O desemprego e depois

Correia da Fonseca
Como se saberá, a rubrica «Opinião Pública», da SIC-Notícias, é como que o paradigma do programa dito interactivo com grandes problemas de sofisticação quanto à estrutura: de um lado está o jornalista da estação e um convidado que se presume mais ou menos especializado no tema escolhido, do outro lado vão desfilando através do telefone as vozes de telespectadores que questionam, fornecem dados, concordam ou discordam, discutem. Que muitas vezes, infelizmente, pelo desacerto das intervenções, pela falta de informação que nelas transparece, constituem uma amostragem melancolizante de como os cidadãos portugueses continuam a ser mantidos longe dos dados que permitiriam uma abordagem lúcida das questões. De qualquer modo, é certo que «Opinião Pública» tem, no mínimo, o valor de um gesto que reconhece explicitamente que a opinião dos cidadãos habitualmente «sem voz» merece ser ouvida, precisa de ser ouvida. Sendo as coisas o que são, não é mérito irrelevante.
Um destes dias, o tema de «Opinião Pública» foi o desemprego. Se continua a aumentar para lá das aparentes boas notícias que os media divulgam, se há um recuo efectivo que pode ser entendido como o primeiro passo para uma tendência que precisa de ser muito acentuada. Coisas da estatística que conduzem directamente à exposição de argumentos que, por vezes, por maravilhosamente que estejam construídos convencem poucos ou ninguém. Mas «Opinião Pública» não ficou por aí, porque as vozes telefonadas não deixaram. Acerca delas, das vozes que telefonam, isto é, da participação do público, já por mais de uma vez fui advertido para não confiar excessivamente na sua inteira espontaneidade. De facto, se por um lado já não acredito em contos de fadas, por outro lado não me escandaliza excessivamente que a estação tome iniciativas para assegurar que o seu programa terá «fregueses»: bem sabemos que até Maradona não recusou aceitar a colaboração da «mão de Deus» para a marcação de um golo decisivo. Quanto à «Opinião Pública», o importante é que uma eventual iniciativa da estação, sempre com carácter de excepção, não sirva para seleccionar intervenções mais à medida dos seus gostos. Isto é: o importante é que «Opinião Pública» não traia a confiança dos telespectadores e não se traia a si própria.

O confronto adequado

Na emissão do «Opinião Pública» que atrás referimos esteve presente como convidado um especialista. Porém, sem desdouro para as informações que prestou, o que ali foi importante, porventura inesquecível, foram as palavras com que em dois ou três telefonemas foram evocadas as situações de gente desempregada e desesperada, e não apenas dos que perderam o emprego mas também dos familiares. De uma filha que não pôde continuar a estudar porque já não havia dinheiro para transporte e alguma comida longe de casa. De uns pais já idosos que perante o desemprego de um filho já não-jovem viram ruir o sonho de anos de uma posição segura «para o rapaz». De todo um agregado familiar que perante a impossibilidade de se continuar a pagar ao banco a mensalidade relativa à casa onde vive começa a encarar a inevitabilidade de se dispersar e distribuir por diversos lugares de acolhimento, isto é, de deixar de ser um agregado. De dois casais cinquentões que nem têm possibilidade de novo emprego nem direito a reforma que lhes evite a pobreza extrema que nunca haviam pensado ter de suportar. Estes casos, e talvez mais um ou dois, surgiram diluídos num número grande de telefonemas desinteressantes, ou tontos, ou presumidos, ou até equivocados, e isso retirou-lhes talvez um pouco do impacto que poderiam ter. Mas eram eles que constituíam a pista discreta mas segura que, se fosse seguida porventura no contexto de um outro programa verdadeiramente decidido a esboçar um quadro das consequências do desemprego no Portugal de hoje, seria reveladora. A questão é que é escasso reduzir a dimensão do desemprego a uma taxa que, diz-se, é menor que a da média europeia. Por uma razão simples mas arrasadora: porque o confronto a fazer não é com o desemprego dos outros (eventualmente melhor protegidos que os portugueses contra o risco do flagelo), mas sim com os direitos humanos que o desemprego leva a violar: direito à habitação, à educação, à saúde, a uma velhice com dignidade, direito a constituir família. Um programa que se aplique a fazer o levantamento de todos os efeitos do desemprego está por fazer, e é um imperativo nacional que seja feito. Porventura na SIC-Notícias. Mas de preferência num canal aberto. Por causa de um outro direito: o direito à informação.


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