O furacão Chávez (1)
A pouco mais de quarenta dias do 3 de Dezembro, a Venezuela prepara-se para uma nova eleição presidencial. Vinte venezuelanos e cinco venezuelanas, entre elas uma luso-descendente, concorrem para se sentar na «cadeira» de Miraflores, o Palácio presidencial. Vinte e cinco homens e mulheres para conquistar o voto de 15 milhões 921 mil 223 votantes, que fazem parte de um universo total de 16 milhões 83 mil 986 inscritos. A diferença, um pouco mais de 162 mil, é dos que não poderão votar pela simples razão de que nas eleições presidenciais só podem participar eleitores com a cidadania venezuelana, mesmo que tenham alguma outra… e são vários milhares os que estão nesta situação.
Antes de terminar 2006, o mapa político da América Latina será outro, não propriamente ao gosto de Washington, por muito que no Peru tenha triunfado um indivíduo com o escasso estofo moral de Alan Garcia e que no México tenhamos sido testemunhas de uma brutal chapelada eleitoral.
Em quatro países, outros tantos povos são postos à prova para ver de que lado têm o coração e a cabeça, e dessas quatro votações esperam-se grandes voos, uns maiores outros menos, para este continente secularmente entregue a governos reaccionários. No momento em que escrevemos, Lula continua à frente nas sondagens para a segunda volta das presidenciais Brasil, sendo de esperar a sua reeleição para um segundo mandato, apesar dos abalos do PT dos últimos tempos.
Na Nicarágua, por muito que o embaixador estadunidense e políticos visitantes de última hora, tenham chegado a Manágua para ameaçar com boicotes à economia do país e outras represálias não declaradas aos média, não parece que se repita a triste história de Chamorro, e Daniel Ortega chegará à Presidência da República pela via eleitoral, o que não lhe augura um trabalho mais suave do que se lá tivesse chegado por outra via menos ortodoxa. É que para o imperialismo nenhuma via é ortodoxa – muito menos permitida – quando sente que pode perder alguns dos seus privilégios e o escândalo Irão-Contras ainda está muito fresco na memória de todos.
No Equador, desde há anos numa montanha russa de agitação política – ou não houvesse ali petróleo! – a direita está muito preocupada com a possibilidade de perder o poder político (o económico é outra história…), a candidatura de Roldós cheira a derrota e Rafael Correa, de linha progressista, aparece à frente da maioria das sondagens e não parece fácil que se repita uma situação semelhante à que se passou com Lúcio Gutiérrez.
Mas o caso que mais chama a atenção do continente e até do mundo é o da Venezuela, onde Chávez se vai bater contra 25 candidatos de todas as cores e feitios, se bem que um só – Manuel Rosales – o obriga a manter um olho aberto, porque representa claramente a candidatura apoiada por Washington. Na terra de Bolívar, todas as sondagens mais ou menos sérias apontam para uma nova e clara vitória das forças progressista, mas estão igualmente claras duas hipóteses de comportamento da oposição. Primeira: se Manuel Rosales – que participou no golpe de Abril de 2002 – sente que não «despega» na intenção de voto, pode ser instruído por Washigton para se retirar «por falta de condições democráticas». Segunda: Rosales decide ir até à contagem dos votos, perde e diz que houve fraude, o que, de facto, já vem dizendo desde há meses, e tratará de aquecer a rua com manifestações de arruaceiros e actos de terrorismo urbano. Uma coisa é certa: não vai aceitar uma nova derrota, como não aceitou a do referendo.
A propósito de um discurso na ONU
Chávez não é uma pedra no sapato de Bush. É um calhau! De entre todos os discursos pronunciados ao longo da história das Nações Unidos, será difícil escolher alguns para editar um livro de tamanho mais ou menos respeitável, tal tem sido a pobreza, a mediania e a monotonia do que ali é debitado em toneladas de palavras em muitos e diferentes idiomas. Sem esgotar a pequena lista, não podemos esquecer aquela intervenção – sapateado incluído – de Nikita Krouchov, o discurso de Allende pouco antes de golpe militar organizada pela CIA sob as ordens de Kissinger, as intervenções sempre pedagógicas e valentes de Fidel Castro e agora, recentemente, a de Chávez. A
comunicação social ficou-se na superfície formal do discurso e optou por soterrar o conteúdo. Preferiu um detalhe da forma à densidade do fundo. Não disse Chávez nenhuma mentira e sim grandes verdades, cuja extensão não cabe aqui referir e muito menos analisar. Contudo, dois acontecimentos intimamente ligados a essa presença bolivariana são incontornáveis. O primeiro porque delata – uma vez mais – que a finalidade do regime de Bush – e aqui «regime» tem toda a carga semântica negativa que se possa imaginar – é provocar a jovem revolução progressista venezuelana. O segundo faz parte de uma matriz de opinião que pretende apresentar o presidente bolivariano como um militar ignorante, porque… que se poderia esperar de um tipo que não é caucásico, tem traços de índio e de negro?
Antes de terminar 2006, o mapa político da América Latina será outro, não propriamente ao gosto de Washington, por muito que no Peru tenha triunfado um indivíduo com o escasso estofo moral de Alan Garcia e que no México tenhamos sido testemunhas de uma brutal chapelada eleitoral.
Em quatro países, outros tantos povos são postos à prova para ver de que lado têm o coração e a cabeça, e dessas quatro votações esperam-se grandes voos, uns maiores outros menos, para este continente secularmente entregue a governos reaccionários. No momento em que escrevemos, Lula continua à frente nas sondagens para a segunda volta das presidenciais Brasil, sendo de esperar a sua reeleição para um segundo mandato, apesar dos abalos do PT dos últimos tempos.
Na Nicarágua, por muito que o embaixador estadunidense e políticos visitantes de última hora, tenham chegado a Manágua para ameaçar com boicotes à economia do país e outras represálias não declaradas aos média, não parece que se repita a triste história de Chamorro, e Daniel Ortega chegará à Presidência da República pela via eleitoral, o que não lhe augura um trabalho mais suave do que se lá tivesse chegado por outra via menos ortodoxa. É que para o imperialismo nenhuma via é ortodoxa – muito menos permitida – quando sente que pode perder alguns dos seus privilégios e o escândalo Irão-Contras ainda está muito fresco na memória de todos.
No Equador, desde há anos numa montanha russa de agitação política – ou não houvesse ali petróleo! – a direita está muito preocupada com a possibilidade de perder o poder político (o económico é outra história…), a candidatura de Roldós cheira a derrota e Rafael Correa, de linha progressista, aparece à frente da maioria das sondagens e não parece fácil que se repita uma situação semelhante à que se passou com Lúcio Gutiérrez.
Mas o caso que mais chama a atenção do continente e até do mundo é o da Venezuela, onde Chávez se vai bater contra 25 candidatos de todas as cores e feitios, se bem que um só – Manuel Rosales – o obriga a manter um olho aberto, porque representa claramente a candidatura apoiada por Washington. Na terra de Bolívar, todas as sondagens mais ou menos sérias apontam para uma nova e clara vitória das forças progressista, mas estão igualmente claras duas hipóteses de comportamento da oposição. Primeira: se Manuel Rosales – que participou no golpe de Abril de 2002 – sente que não «despega» na intenção de voto, pode ser instruído por Washigton para se retirar «por falta de condições democráticas». Segunda: Rosales decide ir até à contagem dos votos, perde e diz que houve fraude, o que, de facto, já vem dizendo desde há meses, e tratará de aquecer a rua com manifestações de arruaceiros e actos de terrorismo urbano. Uma coisa é certa: não vai aceitar uma nova derrota, como não aceitou a do referendo.
A propósito de um discurso na ONU
Chávez não é uma pedra no sapato de Bush. É um calhau! De entre todos os discursos pronunciados ao longo da história das Nações Unidos, será difícil escolher alguns para editar um livro de tamanho mais ou menos respeitável, tal tem sido a pobreza, a mediania e a monotonia do que ali é debitado em toneladas de palavras em muitos e diferentes idiomas. Sem esgotar a pequena lista, não podemos esquecer aquela intervenção – sapateado incluído – de Nikita Krouchov, o discurso de Allende pouco antes de golpe militar organizada pela CIA sob as ordens de Kissinger, as intervenções sempre pedagógicas e valentes de Fidel Castro e agora, recentemente, a de Chávez. A
comunicação social ficou-se na superfície formal do discurso e optou por soterrar o conteúdo. Preferiu um detalhe da forma à densidade do fundo. Não disse Chávez nenhuma mentira e sim grandes verdades, cuja extensão não cabe aqui referir e muito menos analisar. Contudo, dois acontecimentos intimamente ligados a essa presença bolivariana são incontornáveis. O primeiro porque delata – uma vez mais – que a finalidade do regime de Bush – e aqui «regime» tem toda a carga semântica negativa que se possa imaginar – é provocar a jovem revolução progressista venezuelana. O segundo faz parte de uma matriz de opinião que pretende apresentar o presidente bolivariano como um militar ignorante, porque… que se poderia esperar de um tipo que não é caucásico, tem traços de índio e de negro?