Radim Gonda,
da União da Juventude Comunista da República Checa
«A solidariedade funciona!»
Entre os membros das delegações estrangeiras presentes no 8.º Congresso da JCP, encontrava-se Radim Gonda, membro do Departamento Internacional da União da Juventude Comunista da República Checa (KSM). O governo daquele país pretendia ilegalizar a KSM ainda no ano passado caso a organização não renunciasse ao seu programa político, à sua identidades comunista, aos seus objectivos e a sua fundamentação teórica baseada em Marx, Engels e Lénine. Meio ano depois, a KSM continua em actividade.
Ao Avante!, o comunista checo contou que a solidariedade que alcançaram no país e no estrangeiro assustou as autoridades, que não avançaram com a ilegalização.
Avante! – As autoridades da República Checa decidiram, no ano passado, ilegalizar a KSM, mas entretanto recuaram. Em que pé estão as coisas, neste momento?
Radim Gonda – No passado dia 1 de Março, uma delegação da KSM reuniu com o vice-ministro do Interior na qual fez saber do seu repúdio pela ameaça contra a sua legalidade. Na reunião foi-nos dito que o Ministério nos iria responder num prazo de duas ou três semanas. Mas essas duas ou três semanas passaram há já muito tempo e nenhuma resposta nos foi dada por parte do Ministério.
Em vossa opinião, a que se deve esse silêncio?
Estamos numa situação em que a solidariedade internacional foi tão forte que assustou as autoridades checas, que não se atreveram a avançar com a ilegalização da nossa organização. Por outro lado, as leis checas tornam possível que o Ministro do Interior anuncie a sua decisão no momento que ele entenda. Portanto, a presente situação é positiva porque a KSM é uma organização legal. Mas vivemos em constante perigo.
Mas temos continuado com a nossa actividade. Por exemplo, em Março promovemos, em Praga, uma manifestação contra a guerra. Estiveram envolvidos várias organizações e grupos, mas a KSM era o coração desta manifestação. A nossa presença nesta manifestação foi também uma resposta às autoridades checas de que «estamos aqui e queremos estar aqui!».
Dizias há pouco que a solidariedade impôs o recuo das autoridades checas quanto à vossa ilegalização. Que expressões assumiu essa solidariedade de que falas?
No interior da República Checa, recebemos o apoio do Partido Comunista da Boémia e Morávia e de um número considerável de associações cívicas, bem como de várias personalidades bastante activas da nossa vida cultural e social, nomeadamente alguns escritores e poetas de esquerda.
A nível internacional, tivemos enormes expressões de solidariedade, a começar por partidos políticos e organizações de juventude. Também contámos com o apoio de diferentes estruturas de vários países, nomeadamente de sindicatos. É preciso destacar também o apoio solidário da Federação Mundial da Juventude Democrática.
Em vários países, os nossos amigos e camaradas organizaram manifestações e protestos junto às embaixadas da República Checa nos respectivos países e também foram promovidas petições a favor da defesa da legalidade da KSM.
Foi a dimensão da solidariedade que assustou as autoridades?
Sim, o governo ficou amedrontado. Isso foi, aliás, visível durante a reunião que mantivemos com o vice-ministro do Interior. Ele implicitamente disse-o… Tomámos conhecimento de diversos relatórios enviados por numerosas embaixadas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros acerca do movimento de protesto nesses países contra a nossa ilegalização. Penso que esta é a melhor prova de que a solidariedade funciona.
Quero aproveitar para agradecer aos camaradas portugueses por terem convidado a KSM para o seu 8.º Congresso, o que também constitui uma grande inspiração para nós. O que vimos foi uma grande, muito activa e entusiasta organização de juventude comunista. E é uma grande inspiração para nós, para que continuemos a luta. Juntos.
Os comunistas estão a crescer
na República Checa
Disseste na tua intervenção no Congresso da JCP que esta é uma ameaça não apenas à KSM mas a todo o movimento comunista. Se é assim, porquê a KSM? Porquê na República Checa?
Penso que esta ameaça tem dois níveis, o nível nacional da República Checa e o nível internacional. Comecemos pelo primeiro. A KSM foi atacada devido à crescente influência dos comunistas – especialmente do Partido Comunista da Boémia e Morávia – no país. Nas últimas eleições parlamentares, por exemplo, os comunistas obtiveram 18,5 por cento dos votos. E nas eleições para o Parlamento Europeu, o PCBM obteve perto de 30 por cento. Os comunistas estão a aumentar as suas votações e a sua influência na sociedade checa. O relativo isolamento vivido no início dos anos 90 pelo Partido Comunista não se sente mais hoje, desapareceu.
E isso provocou reacções…
Este reforço da influência e da força do PCBM fez com que as forças da direita e do anticomunismo ficassem assustadas. E organizaram várias campanhas anticomunistas. Por exemplo, petições intituladas «Vamos abolir os comunistas» ou «Nós não falamos com comunistas» são alguns exemplos. Dois senadores checos chegaram mesmo a apresentar uma proposta que visava inclusivamente proibir o uso da palavra «comunista», atacando assim o próprio nome do Partido Comunista da Boémia e Morávia. Mas este projecto foi travado na Câmara dos Deputados. Têm voltado a tentar de várias formas, uma e outra vez…
Mais recentemente, houve uma campanha intitulada «T-shirts contra o comunismo», que consistia de um conjunto de camisolas com vários slogans anticomunistas. Uma delas dizia mesmo «Mata um comunista para fortalecer a paz». E há outras do género… Estas camisolas eram também vendidas no Centro Cultural Checo, em Viena, na Áustria. Este Centro está sob a alçada do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Checa. Ou seja, estas campanhas têm o aval e o apoio activo das autoridades do país.
E houve também agressões, não é verdade?
Sim. Há umas semanas atrás, o vice-presidente do PCBM foi violentamente atacado, em Praga, por um grupo de anticomunistas. Ficou ferido e teve que ser operado a um dos olhos. Ainda mais recentemente, há poucos dias, na cidade de Brno, na Morávia, duas camaradas (uma do partido e a vice-presidente da KSM) participavam numa acção de campanha eleitoral. Estavam a conversar com as pessoas na rua e a distribuir panfletos. Durante esta acção de campanha, o seu carro foi baleado. As eleições parlamentares vão realizar-se em breve (a 4 de Junho) e isso pode explicar o crescimento da intensidade dos ataques contra os comunistas.
E a nível internacional, como se expressam estas ameaças?
Na Europa procura-se institucionalizar o anticomunismo. Esta tentativa ficou muito visível no projecto de resolução anticomunista apresentada na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Há muitos países da União Europeia onde os partidos comunistas são proibidos, como por exemplo nos estados bálticos. E na Hungria é proibido usar publicamente símbolos comunistas. Na Bulgária, um partido comunista tentou registar-se, mas as autoridades e os tribunais recusaram registar este partido. Apesar do recurso para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que considerou errada a decisão das autoridades e dos tribunais búlgaros, até agora, esse partido ainda não foi registado. Na Roménia, há leis que proíbem a difusão de propaganda comunista.
Nota-se a existência de tendências para a aprovação de leis e regulamentos que abram caminho à institucionalização de medidas anticomunistas em países concretos. É um grande perigo ao qual o movimento comunista tem que estar atento e dar combate. E a derrota da resolução anticomunista demonstra que, unidos, os partidos comunistas têm força.
Capitalismo ao ataque
A restauração do capitalismo nos países de Leste tem sido fortíssima. No concreto, como está a ser na República Checa? E em que frentes a KSM está a combater?
Recentemente, dinamizámos a actividade do movimento cívico chamado «SOS Estudante», que a KSM tinha criado há alguns anos. E fizemo-lo para organizar os estudantes contra a reforma do sistema de residências estudantis. Durante este ano, houve a chamada «reforma» deste sistema, que pretende a sua comercialização. Penso que aqui em Portugal têm problemas parecidos… Depois, há ataques ao que resta do Estado «social» conquistado pelo movimento dos trabalhadores no século passado. Na República Checa, as forças da direita querem implementar taxas para se frequentar o Ensino Superior, e a KSM fez tudo para mobilizar os estudantes contra isto. Foi por isso que criámos o «SOS Estudantes», nos anos 90.
Para além da Educação, há algum outro sector ameaçado?
Sim. Outra área em perigo é a saúde. O mais forte partido de direita – o chamado Partido Cívico Democrático – quer introduzir pagamentos mais elevados nos cuidados de saúde.
Têm que pagar para ir ao médico…
Mais ou menos. Ainda não está muito generalizada esta tendência. Mas os partidos mais à direita estão a pressionar para que isto aconteça. E o problema é que as sondagens indicam que este partido de direita vencerá as próximas eleições. Portanto há o perigo de que eles formem governo e implementem o seu programa, incluindo estas medidas relativas à saúde. Querem também introduzir o que chamam de «imposto igual», que significa que os ricos pagarão a mesma percentagem de impostos do que os pobres. E isto num momento em que sobem os preços de bens e serviços essenciais, como alimentação, rendas de casa, água, etc.
E da estrutura económica do socialismo, resta alguma coisa?
Foi a primeira coisa a ser destruída. Praticamente todas as empresas industriais que pertenciam ao Estado foram privatizadas. As que faltam estão na calha para serem vendidas. Brevemente nada restará.
O Partido Social Democrata Checo, no poder, privatizou recentemente a empresa de telecomunicações, que é uma empresa muito rentável. As companhias ocidentais que a compraram vão recuperar o investimento num espaço de sete anos e daí para a frente será só lucrar, e muito. O Estado acabou mesmo por vender os sectores chave da Economia.
Na República Checa, os comunistas mantiveram o seu Partido
Prosseguir a luta pelo socialismo
Criada no princípio do anos 90, no calor do derrubamento do socialismo e da divisão em dois países da antiga Checoslováquia, a União da Juventude Comunista da República Checa (KSM) teve um início conturbado. Conta Radim Gonda que nessa altura eram muito intensas as lutas no interior do Partido e também da KSM, entre os comunistas e os que defendiam uma via social-democrata.
Ao contrário do que aconteceu noutros países da região, na República Checa os comunistas obtiveram a maioria, o que levou ao abandono do Partido Comunista da Boémia e Morávia do grupo derrotado. Muitos dos elementos deste grupos fundaram pequenos agrupamentos social-democratas, que tiveram vida curta, pois acabariam por se juntar ao Partido Social Democrata Checo. Este partido, ao contrário de outros ex-países socialistas, não resulta de uma traição do Partido Comunista.
O PSD Checo, conta Radim Gonda, não é, como outros, um partido ex-comunista, antes foi criado a partir de dois eixos: o dos chamados «exilados», que esteve estabelecido na Europa Ocidental durante o socialismo e por social-democratas internos. Na República Checa, não houve uma traição em alta escala.
Mas na KSM, as coisas foram diferentes. E as lutas internas levaram à tomada da organização por uma facção social-democrata. Rapidamente levaram a cabo a descaracterização da organização comunista, transformando-a em «Juventude de Esquerda». O passo a seguir seria a sua destruição.
Inconformados, os jovens comunistas abraçaram a tarefa de refundar o movimento de jovens comunistas. Segundo Radim Gonda, fizeram-no a «partir do zero» e a KSM regressaria, ainda na primeira metade da década passada.
Avante! – As autoridades da República Checa decidiram, no ano passado, ilegalizar a KSM, mas entretanto recuaram. Em que pé estão as coisas, neste momento?
Radim Gonda – No passado dia 1 de Março, uma delegação da KSM reuniu com o vice-ministro do Interior na qual fez saber do seu repúdio pela ameaça contra a sua legalidade. Na reunião foi-nos dito que o Ministério nos iria responder num prazo de duas ou três semanas. Mas essas duas ou três semanas passaram há já muito tempo e nenhuma resposta nos foi dada por parte do Ministério.
Em vossa opinião, a que se deve esse silêncio?
Estamos numa situação em que a solidariedade internacional foi tão forte que assustou as autoridades checas, que não se atreveram a avançar com a ilegalização da nossa organização. Por outro lado, as leis checas tornam possível que o Ministro do Interior anuncie a sua decisão no momento que ele entenda. Portanto, a presente situação é positiva porque a KSM é uma organização legal. Mas vivemos em constante perigo.
Mas temos continuado com a nossa actividade. Por exemplo, em Março promovemos, em Praga, uma manifestação contra a guerra. Estiveram envolvidos várias organizações e grupos, mas a KSM era o coração desta manifestação. A nossa presença nesta manifestação foi também uma resposta às autoridades checas de que «estamos aqui e queremos estar aqui!».
Dizias há pouco que a solidariedade impôs o recuo das autoridades checas quanto à vossa ilegalização. Que expressões assumiu essa solidariedade de que falas?
No interior da República Checa, recebemos o apoio do Partido Comunista da Boémia e Morávia e de um número considerável de associações cívicas, bem como de várias personalidades bastante activas da nossa vida cultural e social, nomeadamente alguns escritores e poetas de esquerda.
A nível internacional, tivemos enormes expressões de solidariedade, a começar por partidos políticos e organizações de juventude. Também contámos com o apoio de diferentes estruturas de vários países, nomeadamente de sindicatos. É preciso destacar também o apoio solidário da Federação Mundial da Juventude Democrática.
Em vários países, os nossos amigos e camaradas organizaram manifestações e protestos junto às embaixadas da República Checa nos respectivos países e também foram promovidas petições a favor da defesa da legalidade da KSM.
Foi a dimensão da solidariedade que assustou as autoridades?
Sim, o governo ficou amedrontado. Isso foi, aliás, visível durante a reunião que mantivemos com o vice-ministro do Interior. Ele implicitamente disse-o… Tomámos conhecimento de diversos relatórios enviados por numerosas embaixadas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros acerca do movimento de protesto nesses países contra a nossa ilegalização. Penso que esta é a melhor prova de que a solidariedade funciona.
Quero aproveitar para agradecer aos camaradas portugueses por terem convidado a KSM para o seu 8.º Congresso, o que também constitui uma grande inspiração para nós. O que vimos foi uma grande, muito activa e entusiasta organização de juventude comunista. E é uma grande inspiração para nós, para que continuemos a luta. Juntos.
Os comunistas estão a crescer
na República Checa
Disseste na tua intervenção no Congresso da JCP que esta é uma ameaça não apenas à KSM mas a todo o movimento comunista. Se é assim, porquê a KSM? Porquê na República Checa?
Penso que esta ameaça tem dois níveis, o nível nacional da República Checa e o nível internacional. Comecemos pelo primeiro. A KSM foi atacada devido à crescente influência dos comunistas – especialmente do Partido Comunista da Boémia e Morávia – no país. Nas últimas eleições parlamentares, por exemplo, os comunistas obtiveram 18,5 por cento dos votos. E nas eleições para o Parlamento Europeu, o PCBM obteve perto de 30 por cento. Os comunistas estão a aumentar as suas votações e a sua influência na sociedade checa. O relativo isolamento vivido no início dos anos 90 pelo Partido Comunista não se sente mais hoje, desapareceu.
E isso provocou reacções…
Este reforço da influência e da força do PCBM fez com que as forças da direita e do anticomunismo ficassem assustadas. E organizaram várias campanhas anticomunistas. Por exemplo, petições intituladas «Vamos abolir os comunistas» ou «Nós não falamos com comunistas» são alguns exemplos. Dois senadores checos chegaram mesmo a apresentar uma proposta que visava inclusivamente proibir o uso da palavra «comunista», atacando assim o próprio nome do Partido Comunista da Boémia e Morávia. Mas este projecto foi travado na Câmara dos Deputados. Têm voltado a tentar de várias formas, uma e outra vez…
Mais recentemente, houve uma campanha intitulada «T-shirts contra o comunismo», que consistia de um conjunto de camisolas com vários slogans anticomunistas. Uma delas dizia mesmo «Mata um comunista para fortalecer a paz». E há outras do género… Estas camisolas eram também vendidas no Centro Cultural Checo, em Viena, na Áustria. Este Centro está sob a alçada do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Checa. Ou seja, estas campanhas têm o aval e o apoio activo das autoridades do país.
E houve também agressões, não é verdade?
Sim. Há umas semanas atrás, o vice-presidente do PCBM foi violentamente atacado, em Praga, por um grupo de anticomunistas. Ficou ferido e teve que ser operado a um dos olhos. Ainda mais recentemente, há poucos dias, na cidade de Brno, na Morávia, duas camaradas (uma do partido e a vice-presidente da KSM) participavam numa acção de campanha eleitoral. Estavam a conversar com as pessoas na rua e a distribuir panfletos. Durante esta acção de campanha, o seu carro foi baleado. As eleições parlamentares vão realizar-se em breve (a 4 de Junho) e isso pode explicar o crescimento da intensidade dos ataques contra os comunistas.
E a nível internacional, como se expressam estas ameaças?
Na Europa procura-se institucionalizar o anticomunismo. Esta tentativa ficou muito visível no projecto de resolução anticomunista apresentada na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Há muitos países da União Europeia onde os partidos comunistas são proibidos, como por exemplo nos estados bálticos. E na Hungria é proibido usar publicamente símbolos comunistas. Na Bulgária, um partido comunista tentou registar-se, mas as autoridades e os tribunais recusaram registar este partido. Apesar do recurso para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, que considerou errada a decisão das autoridades e dos tribunais búlgaros, até agora, esse partido ainda não foi registado. Na Roménia, há leis que proíbem a difusão de propaganda comunista.
Nota-se a existência de tendências para a aprovação de leis e regulamentos que abram caminho à institucionalização de medidas anticomunistas em países concretos. É um grande perigo ao qual o movimento comunista tem que estar atento e dar combate. E a derrota da resolução anticomunista demonstra que, unidos, os partidos comunistas têm força.
Capitalismo ao ataque
A restauração do capitalismo nos países de Leste tem sido fortíssima. No concreto, como está a ser na República Checa? E em que frentes a KSM está a combater?
Recentemente, dinamizámos a actividade do movimento cívico chamado «SOS Estudante», que a KSM tinha criado há alguns anos. E fizemo-lo para organizar os estudantes contra a reforma do sistema de residências estudantis. Durante este ano, houve a chamada «reforma» deste sistema, que pretende a sua comercialização. Penso que aqui em Portugal têm problemas parecidos… Depois, há ataques ao que resta do Estado «social» conquistado pelo movimento dos trabalhadores no século passado. Na República Checa, as forças da direita querem implementar taxas para se frequentar o Ensino Superior, e a KSM fez tudo para mobilizar os estudantes contra isto. Foi por isso que criámos o «SOS Estudantes», nos anos 90.
Para além da Educação, há algum outro sector ameaçado?
Sim. Outra área em perigo é a saúde. O mais forte partido de direita – o chamado Partido Cívico Democrático – quer introduzir pagamentos mais elevados nos cuidados de saúde.
Têm que pagar para ir ao médico…
Mais ou menos. Ainda não está muito generalizada esta tendência. Mas os partidos mais à direita estão a pressionar para que isto aconteça. E o problema é que as sondagens indicam que este partido de direita vencerá as próximas eleições. Portanto há o perigo de que eles formem governo e implementem o seu programa, incluindo estas medidas relativas à saúde. Querem também introduzir o que chamam de «imposto igual», que significa que os ricos pagarão a mesma percentagem de impostos do que os pobres. E isto num momento em que sobem os preços de bens e serviços essenciais, como alimentação, rendas de casa, água, etc.
E da estrutura económica do socialismo, resta alguma coisa?
Foi a primeira coisa a ser destruída. Praticamente todas as empresas industriais que pertenciam ao Estado foram privatizadas. As que faltam estão na calha para serem vendidas. Brevemente nada restará.
O Partido Social Democrata Checo, no poder, privatizou recentemente a empresa de telecomunicações, que é uma empresa muito rentável. As companhias ocidentais que a compraram vão recuperar o investimento num espaço de sete anos e daí para a frente será só lucrar, e muito. O Estado acabou mesmo por vender os sectores chave da Economia.
Na República Checa, os comunistas mantiveram o seu Partido
Prosseguir a luta pelo socialismo
Criada no princípio do anos 90, no calor do derrubamento do socialismo e da divisão em dois países da antiga Checoslováquia, a União da Juventude Comunista da República Checa (KSM) teve um início conturbado. Conta Radim Gonda que nessa altura eram muito intensas as lutas no interior do Partido e também da KSM, entre os comunistas e os que defendiam uma via social-democrata.
Ao contrário do que aconteceu noutros países da região, na República Checa os comunistas obtiveram a maioria, o que levou ao abandono do Partido Comunista da Boémia e Morávia do grupo derrotado. Muitos dos elementos deste grupos fundaram pequenos agrupamentos social-democratas, que tiveram vida curta, pois acabariam por se juntar ao Partido Social Democrata Checo. Este partido, ao contrário de outros ex-países socialistas, não resulta de uma traição do Partido Comunista.
O PSD Checo, conta Radim Gonda, não é, como outros, um partido ex-comunista, antes foi criado a partir de dois eixos: o dos chamados «exilados», que esteve estabelecido na Europa Ocidental durante o socialismo e por social-democratas internos. Na República Checa, não houve uma traição em alta escala.
Mas na KSM, as coisas foram diferentes. E as lutas internas levaram à tomada da organização por uma facção social-democrata. Rapidamente levaram a cabo a descaracterização da organização comunista, transformando-a em «Juventude de Esquerda». O passo a seguir seria a sua destruição.
Inconformados, os jovens comunistas abraçaram a tarefa de refundar o movimento de jovens comunistas. Segundo Radim Gonda, fizeram-no a «partir do zero» e a KSM regressaria, ainda na primeira metade da década passada.