António Gervásio

Para um comunista, a luta nunca acabou

No 45º aniversário da Fuga de Caxias

As fugas das prisões fascistas constituem, no entender de António Gervásio, uma faceta muito rica da história do Partido. Na década de cinquenta e até ao início da década seguinte, realizaram-se diversas fugas que devolveram à liberdade cerca de 40 comunistas. Para o histórico dirigente comunista, cada fuga tratava-se de uma importante vitória do Partido que resultava do seu trabalho no interior das prisões.
Para António Gervásio, tal número de fugas não deve levar a pensar que as prisões fascistas eram «locais frágeis, de onde se podia escapar com facilidade». Pelo contrário. As masmorras do fascismo eram cadeias de alta segurança em constante aperfeiçoamento. E, lembrou, a cada fuga correspondiam sempre novas medidas de segurança. O contacto entre os presos era dificultado e a vigilância era apertada, tanto às salas dos presos como nos recreios ou durante as visitas.
As fugas, e a de Caxias em particular, foram possíveis devido à educação que o Partido dava aos seus militantes: «um revolucionário, um comunista, nunca deve considerar que para ele a luta acabou. Mesmo nas mãos do inimigo, no interior das cadeias, a luta continua.» Uma vez nas mãos da polícia, um comunista tinha logo várias preocupações, afirmou António Gervásio. Uma primeira é não fazer quaisquer declarações à polícia.
Dentro da cadeia, lembrou, os presos tinham várias tarefas. E uma delas era «estudar todas as fraquezas possíveis da cadeia para poder fugir». Não para cada um ir «tratar da sua vida», mas para continuar a luta clandestina contra o fascismo e pela liberdade, realçou. Em suma, «foi esse trabalho colectivo do Partido que possibilitou a fuga a tantos e tantos camaradas do Partido nesses anos».
Na fuga de Caxias em concreto, António Gervásio destaca o papel de António Tereso. Em sua opinião, só uma grande habilidade pode ter permitido que o falso «rachado» tenha conseguido o que conseguiu. Estava-se perante a PIDE, lembrou. E esta não se deixava enganar facilmente.
Para além disso, «fingir-se de “rachado” não é fácil. Muitos não o fariam», afirmou Gervásio. Mas António Tereso, valorizou, compreendeu que se tratava de uma tarefa do Partido que estava acima de tudo isso. Em sua opinião, é um «acto de coragem muitíssimo grande e uma prova de grande dedicação ao Partido».


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