Os prelos clandestinos de «O Corticeiro»<br>
Sucessivas gerações de homens, mulheres e crianças, como operários corticeiros, foram submetidos a condições de trabalho duríssimas, vivendo numa atmosfera de elevada temperatura, impregnada de vapor e pó, povoando os pulmões de fungos, e enfrentando acrescidas dificuldades de trabalho, causadas pelas arbitrariedades do patronato, pela desnacionalização da indústria e pelo avanço da mecanização.
No pós guerra, a situação do sector degradara-se rapidamente. As relações comerciais com os mercados da Europa de Leste foram dificultadas; a crise económica instalara-se nos países ocidentais; o equipamento da nossa indústria corticeira era há muito obsoleto; o capital estrangeiro que dominava as grandes firmas de exportação, já era maioritário nas principais unidades fabris e, no mercado externo, a venda ao desbarato da cortiça espanhola gerara concorrências aviltantes no valor da matéria prima.
Dessa conjuntura se aproveitaram os grandes empresários, defendendo como «solução»: a concentração industrial, a redução salarial, a diminuição do emprego permanente e, metas de produção unilateralmente fixadas pelo patronato. O conteúdo das propostas do capital era cristalino: esmagar a pequena e média industria; baixar o preço da mão-de-obra, aumentar o desemprego e, garantir «melhores condições» na concorrência externa e na maximização dos lucros.
Por tudo isso, na década de 50, o proletariado da cortiça agitou-se e assumiu um destacado protagonismo nas lutas reivindicativas da classe operária e, particularmente, em toda a Margem Sul do Tejo, ergueu o seu grito contra a redução dos salários e dos dias de laboração, repudiou o novo contrato colectivo de trabalho e reivindicou aumentos.
Confrontado com um forte aparelho repressivo, com sindicatos fantoches, com um patronato ganancioso e impune, com uma comunicação social amordaçada pela censura, os trabalhadores constituíam presa fácil, se procurassem resistir isoladamente. E, é neste contexto que o PCP os exortou à organização de comissões unitárias de empresa e lhes proporcionou um meio de comunicação para informação do operariado do sector.
Assim nasceu «O Corticeiro» - Órgão de Unidade da Classe Corticeira, sendo o n.º 1 dado à estampa em Julho de 1955, passando a constituir um elo fundamental na cadeia de lutas dos corticeiros até Janeiro de 1967.
O prelo clandestino montado inicialmente numa casa da Rua Afonsoeiro, na Bela Vista – Montijo, em 1955, peregrinou por toda Margem Sul, furtando-se à perseguição dos pides, instalando-se em Vila Nova da Caparica, na Cova da Piedade, em Almada, em Setúbal, no Montijo, no Fogueteiro e no Casal do Marco. Por último, transferida a tipografia para a Rua Frei António das Chagas, n.º 63 r/c, em Setúbal, «O Corticeiro» aí foi impresso até Dezembro de 1965, sendo os derradeiros números policopiados em Julho de 66 e Janeiro de 67. O encerramento de empresas por falência ou absorção de grandes grupos, os oportunos incêndios extinguindo postos de trabalho, a deslocalização da actividade para regiões de menor capacidade reivindicativa, tinham desmembrado o corpo corticeiro da Margem Sul do Tejo, migrando os trabalhadores para as novas alternativas de emprego no sector têxtil, da construção e reparação naval, da química, e das novas industrias electrónicas. Quando em 31 de Maio de 1967, a PIDE tomou de assalto o prelo de Setúbal, a voz da classe corticeira já mergulhara no silêncio, e a luta do operariado ganhara novas frentes no têxtil, na química, na electrónica e na metalurgia.
Na foto: a casa que abrigou o prelo de «O Corticeiro» e os seus tipógrafos em 1964 - no Casal do Marco, Seixal, porta MM da Rua do Desembargador.