Uma imagem imaculada

A Humanidade vive momentos inquietantes. Ninguém pode ficar indiferente ao ver os noticiários das TV’s, ao ler os jornais, ao navegar pela Internet ou ouvir a rádio e tomar contacto com a barbárie imperialista, de que a face mais visível é actualmente o ataque de Israel contra o Líbano e a Palestina mas também a ocupação pelos EUA e Grã-Bretanha do Iraque e Afeganistão. Ninguém com sentido humanista pode ignorar a morte, o sofrimento e a dor da guerra, a fuga em massa de populações inteiras à destruição das suas casas, hospitais, escolas, estradas, campos agrícolas, fábricas… A ideia que temos da guerra é a de algo terrível mas a guerra em si é muito mais terrível.
Importa abordar alguns aspectos do papel da política externa da UE no actual quadro de alianças e oposição entre os principais blocos imperialistas, quando os principais órgãos de comunicação social apresentam a UE com uma imagem imaculada face à actual situação no Médio Oriente em particular, mas igualmente face aos vários cenários da disputa de influência geo-estratégica entre os pólos do centro capitalista.
O fim da URSS e do campo socialista do leste da Europa criaram um novo quadro político no qual a CEE/UE, a reboque dos chamados grandes países e dos seus grupos económicos, redefiniu a sua política tanto no plano interno como externo. As grandes potências europeias e os seus grupos económicos viram-se de mãos mais libertas para aprofundar a integração capitalista que a caracteriza, de forma mais arrogante, permitem-se ingerir externamente, interferindo na decisão interna dos povos dos países, financiando partidos, dirigentes, ONG’s, órgãos de comunicação social, etc. As revisões dos tratados foram criando base jurídica para permitir avançar com aquela que era agora uma das suas prioridades: o «papel da UE no mundo».
Em 1995 realizou-se em Barcelona uma conferência na qual foi assinado um acordo de parceria entre a UE e 12 países do Mediterrâneo, nos quais se integravam, entre outros, o Líbano, Israel e a Autoridade Palestiniana. Este acordo previa a «defesa da paz e da estabilidade», «o respeito pelos direitos humanos e a democracia», «o estabelecimento progressivo de uma área de livre comércio entre os vários parceiros» e «a aproximação de culturas». Citam-se este conjunto de objectivos porque por detrás de algumas destas boas intenções se escondem objectivos de dominação e ingerência. A prática destes 11 anos de acordo traduziu-se na procura pelos fortes e subsidiados grupos económicos europeus de dominação do comércio com estes países, pela tentativa de comprometer alguns deles com a constituição de uma zona tampão que evite a entrada de imigrantes (servindo estes países de «capangas» da UE) e uma política de dois pesos e duas medidas face a Israel e à Palestina e agora também ao Líbano.
Aquando da conferência realizada em Roma sobre a agressão ao Líbano, a Comissária Benita Ferrero-Waldner defendeu o «fim imediato das hostilidades» e o «envio de uma força internacional» para o terreno, posição essa que ao não reconhecer a agressão daquele país, branqueia a barbárie promovida por Israel com o apoio dos EUA e demonstra a hipocrisia que caracteriza a política externa da UE. Com a concertação de posições entre a UE e os EUA, Israel ficou com o campo aberto para prosseguir a sua política criminosa e ir ao encontro do seu objectivo militar de avançar até ao rio Litani. No momento em que escrevo este texto os telejornais noticiam que Israel estará de acordo (ou terá mesmo sugerido) que a força internacional a deslocar para o sul do Líbano seja comandada por forças italianas e que Romano Prodi estará de acordo. Será mais um episódio da «santa aliança» entre a direita e o social-democrata Romano Prodi? A ver vamos!
Referir ainda mais um exemplo recente desta política imaculada pela comunicação social dominante: as ridículas declarações da Presidência da UE após as eleições no Congo, onde manifesta que se «deu um grande passo em frente na via da democracia e da implantação de um Estado de direito» e a sua «satisfação pelo bom desenrolar das eleições legislativas». A UE tem forças militares no território congolês (onde se incluem também militares portugueses), existindo acusações de favorecimento de um dos candidatos por parte dessas forças e onde ocorreram incidentes com os observadores da UE. A implementação da «democracia» pelo fuzil tem destas coisas e desta forma se vai esbatendo a construção artificial de uma imagem imaculada da UE e dos grandes países e grupos económicos que a dominam.


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