas Sócrates tem dúvidas quanto aos resultados da consulta ...
O PSD dá liberdade de voto aos seus militantes mas Marques Mendes declara que vai votar não. O CDS subscreve integralmente as posições da igreja. E a igreja assume-se como campeã dos dogmas do obscurantismo.
Trata-se de uma evidente repartição de tarefas. Aos partidos do chamado «centro-direita», compete embotar o sentido do voto, desmobilizar e empurrar as populações para a abstenção. Repetir o que se passou em 1998... À hierarquia atribui-se o papel vital das funções de choque e da coordenação das componentes mais fundamentalistas da igreja.
Em nome da fé mas sem quaisquer escrúpulos. De aí, a enorme baralhada entre despenalização e liberalização, embrião e feto, cultura e civilização, progresso e tradição, Senhora do Céu/Virgem de Lurdes/Virgem de Fátima,
e a imensa seara das injustiças e da corrupção onde a igreja cala e consente. Ao fim e ao cabo, o que a direita e as forças da “fé e tradição” procuram implantar no povo, é a convicção de que não vale a pena lutar e que é fatal que tudo fique na mesma. À injustiça sucederá a injustiça, ao terror seguir-se-á mais terror. É o que querem que pensemos.
Nada é mais falso do que isto. No mundo moderno, o corporativismo laico-eclesiástico, é certo que é poderoso, organizado e demolidor. Mas tem pés de barro que amolecem ou estalam quando o povo enfrenta a injustiça sem ilusões e com coragem.

O regresso dos fantasmas

Na verdade, neste caso do referendo, os bispos têm incorrido em erros graves de avaliação. O povo português não é uma massa amorfa. Mas o que está feito, está feito. Aos bispos já não é possível corrigirem o tiro.
Aparentemente, o erro de D. José parece ter sido o de se deixar envolver pela espessa manta do obscurantismo religioso. Tinha apelado, mais inteligentemente, à contenção e ao rigor da análise mas acabou por embrulhar-se na paixão mística que cega. Os resultados estão à vista. Ameaças do clero aos crentes que votarem sim. Desfile repetitivo de mentiras, enganos e falsidades pseudo-científicas. É a religião usada como ópio do povo. Aos bispos mais valeria ficarem calados.
Sucedem-se as baforadas de sacerdotes e leigos. O bispo de Bragança compara a despenalização à execução de Hussein. Na reunião fundamentalista do Terreiro do Paço, o padre do Loreto prometeu : «Vamos pedir ao Senhor pelas grávidas em perigo.» O cónego de Castelo de Vide ameaçou com a recusa da igreja realizar funerais católicos aos defuntos que em vida votassem sim. Os Meios Sociais Católicos ligaram a IVG à área das doenças psiquiátricas. Os grandes predadores de confissão – Bagão Félix, António Borges e Nogueira Pinto – alarmam-se agora com os gastos que a liberalização implicaria para os contribuintes. Manuela Ferreira Leite e Zita Seabra propõem-se apoiar boicotes a tempos de antena favoráveis ao sim.
A simples alteração de uma lei pode portanto abrir brechas num edifício pesado e corrupto. É o que pode acontecer com o referendo da IVG. Na área do sim são constantes as adesões de católicos praticantes. Deseje-o ou não, D. José terá de perceber que é tempo de democratizar a igreja e de que só o respeito pelo colectivo é base aceitável do poder. Caso contrário, se a hierarquia não mudar de rumo, os crentes que sejam honestos cidadãos virarão costas à igreja.
Comunistas e outros democratas formarão o quadrado que irá vencer esta batalha. A despenalização da IVG reflectir-se-á na correcção de outras injustiças, na paridade efectiva entre o homem e a mulher, e na afirmação dos direitos das mães e da família. A vitória do sim será como que o simples puxar de um fio que acaba por desfazer o tecido sujo e grosseiro.
É preciso que o voto popular traduza, no próximo referendo, a clara vontade do querer de um povo que recusa regressar às trevas do passado.


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