Mentiras, loucuras, mortes - 3
Olha-se para estas pinturas, para estas gravuras, para estes dois objectos escultóricos de que nos podemos aproximar com o fascínio de quem se aproxima de barco de Nova-Iorque e vê crescer para si a estátua da Liberdade para de golpe ser chamado à realidade acordado do sonho pela imagem da esperança de Chaplin a ser amarrada em molho com a dos outros emigrantes. Aqui também somos imediatamente chamados à realidade pelo enorme impacto visual dessas duas formas de enorme estranheza onde já mal se reconhece a imagem original corroída pelo tempo, perfurada de balas a que serviram de alvo. Estão implantadas em plintos, caixotes contentores cujo conteúdo é revelado pelos rótulos. Um descrimina todas as invasões directas dos Estados Unidos da América a outros países e deixa-se, cautelarmente, espaço branco para acrescentar a próxima. Outro promete férias no campo de concentração de Guantanamo, pedaço de território de Cuba ocupada pelos americanos. Cuba que curiosamente foi a ilha que albergou o primeiro campo de concentração do mundo, em 1896, quando era colónia espanhola.
Uma primeira visão desta exposição, para se ir à profundeza do que se vê, enfrentando a dureza do tema confrontado com a delicadeza do traço, com a suavidade das velaturas, lembra-nos a relação de Perseu com a Medusa, como Ovídio relata (liv. IV) nas Metamorfoses. Não se pode enfrentar directamente a Medusa, cujo olhar transforma em pedra tudo o que fixa. Perseu, orientando o combate pelo que vê no metal polido do seu escudo, decapita-a. Agarra a cabeça do monstro pela cabeleira de serpentes, regressa a casa. No caminho detém-se num rio para lavar as mãos. Tem que pousar a cabeça para que o olhar da Medusa não prossiga o seu trabalho maléfico. Perseu delicadamente faz, em cima da areia grossa, uma cama de folhas e algas nascidas debaixo de água onde depõe a cabeça da Górgona de cara para baixo. O extraordinário é que quando o herói recolhe a cabeça do monstro, as algas em contacto com o olhar da Medusa tinham-se transformado em corais.
Conhecerá Bartolomeu esta Metamorfose de Ovídio? Homem de tantos saberes e conhecimentos provavelmente conhece-a, mas o que é certamente mais provável é não se ter apercebido que quando empreendia este trabalho estava, com delicadeza só comparável à de Perseu, a construir uma barreira de coral para isolar o monstro incorpóreo que nos assalta os dias, desmontando as brutalidades, as manipulações de quem «quer governar, e continuar a governar, (pelo que) tem de ser capaz de alterar o sentido da realidade» (G. Orwell). A barreira de coral que Bartolomeu construiu e continua a construir defende a realidade de perder o norte, de deixar de se reconhecer entre verdades e mentiras. Não deixa adormecer a razão.
Aqui, nesta exposição, obra a obra, Bartolomeu dos Santos, centrando-se nas intervenções dos Estados Unidos da América no Médio-Oriente, desconstrói com ironia e indignação a longa tradição de os EUA se considerarem nação redentora, usando esse conceito para promoverem a pilhagem do mundo em proveito próprio e imporem o seu modelo ao mundo, construindo uma pirâmide de juízos simplistas que ignoram as dúvidas dialécticas, as angústias de Hamlet, o desassossego de Pessoa, para se contentarem com a platitude de Mickey Mouse.
Rato assexuado, amante da fast-food, alegremente banal, de sangue tépido e personalidade temperada é despido por Bartolomeu para mostrar o ser maléfico que as aparências escondem e ei-lo que salta da barca de Nosferatu para com violência destruir, invadir, ser chefe, cumprir ordens, organizar reuniões enquanto Bush estuda as obras de Pirro, Miss América Sucks ou um herói sem cabeça para sustentar o chapéu colonial enterra em terra conquistada um padrão encimado por uma águia de olhar perdido que não consegue ver nova versão de «The Triumph of the Will» porque Leni Riefenstal já não tem sopro de vida para chegar a esta batalha. Tudo decorre naquele ambiente de guerra estranho, brutal, difuso que conhecemos de Apocalipse Now, de Platoon, de Full Metal Jacket e que Bartolomeu recupera pontuando-o com referências a Beckett, Conrad, grafittis que recolheu, entre outros locais, nos «bunkers» da Ilha Terceira, memórias de Samarra, da Torre de Babel, do olhar doce de uma árabe que se escapa do chaddor, das palmeiras e do cheiro a petróleo e do som dos helicópteros que mancham um céu que deveria ter existido antes destes enxames malfazejos o alterarem.
Muitas das imagens que surgem nestas obras estão vulgarizadas pelos media e a habituação entorpece o juízo, como assinalava Montaigne, mas aqui adquirem a força de nos esmurrarem o quotidiano. Um helicóptero que sai de um ecrã de televisão quase sem darmos por ele, entra numa gravura ou numa pintura de Bartolomeu e torna-se num vírus mortal que nos ameaça. O nosso juízo é desperto, duplamente desperto: para a intimação e para a obra de arte que nunca perde a sua identidade.
Com o imenso saber de anos a fazer incisões em placas de metal com ácidos e pontas secas elaborando imagens que se transportam para os papeis, retornando aos pincéis e às tintas que tinha deixado repousar mais de trinta anos, Bartolomeu dos Santos escreve estas páginas da história trazendo-as para a história de arte, surpreendendo pelas audácias formais caldeadas pela inclusão de referências eruditas que nunca são supérfluas e que tornam para nós o seu pensamento mais claro, mais lógico, fazendo com que cada obra produza um acréscimo de conhecimento estético e ideológico.
Uma primeira visão desta exposição, para se ir à profundeza do que se vê, enfrentando a dureza do tema confrontado com a delicadeza do traço, com a suavidade das velaturas, lembra-nos a relação de Perseu com a Medusa, como Ovídio relata (liv. IV) nas Metamorfoses. Não se pode enfrentar directamente a Medusa, cujo olhar transforma em pedra tudo o que fixa. Perseu, orientando o combate pelo que vê no metal polido do seu escudo, decapita-a. Agarra a cabeça do monstro pela cabeleira de serpentes, regressa a casa. No caminho detém-se num rio para lavar as mãos. Tem que pousar a cabeça para que o olhar da Medusa não prossiga o seu trabalho maléfico. Perseu delicadamente faz, em cima da areia grossa, uma cama de folhas e algas nascidas debaixo de água onde depõe a cabeça da Górgona de cara para baixo. O extraordinário é que quando o herói recolhe a cabeça do monstro, as algas em contacto com o olhar da Medusa tinham-se transformado em corais.
Conhecerá Bartolomeu esta Metamorfose de Ovídio? Homem de tantos saberes e conhecimentos provavelmente conhece-a, mas o que é certamente mais provável é não se ter apercebido que quando empreendia este trabalho estava, com delicadeza só comparável à de Perseu, a construir uma barreira de coral para isolar o monstro incorpóreo que nos assalta os dias, desmontando as brutalidades, as manipulações de quem «quer governar, e continuar a governar, (pelo que) tem de ser capaz de alterar o sentido da realidade» (G. Orwell). A barreira de coral que Bartolomeu construiu e continua a construir defende a realidade de perder o norte, de deixar de se reconhecer entre verdades e mentiras. Não deixa adormecer a razão.
Aqui, nesta exposição, obra a obra, Bartolomeu dos Santos, centrando-se nas intervenções dos Estados Unidos da América no Médio-Oriente, desconstrói com ironia e indignação a longa tradição de os EUA se considerarem nação redentora, usando esse conceito para promoverem a pilhagem do mundo em proveito próprio e imporem o seu modelo ao mundo, construindo uma pirâmide de juízos simplistas que ignoram as dúvidas dialécticas, as angústias de Hamlet, o desassossego de Pessoa, para se contentarem com a platitude de Mickey Mouse.
Rato assexuado, amante da fast-food, alegremente banal, de sangue tépido e personalidade temperada é despido por Bartolomeu para mostrar o ser maléfico que as aparências escondem e ei-lo que salta da barca de Nosferatu para com violência destruir, invadir, ser chefe, cumprir ordens, organizar reuniões enquanto Bush estuda as obras de Pirro, Miss América Sucks ou um herói sem cabeça para sustentar o chapéu colonial enterra em terra conquistada um padrão encimado por uma águia de olhar perdido que não consegue ver nova versão de «The Triumph of the Will» porque Leni Riefenstal já não tem sopro de vida para chegar a esta batalha. Tudo decorre naquele ambiente de guerra estranho, brutal, difuso que conhecemos de Apocalipse Now, de Platoon, de Full Metal Jacket e que Bartolomeu recupera pontuando-o com referências a Beckett, Conrad, grafittis que recolheu, entre outros locais, nos «bunkers» da Ilha Terceira, memórias de Samarra, da Torre de Babel, do olhar doce de uma árabe que se escapa do chaddor, das palmeiras e do cheiro a petróleo e do som dos helicópteros que mancham um céu que deveria ter existido antes destes enxames malfazejos o alterarem.
Muitas das imagens que surgem nestas obras estão vulgarizadas pelos media e a habituação entorpece o juízo, como assinalava Montaigne, mas aqui adquirem a força de nos esmurrarem o quotidiano. Um helicóptero que sai de um ecrã de televisão quase sem darmos por ele, entra numa gravura ou numa pintura de Bartolomeu e torna-se num vírus mortal que nos ameaça. O nosso juízo é desperto, duplamente desperto: para a intimação e para a obra de arte que nunca perde a sua identidade.
Com o imenso saber de anos a fazer incisões em placas de metal com ácidos e pontas secas elaborando imagens que se transportam para os papeis, retornando aos pincéis e às tintas que tinha deixado repousar mais de trinta anos, Bartolomeu dos Santos escreve estas páginas da história trazendo-as para a história de arte, surpreendendo pelas audácias formais caldeadas pela inclusão de referências eruditas que nunca são supérfluas e que tornam para nós o seu pensamento mais claro, mais lógico, fazendo com que cada obra produza um acréscimo de conhecimento estético e ideológico.