O um e os muitos
A TV portuguesa está num momento curioso: numa das estações, por sinal a do serviço público, transmite-se com foros de momento de grande prestígio um programa em que figuras destacadas da área do espectáculo dançam; noutra estação, transmite-se também com foros de grande acontecimento televisivo um programa em que outras ou eventualmente as mesmas figuras destacadas cantam. É claro que dançar e cantar são bons e saudáveis exercícios, mesmo quando porventura os passos descompassem (o que, em boa verdade, não notei que tivesse acontecido no programa em questão) ou as vozes desafinem (o que já aconteceu, sem que isso constitua pecado mortal). O que com razão ou sem ela me parece significativo é que o centro de interesse de ambos os programas seja menos a dança e o canto e muito mais as personalidades que assim exibem dotes laterais aos que lhes grangearam maior ou menor fama. Não se trata, já se vê, de nenhum «culto da personalidade» que tanto tem sido denunciado sobretudo relativamente a certos regimes condenados como muito feios (mas nunca, nunca, quanto ao Portugal do tempo em que se proclamava «Salazar! Salazar! Salazar!» como grito de prosternação colectiva) mas, ao que parece, de um certo culto popularucho das personalidades, isto é, de indivíduos que por uma razão ou por outra, por méritos efectivos ou de faz-de-conta, adquiriram um destaque muitas vezes efémero. E é esse encanto perante o sujeito ou a sujeita como indivíduo, não os melhores ou piores passos de dança, as mais ou menos afinadas notas, que me fere a atenção. Não que me pareça mal o interesse pelo indivíduo e pelas suas capacidades, longe disso. Do que não gosto muito é que se pegue já não no indivíduo mas no individualismo, que de resto é hoje uma espécie de religião sem santidades mas com boatos de milagres conseguidos, e se pregue com ele uma espécie de imaginário altar, com direito a culto mediático e tudo.
Uma votação patusca
Coincidentemente, a RTP meteu-se num processo esquisitíssimo e singularmente pateta que consiste no apuramento por votação popular de quem foi o maior português ao longo de todos os tempos pátrios, desde a Fundação até à actualidade. Isto em terra onde qualquer inquérito de rua recorda e demonstra que a esmagadora parte dos portugueses não sabe de todo quem foi o Nobel português de Medicina, quem o fundou o Conservatório Nacional, e talvez suspeite de que Gil Vicente foi o primeiro presidente de um clube de futebol de Barcelos. Um pouco ainda quanto a esta matéria, cabe registar que pelo menos na capital é fácil encontrar uns cartazes concebidos aparentemente para ajudar o cidadão na dificuldade de se decidir para votar: neles, nos cartazes, são dados dois exemplos magníficos para eventual escolha: Afonso Henriques e Amália. Sem motivo para surpresa, naturalmente, pois Amália já está no Panteão Nacional ao lado de outras figuras grandes (ainda que não soubessem cantar o fado) e D. Afonso só não está no Panteão porque repousa em local adequado. Por mim, estou em crer que Amália tem enormes possibilidades de ganhar a votação, o que será óptimo para a RTP em especial e para o audiovisual em geral, pois assim surgirá a oportunidade para mais uma mão-cheia de programas evocativos da Diva. Em caso de vitória do nosso primeiro rei, as consequências no plano mediático são menos previsíveis, mas alguma coisa se há-de arranjar. Entretanto, parece que meteram nisto a Maria Elisa no seu regresso à RTP, vinda de Londres e também da A.R. toda marcada de mordeduras da inveja, e eu, que já lhe perdoei maldadezinhas passadas ou o que eu tenho por maldadezinhas, não quero deixar de lhe exprimir aqui a minha solidariedade: não lhe bastava a doença, pregam-lhe (ou pregam-na) com a eleição plebiscitária do maior português de todos os tempos. É de uma crueldade digna dos velhos tempos da Santa Inquisição. E, a propósito da Santa Inquisição, no momento do voto não esqueçam o nome de Damião de Góis. Entre muitos outros, bem se sabe.
Porém, regressando a um ponto que atrás se largou, confirma-se que também este inesperado concurso/plebiscito reforça o fascínio do indivíduo. Ora, salvo melhor opinião, o actual momento nacional parecia recomendar que pelo menos os media de maior responsabilidade social lembrassem e fizessem lembrar um pólo oposto: a solidariedade entre muitos, a beleza ética e também histórica do colectivo. Se quisessem citar exemplos históricos no passado ou na contemporaneidade poderiam apontar a peonagem de Aljubarrota, o povo de Lisboa a aclamar o Mestre, os resistentes do cerco do Porto, de novo o povo de Lisboa nas ruas em Abril de 74. Outros heroísmos, enfim, outras votações possíveis. Com o mérito de lembrarem que há pelo menos tanta beleza nos braços que se entrelaçam como nas duas mãos de um indivíduos que fará ou não lindas coisas. E, já se vê, nas melhores ou piores prestações de celebridades ou celebridadezinhas que cantam ou dançam, talvez metendo corajosamente pés e vozes em searas alheias.
Uma votação patusca
Coincidentemente, a RTP meteu-se num processo esquisitíssimo e singularmente pateta que consiste no apuramento por votação popular de quem foi o maior português ao longo de todos os tempos pátrios, desde a Fundação até à actualidade. Isto em terra onde qualquer inquérito de rua recorda e demonstra que a esmagadora parte dos portugueses não sabe de todo quem foi o Nobel português de Medicina, quem o fundou o Conservatório Nacional, e talvez suspeite de que Gil Vicente foi o primeiro presidente de um clube de futebol de Barcelos. Um pouco ainda quanto a esta matéria, cabe registar que pelo menos na capital é fácil encontrar uns cartazes concebidos aparentemente para ajudar o cidadão na dificuldade de se decidir para votar: neles, nos cartazes, são dados dois exemplos magníficos para eventual escolha: Afonso Henriques e Amália. Sem motivo para surpresa, naturalmente, pois Amália já está no Panteão Nacional ao lado de outras figuras grandes (ainda que não soubessem cantar o fado) e D. Afonso só não está no Panteão porque repousa em local adequado. Por mim, estou em crer que Amália tem enormes possibilidades de ganhar a votação, o que será óptimo para a RTP em especial e para o audiovisual em geral, pois assim surgirá a oportunidade para mais uma mão-cheia de programas evocativos da Diva. Em caso de vitória do nosso primeiro rei, as consequências no plano mediático são menos previsíveis, mas alguma coisa se há-de arranjar. Entretanto, parece que meteram nisto a Maria Elisa no seu regresso à RTP, vinda de Londres e também da A.R. toda marcada de mordeduras da inveja, e eu, que já lhe perdoei maldadezinhas passadas ou o que eu tenho por maldadezinhas, não quero deixar de lhe exprimir aqui a minha solidariedade: não lhe bastava a doença, pregam-lhe (ou pregam-na) com a eleição plebiscitária do maior português de todos os tempos. É de uma crueldade digna dos velhos tempos da Santa Inquisição. E, a propósito da Santa Inquisição, no momento do voto não esqueçam o nome de Damião de Góis. Entre muitos outros, bem se sabe.
Porém, regressando a um ponto que atrás se largou, confirma-se que também este inesperado concurso/plebiscito reforça o fascínio do indivíduo. Ora, salvo melhor opinião, o actual momento nacional parecia recomendar que pelo menos os media de maior responsabilidade social lembrassem e fizessem lembrar um pólo oposto: a solidariedade entre muitos, a beleza ética e também histórica do colectivo. Se quisessem citar exemplos históricos no passado ou na contemporaneidade poderiam apontar a peonagem de Aljubarrota, o povo de Lisboa a aclamar o Mestre, os resistentes do cerco do Porto, de novo o povo de Lisboa nas ruas em Abril de 74. Outros heroísmos, enfim, outras votações possíveis. Com o mérito de lembrarem que há pelo menos tanta beleza nos braços que se entrelaçam como nas duas mãos de um indivíduos que fará ou não lindas coisas. E, já se vê, nas melhores ou piores prestações de celebridades ou celebridadezinhas que cantam ou dançam, talvez metendo corajosamente pés e vozes em searas alheias.