O Vaticano e os EUA

Jorge Messias
Facto evidente é que a política do Vaticano funciona como uma espécie de barómetro da vida americana. Quando na América as tensões são grandes mas passageiras (crises económicas cíclicas, movimentações de massas populares, reacções a guerras de longa duração), as posições repressivas dos poderes americanos acentuam-se enquanto que, pelo contrário, o Vaticano proclama formalmente políticas liberais de grande abertura. São as campanhas mediáticas da imagem. Foi assim com o Concílio Vaticano II, com a promoção dos leigos e das mulheres, com o diálogo inter-religioso, etc. As pombas do Vaticano fazem esquecer os escândalos e os crimes do falcão capitalista.
Quando, porém, as crises se arrastam sem soluções à vista, as forças religiosas e a sociedade civil são forçadas a ostentar a sua natureza autoritária e o seu grande objectivo de permanência no poder. Espalham o pânico, adoptam vias terroristas e tentam esmagar pela força os seus opositores. Assim fará sentido a sucessão de convergências e de divergências que ilustraram as posições dos estados norte-americano e do Vaticano nas grandes questões das guerras do Vietname ou do Iraque, nas técnicas da «guerra fria», nas estratégias contra ou a favor da «teologia da libertação», nos conteúdos da doutrina social da Igreja, na reforma do comércio mundial, etc. Ao fim e ao cabo, a concórdia entre a igreja e o capital prevaleceu. Vaticano e neoliberalismo caminham a par.
Alheias a estas manobras, as tensões mundiais agravam-se. Não há dúvida que merecem uma grande atenção os desenvolvimentos políticos recentes registados, em paralelo, nos “states” de Bush e nos territórios ou «colónias» do Império do Vaticano regido pelo punho de ferro de Joseph Ratzinger.

Um mito nado-morto

Consensualmente reconhecido como um mentiroso compulsivo (armas maciças do eixo do Mal, falsas alianças entre Hussein e a Al-qaeda, natureza da própria Al-qaeda em associação com a família Bush nos negócios do petróleo, existência de voos e prisões secretas da CIA, prática de torturas, «Muralha do México», e muito mais!), Bush está longe de ser um político derrotado. Conserva uma boa parte da sua popularidade e continua a alcançar vitórias espectaculares. Fez aprovar orçamentos bélicos à custa de sacrifícios sociais do povo americano e despertou preconceitos atávicos, nomeadamente com a promulgação do «Patriotic Act» que representa a consagração do terrorismo de Estado. Nestes últimos dias, conseguiu novo importante êxito no Senado, ao fazer passar uma proposta de lei que instala tribunais militares especiais para julgamento secreto dos sequestrados em Guantamano. Isto acontece porque, nos EUA, o Presidente é um mito sagrado.
No Vaticano a estratégia terá de ser diferente. Embora as técnicas da construção do mito sejam bem conhecidas. Pega-se numa esponja e apagam-se as nódoas do passado da vedeta em promoção. Depois, a traços largos, desenha-se o perfil ideal, a marca de imagem do herói ou do santo que o candidato nunca foi, nem será. Constrói-se-lhes, assim, um mito pessoal na base de referências falseadas. Isso aconteceu, por exemplo, com Georges Bush, o «Americano Tranquilo»; com Tony Blair, o «Reformador»; ou com Cavaco Silva, o «Grande Conciliador».
No caso de Ratzinger, no entanto, surgiram dificuldades insuperáveis na construção do seu mito pessoal. É que o homem é difícil. Chamam-lhe o «bulldozer», nome que não se enquadra numa campanha de promoção. Na igreja católica, enquanto cardeal, deixou um rasto de destruição e de intriga entre os teólogos, as conferência episcopais, os leigos e o ecumenismo igualitário. No mundo, consideram-no duro, fundamentalista, convencido e ostentador, obcecado com a própria imagem. Que fazer com este Papa? É um mal-estar que vai alastrando dentro da própria igreja. Ratzinger foi uma péssima escolha, a pior que o colégio dos cardeais poderia fazer.
O problema é da igreja, está bem de ver. Mas o Vaticano é uma potência política com recursos gigantescos. O que lá se passa diz-nos respeito. Mal foi eleito, Ratzinger mudou o aparelho da Cúria. Para secretário de estado, chamou um perito em Fátima. Entregou a política externa a um cardeal especializado nas altas diplomacias do petróleo do Médio Oriente. E confiou o legado da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) a um fundamentalista feroz. A orientação central de Ratzinger consiste na redução do número de serviços do Vaticano, na sua ocupação por homens da confiança pessoal do papa e na reconversão de institutos de tradições mais liberais (Migrações, Justiça e Paz, Cultura, Diálogo Inter-Religioso, etc.). Ratzinger reúne as chefias da igreja e do Opus Dei.
É o mais poderoso senhor da Terra.


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