O Vaticano e a manipulação das guerras
Os problemas estratégicos que as guerras do petróleo provocam são verdadeiros quebra-cabeças para o Vaticano, sempre preocupado em «agradar aos gregos mas continuar troiano». Todo o seu património financeiro depende do funcionamento do mercado; mas precisa de manter a ficção do seu voto evangélico de pobreza. E não pode, na guerra, surgir aos olhos da opinião como campeão das forças agressoras. Os casos de Gaza e do Líbano devem estar a tirar o sono aos teólogos do Vaticano.
Os acontecimentos do Próximo Oriente exigem à igreja que encontre a forma de condenar, justificando. Uma espécie de quadratura do círculo. Dificuldades que ela supera mais facilmente noutras áreas. No plano social e político, por exemplo, é certo que a diplomacia católica aplana os caminhos do grande capital ; mas, prudentemente, o Vaticano conserva em reserva e exibe, de vez em quando, a sua doutrina social de combate à pobreza.
Porém, a presente situação de guerra - em Gaza e no Líbano, no Iraque e no Afeganistão - exige que se tome partido e se fale claro. O Vaticano não tem coragem moral para assumir um tal discurso. Prefere a fuga e a evasiva. Os bispos emudecem sempre que as matérias que dominam possam ofender os interesses da igreja. O silêncio, então, é regra de oiro. Mesmo mais tarde, quando o mutismo dos sacerdotes se torna escandaloso, o discurso da hierarquia permanece ambíguo e disciplinado: no caso de Israel, condena-se o agressor cujos actos, no entanto, em parte se entendem e perdoam. Foi assim mesmo que, no século XX, o Vaticano procedeu com o regime nazi. Os nazis eram criminosos e brutais. A igreja católica levou décadas para admitir esta evidência. E lá foi recordando que aos nazis movia a intenção louvável de esmagar a hidra comunista.
No caso actual o agressor directo (Israel) não pode ser denunciado pela Vaticano que tantos crimes cometeu no passado contra os judeus; e muito menos deve ser posto em risco o agressor indirecto, os EUA, parceiro estratégico da Santa Sé em tantos e tantos negócios mundiais. Repare-se na forma como a Cúria silencia ou apenas sussurra quando se trata da denúncia de práticas imundas que envolvam os norte-americanos: a premeditação das guerras do petróleo, o uso de armas proibidas, os voos da CIA para Guantámano, os interrogatórios sob tortura, as celas clandestinas, as milícias privadas e a privatização das guerras, os assassinatos selectivos, as leis anti-terroristas de excepção, o tráfico de armas, de divisas ou de drogas, a propaganda mentirosa, a demagogia, a pornografia e o tráfico de carne branca, a instalação do pânico moral, os negócios da reconstrução, a cumplicidade entre as instituições como a União Europeia ou a ONU. A igreja oculta-se atrás do seu próprio Catecismo onde ardilosamente se diz que guerra justa é aquela que é movida contra uma agressão injusta, desde que a injustiça seja certa, grave e duradoira. É a habitual ginástica das palavras. Condenar sem se comprometer. No caso do Líbano, por exemplo, Israel teria recorrido à guerra para se defender do terrorismo, dos bombistas e das intifadas. Israel cometeu excessos mas, no essencial, a sua guerra justifica-se. Como sempre, o Vaticano usa «um pau de dois bicos».
No Líbano ou no Iraque, o drama do Vaticano é não ter alternativa para as suas próprias posições. É presa do mito da sua grandeza. A igreja construiu um arranha-céus num beco.
Alguns casos concretos e actuais
Ouve-se por aí entoar o tema da canção do «século da comunicação» que é o nosso. Na verdade comunicação, mas controlada. Meia dúzia de horas decorridas sobre o facto sabemos por exemplo que os aviões israelitas atacaram em Gaza ou em Beirute. É a notícia de um facto que se vai banalizando. Porém, o essencial dessas acções é sempre silenciado: os corpos soterrados, as pernas e os braços amputados, as crianças que vagueiam ao acaso, sem casa e sem família, os velhos que tudo perderam, os traumas que as bombas causaram, a fome, as doenças, a dor suportada a frio, as mulheres violadas, nada contam acerca das razões porque isso aconteceu. A igreja despreza, então, a oportunidade de falar. Teria de citar nomes e factos que poriam em causa os seus mais íntimos amigos políticos. Por isso, o Vaticano rejeita essa alternativa e cala-se.
Não nos tolhem tais pavores. É preciso resistir. Assim, iremos ocupar os próximos espaços desta secção do Avante! para registarmos e articularmos entre si alguns aspectos tenebrosos da história do petróleo e do Próximo Oriente. Sem que pretendamos com isso substituirmo-nos à igreja e revelarmos aquilo que ela muito bem conhece. O Vaticano tem aferrolhados nas suas profundas caves, segredos de apavorar.
Os acontecimentos do Próximo Oriente exigem à igreja que encontre a forma de condenar, justificando. Uma espécie de quadratura do círculo. Dificuldades que ela supera mais facilmente noutras áreas. No plano social e político, por exemplo, é certo que a diplomacia católica aplana os caminhos do grande capital ; mas, prudentemente, o Vaticano conserva em reserva e exibe, de vez em quando, a sua doutrina social de combate à pobreza.
Porém, a presente situação de guerra - em Gaza e no Líbano, no Iraque e no Afeganistão - exige que se tome partido e se fale claro. O Vaticano não tem coragem moral para assumir um tal discurso. Prefere a fuga e a evasiva. Os bispos emudecem sempre que as matérias que dominam possam ofender os interesses da igreja. O silêncio, então, é regra de oiro. Mesmo mais tarde, quando o mutismo dos sacerdotes se torna escandaloso, o discurso da hierarquia permanece ambíguo e disciplinado: no caso de Israel, condena-se o agressor cujos actos, no entanto, em parte se entendem e perdoam. Foi assim mesmo que, no século XX, o Vaticano procedeu com o regime nazi. Os nazis eram criminosos e brutais. A igreja católica levou décadas para admitir esta evidência. E lá foi recordando que aos nazis movia a intenção louvável de esmagar a hidra comunista.
No caso actual o agressor directo (Israel) não pode ser denunciado pela Vaticano que tantos crimes cometeu no passado contra os judeus; e muito menos deve ser posto em risco o agressor indirecto, os EUA, parceiro estratégico da Santa Sé em tantos e tantos negócios mundiais. Repare-se na forma como a Cúria silencia ou apenas sussurra quando se trata da denúncia de práticas imundas que envolvam os norte-americanos: a premeditação das guerras do petróleo, o uso de armas proibidas, os voos da CIA para Guantámano, os interrogatórios sob tortura, as celas clandestinas, as milícias privadas e a privatização das guerras, os assassinatos selectivos, as leis anti-terroristas de excepção, o tráfico de armas, de divisas ou de drogas, a propaganda mentirosa, a demagogia, a pornografia e o tráfico de carne branca, a instalação do pânico moral, os negócios da reconstrução, a cumplicidade entre as instituições como a União Europeia ou a ONU. A igreja oculta-se atrás do seu próprio Catecismo onde ardilosamente se diz que guerra justa é aquela que é movida contra uma agressão injusta, desde que a injustiça seja certa, grave e duradoira. É a habitual ginástica das palavras. Condenar sem se comprometer. No caso do Líbano, por exemplo, Israel teria recorrido à guerra para se defender do terrorismo, dos bombistas e das intifadas. Israel cometeu excessos mas, no essencial, a sua guerra justifica-se. Como sempre, o Vaticano usa «um pau de dois bicos».
No Líbano ou no Iraque, o drama do Vaticano é não ter alternativa para as suas próprias posições. É presa do mito da sua grandeza. A igreja construiu um arranha-céus num beco.
Alguns casos concretos e actuais
Ouve-se por aí entoar o tema da canção do «século da comunicação» que é o nosso. Na verdade comunicação, mas controlada. Meia dúzia de horas decorridas sobre o facto sabemos por exemplo que os aviões israelitas atacaram em Gaza ou em Beirute. É a notícia de um facto que se vai banalizando. Porém, o essencial dessas acções é sempre silenciado: os corpos soterrados, as pernas e os braços amputados, as crianças que vagueiam ao acaso, sem casa e sem família, os velhos que tudo perderam, os traumas que as bombas causaram, a fome, as doenças, a dor suportada a frio, as mulheres violadas, nada contam acerca das razões porque isso aconteceu. A igreja despreza, então, a oportunidade de falar. Teria de citar nomes e factos que poriam em causa os seus mais íntimos amigos políticos. Por isso, o Vaticano rejeita essa alternativa e cala-se.
Não nos tolhem tais pavores. É preciso resistir. Assim, iremos ocupar os próximos espaços desta secção do Avante! para registarmos e articularmos entre si alguns aspectos tenebrosos da história do petróleo e do Próximo Oriente. Sem que pretendamos com isso substituirmo-nos à igreja e revelarmos aquilo que ela muito bem conhece. O Vaticano tem aferrolhados nas suas profundas caves, segredos de apavorar.