Revolução anti-Blair pode avançar nos Congressos Trabalhista e dos Sindicatos, ainda esta semana

Oito dias que abalaram a Inglaterra

Manoel de Lencastre
No fim de uma semana dramática, e poderosamente pressionado pelo Chanceler do Tesouro (Ministro da Economia e Finanças), Gordon Brown, o primeiro-ministro, Tony Blair, que, evasivamente e após múltiplas promessas tem vindo a adiar a declaração que toda a Grã-Bretanha espera, a da sua demissão, acabou por, ao visitar uma escola do bairro de St. John´s Wood (norte de Londres), dizer perante o país (07.09): «Os próximos congressos dos Sindicatos (Trades Unions Congress) e do Partido Trabalhista, serão os últimos a que assistirei. Mas não vou indicar, agora, uma data precisa para o meu abandono do poder posto que tal não me parece correcto. Fá-lo-ei numa data futura segundo os interesses do país e as circunstâncias do momento».
Esta declaração, que dá para tudo, desiludiu todos aqueles milhões de pessoas que já não aceitam mais as estranhas ligações de Blair aos americanos, exigem o fim da guerra no Iraque ou a saída das tropas britânicas desse campo de morte, tal como do Afeganistão. Todos os dias se anunciam baixas mortais nas fileiras do exército britânico. As famílias dos soldados choram. Ninguém percebe a verdadeira razão da presença britânica nas guerras americanas. Recorda-se a persistente recusa do governo britânico de Harold Wilson quando Washington lhe exigia o envio de forças militares para o Vietname. Os americanos estão a vingar-se. Agora, servindo-se de Blair cujo patriotismo toda a gente põe em causa, enterram nos atoleiros de guerras estratégicas em que o povo britânico não está interessado, a estabilidade de um país amigo, como a Grã-Bretanha, o velho orgulho do seu povo, a vida de tantos dos seus soldados.

Dois congressos em que a alma dos trabalhadores vai falar

Chovem cartas nas redacções dos jornais, mesmo nas daqueles de mais reconhecidas tendências direitistas, como é o caso de The Daily Telegraph. Eis o texto de uma delas (09.09): «Esta é a primeira vez na minha vida em que estarei concentrado na cobertura dos congressos dos Sindicatos e do Partido Trabalhista. Na verdade, parece que pela primeira vez na História, os delegados a ambos irão exprimir os pontos de vista da nação» Assinado: Will Twidale, Stoke Mandeville, Bucks. Também uma carta da senhora Jean Maigrot, de Diss, Norfolk, mereceu publicação pelo seu curto mas emocionado conteúdo: «Parece-me bizarro que o Sr. Blair que, tão claramente, diz compreender a luta desesperada da nação iraquiana pela democracia, encontre tantas dificuldades em compreender a desesperada exigência de uma mudança de regime que lhe grita a Grã-Bretanha».
O Congresso dos Sindicatos vai abrir na cidade de Brighton no próximo dia 12 e encerrará na 6.ª feira, dia 15 de Setembro. Certamente, o país estará de olhos postos neste importante acontecimento em que se fará ouvir a voz da classe trabalhadora britânica, talvez com uma vibração, uma estridência pouco usuais ainda que os dirigentes sindicais se mostrem reservados quanto ao que vão dizer a Tony Blair. Há duas exigências fundamentais sobre a mesa: a de que o salário mínimo seja aumentado para seis libras por hora (7,5 Euros) e a de que as leisblairistas que permitem a intervenção de empresas privadas no seio do Serviço Nacional de Saúde (National Health Service) sejam canceladas. Mas a sombra dos odiados conflitos que estão em curso no Iraque e no Afeganistão vai pairar na atmosfera do Congresso. Já sabemos que Tony Blair, ao serviço dos americanos, tentará justificar-se com a complexa questão do terrorismo. Mas conhecemos delegados que lhe explicarão a origem desse problema e lhe dirão quem, objectivamente, o alimenta e lhe dá vida. E como começaram as guerras do Afeganistão, quem as fomentou, quem incitou o fanatismo contra a revolução de Abril de 1978. Também lhe farão perguntas sobre os voos da CIA com prisioneiros em trânsito para interrogatórios e sobre as aterragens de aviões israelitas no aeroporto de Prestwick (perto de Glasgow) com carregamentos de armas. Os delegados ao Congresso dos Sindicatos britânicos gritarão: «Out! Out! Out!» (Fora! Fora! Fora!). Que papel tem Tony Blair andado a desempenhar?
Igualmente, o Congresso do Partido Trabalhista que está marcado para 26 de Setembro, em Manchester, será explosivo. E isto porque o trabalhismo, que o primeiro-ministro tem tentado neutralizar para poder governar na desfeita e desaparecida «glória» do seu ‘New Labour’, se encontra dividido, talvez dilacerado. Não foi satisfatória a declaração de Blair na escola de St. John’s Wood. O debate quanto à sua demissão vai ser incendiário. Disse o deputado pela circunscrição de Manchester-Blackley, Graham Stringer: «Só uma nova declaração do primeiro-ministro anunciando a data precisa e muito rápida da sua partida e o começo do processo eleitoral para a eleição de um novo leader do Partido, poderá curar-nos a dor que esta difícil situação criou». Palavras dramáticas quando as barricadas já começam a ser erguidas. Na opinião de grande parte dos deputados trabalhistas (são 353 no actual Parlamento) Blair tem poucas possibilidades de se manter no poder até Maio porque enfrentará uma pressão, talvez insustentável, quando se aproximarem as eleições para a Assembleia do País de Gales e para o Parlamento da Escócia onde existem maiorias trabalhistas que podem ser perdidas.

«Golpe de Estado» no interior do partido?

Figuras importantes no Partido Trabalhista, como Jack Straw, leader dos Comuns, e Peter Hain, secretário de Estado para a Irlanda do Norte, já disseram que apoiam a exigência de que Blair indique a data da sua saída. A demissão do primeiro-ministro foi, claramente, exigida por 17 deputados que lhe enviaram uma carta ultimato. Sete ministros de segundo escalão, incluindo Tom Watson, apoiante de Gordon Brown e ministro-adjunto da Defesa, demitiram-se. Wayne David, deputado à Câmara dos Comuns pela circunscrição galesa de Caerphilly, disse: «Gostaria de ver o primeiro-ministro pôr alguma clareza naquilo que diz. Não é possível aceitar esta espécie de especulação durante doze meses mais. Necessitamos de renovar o Partido Trabalhista e, para isso, precisamos de lhe alterar a direcção». O adeus de Tony Blair pode ser longo, como ele pretende. Mas o sofrimento será profundo. O «golpe de Estado» no interior do Partido, pode não vir longe.
A imprensa conservadora, entretanto, costuma defender o primeiro-ministro. Mas, perante os acontecimentos dos últimos dias, reconheceu a sua espantosa indignidade. No editorial do passado dia oito, The Daily Telegraph escrevia: «Qualquer dirigente partidário e nacional digno de si próprio teria feito frente a Mr. Brown exigindo-lhe que deixasse o governo se não quisesse aceitar a autoridade do primeiro-ministro. O facto de que Mr. Blair não conseguiu fazê-lo durante o explosivo encontro de ambos em Downing Street deixa perceber, amplamente, até que ponto o seu poder desapareceu». Tony Blair parece pronto para sustentar todas as humilhações. Há um segredo nele. Um segredo que o tortura, que o impele a fugir da realidade. As suas relações com os americanos constituem um mistério. Ontem, era amigo íntimo de Bill Clinton. Hoje, é-o de George W. Bush. Só do seu próprio povo parece não ser tão amigo.

Voz da História

A vida política inglesa e, depois da integração da Escócia em 1707, a vida política britânica está cheia de dramas. Tony Blair, que procurou viver em glória mas tocou o fundo do oceano da indignidade, vai para dez anos de governo mas tudo indica que acabará mal. O drama nasce do facto de que os mecanismos internos do Partido Trabalhista são difíceis de aplicar quando se trata de demitir um leader do partido que é, igualmente, primeiro-ministro. Foi mais fácil aos conservadores mostrarem a porta de saída a Margaret Thatcher em 1990. Esta, após 11 anos no poder, esperava sair em grande espectáculo, dignamente, cheia de grandeza, o país de joelhos a seus pés. Mas os punhais tinham sido desembainhados e tudo o que os tories tiveram de fazer foi criar uma eleição interna para o lugar de leader do Partido tendo-se apresentado como candidato um dos antigos favoritos da «dama de ferro», Michael Heseltine.
A primeira votação realizou-se quando a primeira-ministra se deslocou a Paris para tomar parte numa conferência sobre questões da segurança europeia. E foi na capital francesa que tomou conhecimento do resultado – tinha vencido mas com menos quatro votos do que os necessários para evitar uma segunda votação. Convencida de que acabaria por triunfar, aceitou voltar a candidatar-se apesar dos sérios avisos da sua «Guarda Pretoriana». Mas ela, tal como Blair, vivia embriagada pelo elixir do orgulho no poder e só viu a realidade quando o Gabinete se voltou contra si. Era altura de abrir as janelas do número dez de Downing Street à neblina de Novembro. Os «barões» do Partido Conservador deram-lhe uma semana para sair. Margaret preferiu ir à segunda volta da eleição mas, agora, contra John Major que reunia mais apoio do que Michael Heseltine. Derrotada, escreveria, mais tarde: «Um primeiro-ministro que sabe não ter o apoio do seu Gabinete está, fatalmente, enfraquecido. Sabia, perfeitamente, e todos sabiam, que sem autoridade para governar não ficaria em Downing Street nem por uma hora mais». Por isso, saiu lavada em lágrimas. Mas Tony Blair conhecerá uma despedida mais dramática, a não ser que reconheça estar diante das escadas do patíbulo e se afaste, rapidamente.


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