TV, Net, cabeças e mundo

Correia da Fonseca
O caderno de economia do último número do semanário «Expresso» incluiu um extenso artigo acerca da queda do interesse que a televisão desperta na generalidade das gentes, e sobretudo nos segmentos mais jovens, em favor da Net. Em verdade, não se tratava de uma grande novidade, designadamente no que se refere ao afastamento da generalidade da juventude, conquistada, até fascinada, pelo computador, mas o artigo estava bem organizado e solidamente documentado, o que lhe conferia como que a força de uma sentença quase de morte lavrada contra a TV. No mínimo, não será demais dizer que ali se retirava à televisão a imaginária coroa de rainha dos media, com os extraordinários poderes que sempre lhe foram reconhecidos, supondo-se que tais poderes passaram agora para o PC (Personal Computer). Ora, a ser aceite sem restrições esta informação, dela decorrem naturalmente diversas conclusões importantes. Uma delas é a de que a televisão já não tem a importância social que teve como hegemónico e por vezes decisivo factor de informação/formação dos telespectadores, sobretudo os jovens. Outra, consequente da primeira, é a de que, sendo assim, a crítica de televisão perde força e quase razão de ser, pelo menos quanto à sua função de eventual correctora de inverdades, manipulações ou maldades correlativas, pela óbvia razão de que, tendo a televisão cada vez menos atenções, começa a não valer a pena gastar cara com tão ruim pré-defunto. Como que a confirmar esta possível confusão, não foi possível encontrar no caderno de Economia a que nos referimos a secção «Zapping», onde Pedro d’Anunciação há muito vinha fazendo crítica de TV, e que já há semanas havia sido transferida do caderno principal do semanário, onde parecia estar perfeitamente, para a área de Economia, onde fazia a figura de um convidado para a festa errada. Talvez o semanário tenha decidido começar por aí a ser coerente com as conclusões induzidas pelo artigo que publicava: se a TV desperta um interesse que tende a ser residual, não vale a pena gastar com ela prosa e espaço.

O grande poder intacto

É certo, evidente e irrecusável que a TV actual não é a televisão que por cá começámos a conhecer há quase meio século e está cada vez mais longe de se tornar a televisão que por essa altura muitos de nós sonhámos que poderia e deveria ser. Que anda a perder terreno e poderes a favor da Net e de outras formas de comunicação que têm um poder de sedução muito específico e uma gama de utilidade muito diversificada e em constante alargamento. Porém, ao menos por enquanto, a TV tem um poder de primeiríssima importância que a Net ou outras formas de comunicação conotadas com as mais recentes páginas da modernidade não possuem nem parece que venham a possuir tão cedo: é a TV que informa o cidadão do que acontece no País e no mundo: que o informa e, informando-o, o forma ou deforma. Quando os poderes dominantes querem convencer os cidadãos de que tudo o que vem do mundo islâmico é péssimo, excepto o petróleo, que os despedimentos fazem bem à saúde do País e que o comunismo morreu mas é preciso continuar a combater o cadáver, é a TV que utilizam. E utilizam-na com margem suficiente de êxito para que prossigam no crime da sua utilização contra a verdade, contra a paz, contra o entendimento lúcido das coisas e dos factos. Por outro lado, a grande massa de gente que acorre à Net e ocupa largas horas da sua vida diante do computador não o faz para colher informações sobre o que vai pelo mundo: para isso continua a usar o televisor e alimentar-se sobretudo dos telenoticiários principais. Mas não só deles, também das séries e novelas, embora nessa altura não se aperceba de que está também a receber informação, pois a ficção não é mais que informação sobre a vida e a gente (num país, numa região, numa rua, nos States ou no Brasil) envolta no tantas vezes citado manto diáfano da fantasia. Em resumo: continua a ser rigoroso dizer que é a TV, e não a Net, que «faz a cabeça» da maioria das pessoas, e por aí comanda comportamentos, opções cívicas, simpatias e aversões. E é exactamente por isso que continua a ser necessário, mesmo imprescindível, que a crítica de televisão resista ao fogo que sobre ela por vezes é disparado, ou à cada vez maior dificuldade que tem em encontrar um espaço de sobrevivência, ou às eliminações físicas que a inexorabilidade do tempo vai impondo: a crítica de televisão que avalie e esclareça conteúdos, não a que se esquive a esse dever fundamental emigrando para terrenos onde tranquilamente possa bordar doutas considerações sobre pouca coisa ou mesmo sobre coisa nenhuma. A crítica de televisão que seja cidadã. A contrariar o envenenamento dos outros cidadãos.


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