A Caça

Correia da Fonseca
Na última emissão de «A Voz do Cidadão», título simpático e apelativo mas um pouco enganador do programa do Provedor dos Telespectadores da RTP, falou-se da relação das crianças com a TV e sobretudo da telepublicidade especialmente dirigida aos garotos e por vezes protagonizada por eles. Foi, sem dúvida, um tema escolhido com plena oportunidade: já a televisão está inundada de publicidade empenhada em suscitar nos miúdos um muito voraz apetite por brinquedos que sonham receber pelo Natal que se aproxima. Digamo-lo por palavras mais expressivas mas inteiramente justas: já está aberta a época da caça aos dinheiros dos papás que, como regra geral, terão de escolher entre a decepção que os seus filhos sentirão naquela noite santa ao verificarem que afinal não receberam o brinquedo cobiçado e uma despesa dificilmente comportável que muitas vezes desemboca num endividamento. É claro que a grande força que este tipo de publicidade desencadeia é a da chantagem emocional sobre os pais, naturalmente desejosos de verem os filhos radiantes de felicidade ao menos por uma manhã e sempre um pouco amedrontados pela perspectiva de um seu desapontamento. E porque se trata de uma chantagem exercida sobre sentimentos verdadeiramente fundamentais e sem qualquer dúvida muito respeitáveis, esta é porventura a mais infame de todas as caças, uma caça que dispara sobre os garotos mas que vai ferir os pais. Mas não é coisa que possa fazer hesitar quer as estações de TV, que consideram precisar das receitas daquela publicidade, doa a quem doer, nem os responsáveis pelo quadro regulamentar da publicidade, a quem seguramente nem sequer ocorre a possibilidade de contrariar a sacrossanta liberdade de comércio para defender as crianças de precoces pulsões consumistas e as famílias de mais um factor de acréscimo da despesa e/ou do endividamento. E não se pense que estamos a falar de gastos menores em termos de custos: um inquérito recentemente publicado revelou que o mais desejado pelos garotos portugueses neste Natal seria uma «playstation». Quem quiser saber o que isto significa informe-se dos preços.

Uma pedagogia difícil

Perguntada sobre esta questão, não apenas quanto à publicidade natalícia mas relativamente às relações globais dos garotos com a televisão, uma especialista reputada, creio que a drª. Maria Emília Brederode, disse ser preciso fazer uma pedagogia da educação dos garotos para os media em geral e para a TV em especial. Palavras justas e sábias, sem dúvida, mas que me deixam com algumas interrogações, sobretudo com uma delas: no que concretamente diga respeito a este aluvião de estímulos à natural gula infantil por brinquedos, pode-se (ou talvez melhor: deve-se) omitir que a raiz desta prática está na regra não-escrita, mas implícita, segundo a qual o direito a actuar em mercado aberto liberta o vendedor de alguns, se não de quase todos, os escrúpulos éticos? E também: que o estímulo aos ingénuos mas muitas veementes apetites infantis funciona como grau inicial de uma educação para o consumo que desembocará na pretendida consolidação de uma sociedade enlouquecida pelo consumismo que beneficiará uns poucos em troca da desgraça de muitos? A questão, como já facilmente de entrevê, é que estas e outras explicações que lhe sejam complementares situam-se no limiar de uma incipiente formação parapolítica, e a dúvida que logo se suscita é a de saber se a generalidade dos papás está decidida a ministrá-la ou mesmo se tem lucidez bastante para o fazer. Vivemos um tempo em que se atira para a responsabilidade das famílias, sempre invocadas num plano de grande abstracção, tarefas junto das crianças para cuja execução é indispensável não só clarividência mas também disponibilidade. Mas «as famílias», fórmula que maioritariamente designa o binómio pai-mãe, já vivem esmagadas por trabalho, angústias, dificuldades várias e também ignorâncias, que muito lhes reduzem a capacidade de intervenção junto dos filhos, e só por má-fé se pode ignorar essa situação. Será adequado encarregá-las também de ministrarem aos garotos, com adequado tacto e eficácia, o contraveneno que os defenda da intoxicação publicitária? Não será mesmo possível que algum poder intervenha para defender os cidadãos de mais esta espécie de doença inoculada? Ou, retomando a imagem usada mais atrás: deve esta caça sem escrúpulos continuar livre e feliz?


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