Heroísmo e glória das brigadas internacionais
A batalha do Jarama desenhava-se como aquela que seria a mais sangrenta, a que mais exigiria dos comandos, do material e, evidentemente, dos homens. A aviação republicana recebia reforços de notável qualidade e, em Fevereiro de 1937, formava-se a primeira esquadrilha exclusivamente tripulada por pessoal espanhol sob o comando do herói da caça, Andrés Garcia Lacalle. Esta e outras cinco esquadrilhas, formadas por pessoal soviético, assumiam a constituição do Grupo de Caça No.26 cujos aparelhos, os I-15, dominavam nos céus. Em terra, a sensação do momento eram os camiões blindados soviéticos, os BA-32, equipados com canhões de 45 mm e duas metralhadoras que integravam a brigada Pavlov.
Jarama, na frente de Madrid, foi, desde o seu primeiro dia, um confronto de desgaste intenso tanto em material como em vidas humanas. Foi um dos raros choques directos entre os dois campos que se verificaram ao longo da guerra. Foi o mais sangrento e, sem dúvida, aquele em que a internacionalização do conflito se tornou mais evidente aos olhos do mundo. E este gritava contra a posição hipócrita das chamadas democracias que se escondiam do que estava a passar-se em Espanha e não prestavam qualquer auxílio à República espanhola, tão cobardemente assaltada pelos seus próprios generais, pela Itália fascista e pela Alemanha nazi. A URSS, acabada de sair dos históricos esforços desenvolvidos para a colectivização dos campos e a organização da produção agrícola socialista, e para a industrialização em massa, era a única potência que estava a pôr o seu poderio militar ao serviço do povo espanhol. Nesta conjuntura, assumiam indiscutível importância as Brigadas Internacionais, que, como vimos, chegaram a Espanha para defender a justiça e a verdadeira democracia. Formavam-nas, homens e mulheres de coração, gente com ideal e sem medo, gente incomparavelmente superior a todo o ‘lixo’ que apoiava e servia os franquistas ou combatia por eles. Por isso, nos combates do Jarama, que se prolongaram até quase ao fim de Fevereiro de 1937, lhes pertenceu a mais elevada proporção de mortes em combate.
Dado, porém, que os combates na zona do Jarama produziram resultados inconclusivos, os fascistas espreitaram uma grande oportunidade que lhes surgia, em Málaga. Em fins de Fevereiro, os italianos mostravam-se dispostos ao desempenho de um papel mais importante na guerra. Já tinham 50 000 homens em território espanhol. Grande parte desse pessoal provinha do próprio exército regular. Formariam o ‘Corpo Truppe Volontarie’, sob o comando do general Mario Roatta, com quatro divisões, a ‘Littorio’, a ‘Dio lo Vuole’, a ‘Flamme Nere’ e a ‘Penne Nere’. Como Franco se sentia pouco confortável perante este crescer contínuo da influência italiana no planeamento de futuras operações militares, Queipo de Llano descobriu que tomar Málaga e isolá-la de Madrid constituiria o êxito de que o movimento rebelde dos oficiais franquistas já necessitava.
A frente de Málaga tinha 280 quilómetros e o ataque foi por Queipo de Llano confiado a uma coluna franquista comandada pelo general Borbón, duque de Sevilha, a uma segunda coluna que, comandada pelo coronel Espinosa, partia de Orgiva, e ao grupo italiano de Roatta. Estes, avançavam, rapidamente, devido a que dispunham de meios motorizados modernos e eficientes. Málaga, conheceu o pânico. O êxodo começou. Com efeito, sem que a indisciplinada guarnição militar pudesse sequer pensar em resistir, o aparelho de administração normal começou a fazer as malas preparando a fuga da cidade. Dirigentes políticos e sindicais, seguiram, também, esse caminho com justificado medo das represálias de Queipo de Llano. A ocupação de Málaga, a 7 de Fevereiro, deu-se com grande espectáculo. Mas resultou de uma vitória fácil. No entanto, tal como Queipo de Llano queria, deu aos franquistas o alento que já começava a rarear dado que em Jarama os combates não os favoreciam e Madrid continuava distante, muito distante para as ambições de Francisco Franco, o generalíssimo.
Desastre do fascismo italiano em Guadalajara
O plano dos italianos para o êxito na frente de Madrid, não estava mal pensado e tinha por finalidade um ataque em grande forma às unidades republicanas dispostas a Norte de Guadalajara. Esperavam pôr em prática um avanço com tropas motorizadas que os levasse até Alcalá de Henares onde se lhes juntariam as forças franquistas da zona do Jarama. A estrada para Valência ficaria cortada, e Madrid passaria à categoria de cidade sitiada. Vira-se em Málaga o grande espectáculo da parada de carros de combate de fabrico italiano, apesar de se dizer que tinham pouca potência. No campo republicano, entretanto, procediam a mais reorganizações que a situação impunha. Assim, constituía-se, agora, o ‘Exército do Centro’ com quartel-general em Alcalá de Henares. O general no comando seria, novamente, Miaja, e o chefe do Estado-Maior, o imprescindível coronel Vicente Rojo. Era formado por dois exércitos, que os generais Modesto e Alzugaray comandavam, e por duas divisões independentes. Mas as tropas que iriam opor-se aos italianos seriam as da 12.ª divisão, uma força considerada como relativamente débil.
A 2.ª divisão italiana, que dirigiria o ataque, avançaria sobre Guadalajara pela estrada de Madrid para Saragoça. Mas no dia do início da operação (08.3.1937), as condições do tempo invernoso apresentavam-se extremamente desfavoráveis. Os carros italianos conheceriam dificuldades para avançar e os ‘camisas negras’, que não tinham experiência de combate, não conseguiriam realizar a sua verdadeira missão. O comando franquista sugeriu que a manobra fosse adiada. Mas Roatta, pressionado de Roma, discordou. Nesse dia, o exército italiano não progrediu mais do que seis quilómetros. Logo, os principais chefes militares republicanos, Miaja e Rojo, compreenderam a situação. Mandaram, por isso, que se passasse ao contra-ataque usando quatro batalhões de infantaria e vinte carros de combate enquanto à retaguarda destas tropas, outras começavam a preparar-se.
A derrota dos camisas negras
Ao meio-dia de 8 de Março, Roatta, ordenou, efectivamente, o avanço da sua 3.ª divisão de blindados. Contudo, como se antecipara, estabeleceu-se um gigantesco engarrafamento em muitos quilómetros da estrada e este congestionamento de veículos pesados daria lugar à confusão geral, a manifestações de indisciplina, a fenomenais choques de veículos, avarias, ao desastre que até os franquistas tinham previsto mas Roatta, não quisera ver. O comando republicano, nestas circunstâncias, pôs em campo algumas unidades de elite que tinham lutado na batalha do Jarama, incluindo a 11.ª Brigada Internacional e a 12.ª, comandada por Gyorgy Lukacs. Esta brigada, integrava o batalhão ‘Garibaldi’ que era formado por italianos anti-fascistas.
A 10, a derrota dos ‘camisas negras’ estava perfeitamente à vista. A aviação republicana, atacava quase impunemente, enquanto a dos fascistas italianos permanecia no chão. A intervenção da brigada de ‘El Campesino’, ao lado dos batalhões ‘Garibaldi’ e ‘André Marty’, com o apoio dos carros de combate soviéticos, tornava-se decisiva e, a 15, o próprio palácio Ibarra, em Brihuega, onde os ‘camisas negras’ se concentravam, seria investido e ocupado pelos admiráveis soldados das Brigadas Internacionais. Nesse mesmo dia, o 4.º Corpo do Exército governamental (Jurado), com três divisões (Lacalle, Líster e Mera) e um grupo de carros soviéticos (Pavlov) ganhava a iniciativa dos acontecimentos no terreno e garantia a humilhação de Roatta, do franquismo e do fascismo. Iriam os republicanos ganhar a guerra?
Adeus, Bilbao!
O governo de Juan Negrin, que se instalou no poder, em Valência (17.05.1937) em substituição do de Largo Caballero, procedeu à criação de um Ministério da Defesa Nacional, uma das suas mais imediatas propostas. E, naturalmente, o primeiro ocupante desse ministério foi Indalecio Prieto que, por sua vez, manteria Miaja e Rojo nos lugares chave que já ocupavam na condução da guerra. Nas províncias do Norte (Guipúzcoa, Vizcaya, Santander e Astúrias (com excepção de Oviedo) que tropas do general Mola procuravam assediar, as simpatias gerais iam para o governo e para a República. O país basco tinha obtido, em 1 de Outubro de 1936, um Estatuto de Autonomia votado pelas Cortes da República, o que lhe permitia constituir um governo próprio e eleger um presidente. Esse presidente era José António Aguirre y Lecube e o governo compreendia representantes de todas as principais formações políticas, excepto a CNT (Confederación Nacional del Trabajo) anarco-sindicalista. Astúrias e León eram governadas por uma Junta provincial chefiada pelo socialista, Belarmino Tomás. Em Santander, trabalhava outra Junta a que presidia, também, um socialista, Juan Ruiz Olazarán. Prosseguia a organização do exército em brigadas e divisões, mas o governo de Aguirre, não aceitava qualquer competência legal ao general Llano de la Encomienda que o governo central transferira para ocupar o posto de comandante geral. A atmosfera de relativa acalmia, foi aproveitada pelo governo basco para constituir um exército com efectivos de 25 000 homens e erguer fortificações à volta de Bilbao, uma espécie de ‘cinturão de ferro’ para defender a cidade.
Por outro lado, as forças franquistas, além das suas próprias unidades, dispunham do poderoso auxílio que lhes proporcionavam a divisão ‘Condor’, comandada pelos generais alemães, Hugo von Sperrle e Wolfram (‘baron von’) Richthofen. Contavam, ainda, com a presença, a seu lado, de tropas italianas tanto de infantaria como motorizadas e de numerosos voluntários ‘requetés’ comandados pelo general Solchaga Zala. Esta concentração de tropas e de meios aéreos iniciara-se a 30 de Março sob o comando geral do general Mola. Os fascistas, entretanto, iam abrir uma página nova na história da brutalidade aplicada na solução de conflitos humanos, a da concentração de meios aéreos sobre as populações, directamente. Com efeito, os ataques de 20 ’Junkers-52’ da Legião ‘Condor’ sobre as povoações de Ochandiano, Elorrio e Durango, a 2 e 4 de Abril, causaram 248 mortos. Agora, a par do governo de Aguirre, também o general Llano de la Encomienda, insistira com o governo central (ainda o de Largo Caballero) para que lhes fosse enviada aviação. Mas tudo indicava que os aparelhos soviéticos, apesar da sua comprovada qualidade e das suas ainda não igualadas características, não tinham raio de acção para atingir o país Basco, directamente. Teriam de voar sobre espaço aéreo controlado pelo inimigo e de se reabastecer em carburante num qualquer aeródromo intermédio. Isto, deixava a legião ‘Condor’ com as mãos livres para continuar a sua missão assassina ao serviço de Franco. Eram dramáticos os apelos do ministro comunista, Vicente Uribe que, ao visitar Bilbao a 7 de Abril, se confrontou com a terrível situação que os seus olhos viam. O povo continuava a morrer sob o fogo das metralhadoras e das bombas incendiárias dos aviões hitlerianos.
A destruição de Guernica
Com efeito, a 26 de Abril de 1937, verificava-se a criminosa destruição da vila de Guernica, um facto que daria a conhecer ao mundo o que estava a passar-se em Espanha quando esta nova forma de se fazer a guerra surgia. Mas ao conhecer a extensão do crime cometido, o quartel-general franquista apressou-se a, evitando assumir a responsabilidade do que estava a acontecer, declarar: «Aguirre miente. Son los rojos quienes han incendiado Guernica!». Nestas circunstâncias, o avanço fascista ganhava momento. As chamadas ‘brigadas navarras’, de Mola, ocuparam Durango e Guernica e os fuzilamentos, ordenados por Solchaga em Ajanguiz, provocavam medo e revolta. A luta da Espanha republicana no Norte do país dava sinais de desintegração. Ultrapassando as posições do governo central em Valência e do próprio Presidente da República, José António Aguirre, chamava a si o controlo directo das forças militares de ‘Euzkadi’. «A esperança que Prieto me fez sentir, não se realizou», diria. Torturado pelo sofrimento a que davam lugar os constantes ‘raids’ aéreos da ‘Legião Condor’, o povo basco exigia medidas militares adequadas por parte do seu governo autónomo. Foi nesta dolorosa conjuntura que Prieto e o seu novo Estado-Maior decidiram, a 22 de Maio, assumir o risco do envio de meios aéreos sem escala, até Santander. Mas as contradições resultantes da existência de dois poderes em acção simultânea fazia perigar a eficácia das medidas militares tomadas. Sem dúvida nenhuma, esquadrilhas de caças de fabrico soviético começaram a chegar a Santander. Todavia, a 12 de Junho, outros seis aparelhos enviados por decisão soviética directa, caíram sobre o aeródromo de San Martin de Somorrostro.
A 31 de Maio, o governo central fez aterrar em Santander um avião em que seguia o general Gáemir Ulibarri, nomeado para o cargo de comandante de uma formação militar a constituir, o Corpo de Exército do País Vascongado, independente do Exército do Norte cujo comando Aguirre assumira. Indalécio Prieto, num telegrama ao presidente basco, esclarecia: «O general Gámir seguirá para Bilbao com o objectivo de assumir o comando único do exército de terra, da marinha e da aviação, de todas as forças que operam na Bizcaya. As estacionadas nas Astúrias e em Santander continuam sob o comando do general Llano de la Encomienda». Nesse mesmo dia, apesar da actividade intensa da ‘Legião Condor’ sobre a área de Bilbao, o governo do presidente Aguirre tentou pôr em prática alguns movimentos militares tendentes à defesa de La Granja, ameaçada por Mola que, continuamente, recebia reforços, mas que pereceria num desastre de avião, a 3 de Junho. Combateu-se na zona de Huesca entre 12 e 19. E o presidente, Manuel Azaña, escrevia no seu ‘diário’: «Temo que a cidade de Bilbao não se defenda quando o inimigo já está às suas portas». Com efeito, nesse mesmo 19 de Junho, as tropas franquistas de Fidel Dávila ocupavam a cidade. E, dramaticamente, começava o êxodo que encheria a estrada de Santander sob os ataques da ‘Legião Condor’enquanto os fuzilamentos começavam no interior de Bilbao. O ‘generalíssimo’, Franco, ocupava, agora, um enorme território que se estendia dos Pirinéus até à costa Sul na província de Granada. O fim da guerra nas regiões do Norte libertava-lhe qualquer coisa como 150 batalhões que empregaria nas campanhas seguintes. Com efeito, também Oviedo e Gijón cairiam para os exércitos franquistas de Aranda e Solchaga (21.10.1937) o que deixava nas mãos dos fascistas todo o carvão das minas das Astúrias que, tal como acontecera com a indústria pesada de Bilbao, os alemães queriam negociar.
A batalha de Badajoz
Da concentração de tropas que se verificava em Sevilha formaram-se duas colunas a dois batalhões; uma, com efectivos mouros, a outra com legionários. E avançaram, subindo no país. A esquerda, tinham-na coberta pela fronteira portuguesa; à direita, não existiam vias de comunicação que tropas governamentais pudessem utilizar. A ordem de operações previa a tomada de Mérida, em primeiro lugar, para que, depois, se realizasse uma junção com as tropas de Mola que já dominavam a província de Cáceres. Uma terceira coluna, do comando de Tella, viria juntar-se ao conjunto que tomou a designação de ‘coluna Madrid’ posto que todo o grupo, após Badajoz e sob o comando de Yague, tomaria a direcção da capital. Mérida, efectivamente, seria ocupada depois de violentos combates, a 10 e 11 de Agosto e, situando-se em plena estrada Badajoz-Madrid deixava a cidade raiana isolada.
Badajoz, todavia, estava defendida por alguns milhares de milicianos e por tropa regular sob o comando do coronel Puigdengolas quando as formações de Yague, ultrapassados os 60 quilómetros que a separavam de Mérida, chegaram aos arredores, a 13. Logo, numa manobra envolvente, o coronel Castejón ocupou os bairros situados fora das muralhas da cidade. A 14, depois de preparação de artilharia, o assalto começou. A coluna Castejón avançou pelo Sul. A de Asensio (tropas mouras) irrompeu de Norte, do lado da Alcazaba. Estas formações franquistas sofreram, inevitavelmente, pesadas baixas, mas acabaram por entrar na cidade usando granadas e forçando o combate à baioneta, homem a homem. Badajoz, seria dominada após encarniçados combates e a população só capitularia diante do exército de África quando na fúria de combates casa a casa lhe faltaram os meios de defesa.
A chacina dos vencidos
A vingança surgiu nos dias seguintes. Todos os prisioneiros foram fuzilados, incluindo aqueles que haviam tomado refúgio em Portugal (Puigdengolas, entre eles) e solicitado refúgio ao governo de Lisboa. Mas este, que ligara o seu destino ao dos franquistas, entregou-os, miseravelmente. O fumo resultante da incineração de cadáveres, no calor violento desse Verão, via-se, perfeitamente, do lado português da fronteira havendo ansiedade na capital do nosso país em travar conhecimento com as reportagens dos enviados especiais do Diário de Lisboa, Norberto Lopes, Mário Neves, Artur Portela, Félix Correia. O jornal era dirigido por Joaquim Manso e, apesar do ambiente que se vivia em Lisboa, conseguiu estabelecer a verdade quanto ao que se passava em Espanha. O povo português, assim, ganhou consciência do facto de que o governo de Salazar escrevera uma das mais negras e repugnantes páginas da História do nosso país.
Por razões de propaganda e prestígio, o governo republicano de Madrid decidira, em meados de Agosto, organizar o assalto final ao Alcázar de Toledo onde se acumulavam centenas de nacionalistas em condições desesperadas. Seria uma forma de resposta, ainda que inadequada, ao avanço contra Madrid que Franco, agora com quartel-general em Cáceres, ordenara. Numa linha de penetração que levava à capital de Espanha, as tropas que haviam dominado Badajoz e Mérida já se aproximavam de Talavera. A 23, deram-se os primeiros bombardeamentos aéreos tendo os aeródromos militares de Getafe e Cuatro Vientos sido atingidos. A 27 e 28, ’Junkers-52’, alemães, cruzavam o céu de Madrid e, naquele que seria considerado como o primeiro bombardeamento aéreo de uma cidade, despejavam as suas assassinas cargas de bombas. O avanço de Yague prosseguia. As colunas de Tella e Castejón à frente, a de Cabanillas Asensio,mais atrás. Neste grupo de tropas incorporava-se, já, uma nova coluna comandada por Delgado Serrano que vinha de Sevilha com abundantes reforços. Na tarde de 3 de Setembro, Castejón e Asensio, que haviam enfrentado a resistência de milicianos, entravam em Talavera,o que constituía um perigo imediato para Madrid.
O assalto ao Alcázar de Toledo seria comandado pelo coronel Burillo, que substituía o coronel Barceló. Mas, apesar de se ter incendiado a fachada principal usando gasolina, a célebre fortaleza resistiu. Franco, contra a opinião de Yague, decidiu que a libertação da guarnição e dos refugiados do Alcázar lhe daria dividendos políticos. Por isso, ordenou que se desse prioridade àquela operação adiando a de avanço sobre Madrid que passava para a responsabilidade do general Varela. Assim, a 26 de Setembro, as forças nacionalistas chegavam a Bargas e cortavam as ligações entre Madrid e a Andaluzia deixando Toledo isolada e ficando com as mãos livres para o assalto que se verificaria a 27. A cidade, propriamente dita, cairia, a 28, após sanguinários combates e violências de todas as categorias contra prisioneiros, republicanos, religiosos e civis.
Dado, porém, que os combates na zona do Jarama produziram resultados inconclusivos, os fascistas espreitaram uma grande oportunidade que lhes surgia, em Málaga. Em fins de Fevereiro, os italianos mostravam-se dispostos ao desempenho de um papel mais importante na guerra. Já tinham 50 000 homens em território espanhol. Grande parte desse pessoal provinha do próprio exército regular. Formariam o ‘Corpo Truppe Volontarie’, sob o comando do general Mario Roatta, com quatro divisões, a ‘Littorio’, a ‘Dio lo Vuole’, a ‘Flamme Nere’ e a ‘Penne Nere’. Como Franco se sentia pouco confortável perante este crescer contínuo da influência italiana no planeamento de futuras operações militares, Queipo de Llano descobriu que tomar Málaga e isolá-la de Madrid constituiria o êxito de que o movimento rebelde dos oficiais franquistas já necessitava.
A frente de Málaga tinha 280 quilómetros e o ataque foi por Queipo de Llano confiado a uma coluna franquista comandada pelo general Borbón, duque de Sevilha, a uma segunda coluna que, comandada pelo coronel Espinosa, partia de Orgiva, e ao grupo italiano de Roatta. Estes, avançavam, rapidamente, devido a que dispunham de meios motorizados modernos e eficientes. Málaga, conheceu o pânico. O êxodo começou. Com efeito, sem que a indisciplinada guarnição militar pudesse sequer pensar em resistir, o aparelho de administração normal começou a fazer as malas preparando a fuga da cidade. Dirigentes políticos e sindicais, seguiram, também, esse caminho com justificado medo das represálias de Queipo de Llano. A ocupação de Málaga, a 7 de Fevereiro, deu-se com grande espectáculo. Mas resultou de uma vitória fácil. No entanto, tal como Queipo de Llano queria, deu aos franquistas o alento que já começava a rarear dado que em Jarama os combates não os favoreciam e Madrid continuava distante, muito distante para as ambições de Francisco Franco, o generalíssimo.
Desastre do fascismo italiano em Guadalajara
O plano dos italianos para o êxito na frente de Madrid, não estava mal pensado e tinha por finalidade um ataque em grande forma às unidades republicanas dispostas a Norte de Guadalajara. Esperavam pôr em prática um avanço com tropas motorizadas que os levasse até Alcalá de Henares onde se lhes juntariam as forças franquistas da zona do Jarama. A estrada para Valência ficaria cortada, e Madrid passaria à categoria de cidade sitiada. Vira-se em Málaga o grande espectáculo da parada de carros de combate de fabrico italiano, apesar de se dizer que tinham pouca potência. No campo republicano, entretanto, procediam a mais reorganizações que a situação impunha. Assim, constituía-se, agora, o ‘Exército do Centro’ com quartel-general em Alcalá de Henares. O general no comando seria, novamente, Miaja, e o chefe do Estado-Maior, o imprescindível coronel Vicente Rojo. Era formado por dois exércitos, que os generais Modesto e Alzugaray comandavam, e por duas divisões independentes. Mas as tropas que iriam opor-se aos italianos seriam as da 12.ª divisão, uma força considerada como relativamente débil.
A 2.ª divisão italiana, que dirigiria o ataque, avançaria sobre Guadalajara pela estrada de Madrid para Saragoça. Mas no dia do início da operação (08.3.1937), as condições do tempo invernoso apresentavam-se extremamente desfavoráveis. Os carros italianos conheceriam dificuldades para avançar e os ‘camisas negras’, que não tinham experiência de combate, não conseguiriam realizar a sua verdadeira missão. O comando franquista sugeriu que a manobra fosse adiada. Mas Roatta, pressionado de Roma, discordou. Nesse dia, o exército italiano não progrediu mais do que seis quilómetros. Logo, os principais chefes militares republicanos, Miaja e Rojo, compreenderam a situação. Mandaram, por isso, que se passasse ao contra-ataque usando quatro batalhões de infantaria e vinte carros de combate enquanto à retaguarda destas tropas, outras começavam a preparar-se.
A derrota dos camisas negras
Ao meio-dia de 8 de Março, Roatta, ordenou, efectivamente, o avanço da sua 3.ª divisão de blindados. Contudo, como se antecipara, estabeleceu-se um gigantesco engarrafamento em muitos quilómetros da estrada e este congestionamento de veículos pesados daria lugar à confusão geral, a manifestações de indisciplina, a fenomenais choques de veículos, avarias, ao desastre que até os franquistas tinham previsto mas Roatta, não quisera ver. O comando republicano, nestas circunstâncias, pôs em campo algumas unidades de elite que tinham lutado na batalha do Jarama, incluindo a 11.ª Brigada Internacional e a 12.ª, comandada por Gyorgy Lukacs. Esta brigada, integrava o batalhão ‘Garibaldi’ que era formado por italianos anti-fascistas.
A 10, a derrota dos ‘camisas negras’ estava perfeitamente à vista. A aviação republicana, atacava quase impunemente, enquanto a dos fascistas italianos permanecia no chão. A intervenção da brigada de ‘El Campesino’, ao lado dos batalhões ‘Garibaldi’ e ‘André Marty’, com o apoio dos carros de combate soviéticos, tornava-se decisiva e, a 15, o próprio palácio Ibarra, em Brihuega, onde os ‘camisas negras’ se concentravam, seria investido e ocupado pelos admiráveis soldados das Brigadas Internacionais. Nesse mesmo dia, o 4.º Corpo do Exército governamental (Jurado), com três divisões (Lacalle, Líster e Mera) e um grupo de carros soviéticos (Pavlov) ganhava a iniciativa dos acontecimentos no terreno e garantia a humilhação de Roatta, do franquismo e do fascismo. Iriam os republicanos ganhar a guerra?
Adeus, Bilbao!
O governo de Juan Negrin, que se instalou no poder, em Valência (17.05.1937) em substituição do de Largo Caballero, procedeu à criação de um Ministério da Defesa Nacional, uma das suas mais imediatas propostas. E, naturalmente, o primeiro ocupante desse ministério foi Indalecio Prieto que, por sua vez, manteria Miaja e Rojo nos lugares chave que já ocupavam na condução da guerra. Nas províncias do Norte (Guipúzcoa, Vizcaya, Santander e Astúrias (com excepção de Oviedo) que tropas do general Mola procuravam assediar, as simpatias gerais iam para o governo e para a República. O país basco tinha obtido, em 1 de Outubro de 1936, um Estatuto de Autonomia votado pelas Cortes da República, o que lhe permitia constituir um governo próprio e eleger um presidente. Esse presidente era José António Aguirre y Lecube e o governo compreendia representantes de todas as principais formações políticas, excepto a CNT (Confederación Nacional del Trabajo) anarco-sindicalista. Astúrias e León eram governadas por uma Junta provincial chefiada pelo socialista, Belarmino Tomás. Em Santander, trabalhava outra Junta a que presidia, também, um socialista, Juan Ruiz Olazarán. Prosseguia a organização do exército em brigadas e divisões, mas o governo de Aguirre, não aceitava qualquer competência legal ao general Llano de la Encomienda que o governo central transferira para ocupar o posto de comandante geral. A atmosfera de relativa acalmia, foi aproveitada pelo governo basco para constituir um exército com efectivos de 25 000 homens e erguer fortificações à volta de Bilbao, uma espécie de ‘cinturão de ferro’ para defender a cidade.
Por outro lado, as forças franquistas, além das suas próprias unidades, dispunham do poderoso auxílio que lhes proporcionavam a divisão ‘Condor’, comandada pelos generais alemães, Hugo von Sperrle e Wolfram (‘baron von’) Richthofen. Contavam, ainda, com a presença, a seu lado, de tropas italianas tanto de infantaria como motorizadas e de numerosos voluntários ‘requetés’ comandados pelo general Solchaga Zala. Esta concentração de tropas e de meios aéreos iniciara-se a 30 de Março sob o comando geral do general Mola. Os fascistas, entretanto, iam abrir uma página nova na história da brutalidade aplicada na solução de conflitos humanos, a da concentração de meios aéreos sobre as populações, directamente. Com efeito, os ataques de 20 ’Junkers-52’ da Legião ‘Condor’ sobre as povoações de Ochandiano, Elorrio e Durango, a 2 e 4 de Abril, causaram 248 mortos. Agora, a par do governo de Aguirre, também o general Llano de la Encomienda, insistira com o governo central (ainda o de Largo Caballero) para que lhes fosse enviada aviação. Mas tudo indicava que os aparelhos soviéticos, apesar da sua comprovada qualidade e das suas ainda não igualadas características, não tinham raio de acção para atingir o país Basco, directamente. Teriam de voar sobre espaço aéreo controlado pelo inimigo e de se reabastecer em carburante num qualquer aeródromo intermédio. Isto, deixava a legião ‘Condor’ com as mãos livres para continuar a sua missão assassina ao serviço de Franco. Eram dramáticos os apelos do ministro comunista, Vicente Uribe que, ao visitar Bilbao a 7 de Abril, se confrontou com a terrível situação que os seus olhos viam. O povo continuava a morrer sob o fogo das metralhadoras e das bombas incendiárias dos aviões hitlerianos.
A destruição de Guernica
Com efeito, a 26 de Abril de 1937, verificava-se a criminosa destruição da vila de Guernica, um facto que daria a conhecer ao mundo o que estava a passar-se em Espanha quando esta nova forma de se fazer a guerra surgia. Mas ao conhecer a extensão do crime cometido, o quartel-general franquista apressou-se a, evitando assumir a responsabilidade do que estava a acontecer, declarar: «Aguirre miente. Son los rojos quienes han incendiado Guernica!». Nestas circunstâncias, o avanço fascista ganhava momento. As chamadas ‘brigadas navarras’, de Mola, ocuparam Durango e Guernica e os fuzilamentos, ordenados por Solchaga em Ajanguiz, provocavam medo e revolta. A luta da Espanha republicana no Norte do país dava sinais de desintegração. Ultrapassando as posições do governo central em Valência e do próprio Presidente da República, José António Aguirre, chamava a si o controlo directo das forças militares de ‘Euzkadi’. «A esperança que Prieto me fez sentir, não se realizou», diria. Torturado pelo sofrimento a que davam lugar os constantes ‘raids’ aéreos da ‘Legião Condor’, o povo basco exigia medidas militares adequadas por parte do seu governo autónomo. Foi nesta dolorosa conjuntura que Prieto e o seu novo Estado-Maior decidiram, a 22 de Maio, assumir o risco do envio de meios aéreos sem escala, até Santander. Mas as contradições resultantes da existência de dois poderes em acção simultânea fazia perigar a eficácia das medidas militares tomadas. Sem dúvida nenhuma, esquadrilhas de caças de fabrico soviético começaram a chegar a Santander. Todavia, a 12 de Junho, outros seis aparelhos enviados por decisão soviética directa, caíram sobre o aeródromo de San Martin de Somorrostro.
A 31 de Maio, o governo central fez aterrar em Santander um avião em que seguia o general Gáemir Ulibarri, nomeado para o cargo de comandante de uma formação militar a constituir, o Corpo de Exército do País Vascongado, independente do Exército do Norte cujo comando Aguirre assumira. Indalécio Prieto, num telegrama ao presidente basco, esclarecia: «O general Gámir seguirá para Bilbao com o objectivo de assumir o comando único do exército de terra, da marinha e da aviação, de todas as forças que operam na Bizcaya. As estacionadas nas Astúrias e em Santander continuam sob o comando do general Llano de la Encomienda». Nesse mesmo dia, apesar da actividade intensa da ‘Legião Condor’ sobre a área de Bilbao, o governo do presidente Aguirre tentou pôr em prática alguns movimentos militares tendentes à defesa de La Granja, ameaçada por Mola que, continuamente, recebia reforços, mas que pereceria num desastre de avião, a 3 de Junho. Combateu-se na zona de Huesca entre 12 e 19. E o presidente, Manuel Azaña, escrevia no seu ‘diário’: «Temo que a cidade de Bilbao não se defenda quando o inimigo já está às suas portas». Com efeito, nesse mesmo 19 de Junho, as tropas franquistas de Fidel Dávila ocupavam a cidade. E, dramaticamente, começava o êxodo que encheria a estrada de Santander sob os ataques da ‘Legião Condor’enquanto os fuzilamentos começavam no interior de Bilbao. O ‘generalíssimo’, Franco, ocupava, agora, um enorme território que se estendia dos Pirinéus até à costa Sul na província de Granada. O fim da guerra nas regiões do Norte libertava-lhe qualquer coisa como 150 batalhões que empregaria nas campanhas seguintes. Com efeito, também Oviedo e Gijón cairiam para os exércitos franquistas de Aranda e Solchaga (21.10.1937) o que deixava nas mãos dos fascistas todo o carvão das minas das Astúrias que, tal como acontecera com a indústria pesada de Bilbao, os alemães queriam negociar.
A batalha de Badajoz
Da concentração de tropas que se verificava em Sevilha formaram-se duas colunas a dois batalhões; uma, com efectivos mouros, a outra com legionários. E avançaram, subindo no país. A esquerda, tinham-na coberta pela fronteira portuguesa; à direita, não existiam vias de comunicação que tropas governamentais pudessem utilizar. A ordem de operações previa a tomada de Mérida, em primeiro lugar, para que, depois, se realizasse uma junção com as tropas de Mola que já dominavam a província de Cáceres. Uma terceira coluna, do comando de Tella, viria juntar-se ao conjunto que tomou a designação de ‘coluna Madrid’ posto que todo o grupo, após Badajoz e sob o comando de Yague, tomaria a direcção da capital. Mérida, efectivamente, seria ocupada depois de violentos combates, a 10 e 11 de Agosto e, situando-se em plena estrada Badajoz-Madrid deixava a cidade raiana isolada.
Badajoz, todavia, estava defendida por alguns milhares de milicianos e por tropa regular sob o comando do coronel Puigdengolas quando as formações de Yague, ultrapassados os 60 quilómetros que a separavam de Mérida, chegaram aos arredores, a 13. Logo, numa manobra envolvente, o coronel Castejón ocupou os bairros situados fora das muralhas da cidade. A 14, depois de preparação de artilharia, o assalto começou. A coluna Castejón avançou pelo Sul. A de Asensio (tropas mouras) irrompeu de Norte, do lado da Alcazaba. Estas formações franquistas sofreram, inevitavelmente, pesadas baixas, mas acabaram por entrar na cidade usando granadas e forçando o combate à baioneta, homem a homem. Badajoz, seria dominada após encarniçados combates e a população só capitularia diante do exército de África quando na fúria de combates casa a casa lhe faltaram os meios de defesa.
A chacina dos vencidos
A vingança surgiu nos dias seguintes. Todos os prisioneiros foram fuzilados, incluindo aqueles que haviam tomado refúgio em Portugal (Puigdengolas, entre eles) e solicitado refúgio ao governo de Lisboa. Mas este, que ligara o seu destino ao dos franquistas, entregou-os, miseravelmente. O fumo resultante da incineração de cadáveres, no calor violento desse Verão, via-se, perfeitamente, do lado português da fronteira havendo ansiedade na capital do nosso país em travar conhecimento com as reportagens dos enviados especiais do Diário de Lisboa, Norberto Lopes, Mário Neves, Artur Portela, Félix Correia. O jornal era dirigido por Joaquim Manso e, apesar do ambiente que se vivia em Lisboa, conseguiu estabelecer a verdade quanto ao que se passava em Espanha. O povo português, assim, ganhou consciência do facto de que o governo de Salazar escrevera uma das mais negras e repugnantes páginas da História do nosso país.
Por razões de propaganda e prestígio, o governo republicano de Madrid decidira, em meados de Agosto, organizar o assalto final ao Alcázar de Toledo onde se acumulavam centenas de nacionalistas em condições desesperadas. Seria uma forma de resposta, ainda que inadequada, ao avanço contra Madrid que Franco, agora com quartel-general em Cáceres, ordenara. Numa linha de penetração que levava à capital de Espanha, as tropas que haviam dominado Badajoz e Mérida já se aproximavam de Talavera. A 23, deram-se os primeiros bombardeamentos aéreos tendo os aeródromos militares de Getafe e Cuatro Vientos sido atingidos. A 27 e 28, ’Junkers-52’, alemães, cruzavam o céu de Madrid e, naquele que seria considerado como o primeiro bombardeamento aéreo de uma cidade, despejavam as suas assassinas cargas de bombas. O avanço de Yague prosseguia. As colunas de Tella e Castejón à frente, a de Cabanillas Asensio,mais atrás. Neste grupo de tropas incorporava-se, já, uma nova coluna comandada por Delgado Serrano que vinha de Sevilha com abundantes reforços. Na tarde de 3 de Setembro, Castejón e Asensio, que haviam enfrentado a resistência de milicianos, entravam em Talavera,o que constituía um perigo imediato para Madrid.
O assalto ao Alcázar de Toledo seria comandado pelo coronel Burillo, que substituía o coronel Barceló. Mas, apesar de se ter incendiado a fachada principal usando gasolina, a célebre fortaleza resistiu. Franco, contra a opinião de Yague, decidiu que a libertação da guarnição e dos refugiados do Alcázar lhe daria dividendos políticos. Por isso, ordenou que se desse prioridade àquela operação adiando a de avanço sobre Madrid que passava para a responsabilidade do general Varela. Assim, a 26 de Setembro, as forças nacionalistas chegavam a Bargas e cortavam as ligações entre Madrid e a Andaluzia deixando Toledo isolada e ficando com as mãos livres para o assalto que se verificaria a 27. A cidade, propriamente dita, cairia, a 28, após sanguinários combates e violências de todas as categorias contra prisioneiros, republicanos, religiosos e civis.