Fluxos e refluxos das marés

Jorge Messias
Nas fases agudas de crise social, em tempos de refluxo revolucionário, há sempre um sentimento de impotência dos povos, aproveitado e estimulado pelos teóricos do capitalismo. Sente-se actualmente esse clima. Os modelos sociais fraquejaram ou foram traídos. A organização socialista do Estado quase se apagou no mapa político. Lavra a confusão ideológica nalguns partidos comunistas que alteraram as siglas e as formas de acção. Na área reformista, as formações socialistas conservam o nome mas não se distanciam dos neoliberais e resvalam para posições equívocas, nas fronteiras do puro fascismo. Algumas organizações laborais não representam os trabalhadores, mas sim os interesses do capital. Existem autarquias que são instrumentos passivos nas mãos do poder central burguês, da banca e dos grupos económicos. Generalizou-se o clientelismo, o oportunismo e o tráfico de influências. Esbateram-se os valores culturais das civilizações e, na «aldeia global», Democracia é expressão cada vez mais vazia de sentido.
E há sintomas eticamente espantosos. É o político treinado para mentir que engana friamente, olhos postos nos olhos daqueles que vai trair. O papa e os cardeais, bons conhecedores das linhas com que se cose o crime, iludem as multidões e acenam com uma fé que eles próprios nunca tiveram ou foram perdendo pelo caminho. Os saqueadores do oiro são mundialmente celebrados como benfeitores da humanidade. A chamada Justiça, que se diz cega mas realmente vê muito bem, prostitui-se desde que a paga compense. A Ética serve para encobrir gigantescas falcatruas do grande capital. As guerras de agressão declaram-se humanitárias. A tirania é acto de coragem. As imagens servem para mostrar o sofrimento humano e a morte diária e anónima de milhões de crianças - à fome, à sede, minadas por doenças terríveis ou pelas balas assassinas das armas de guerra - mas nada mais se faz. Os critérios éticos do Mal apenas se aplicam aos mais fracos quando estes, como último recurso, tentam fazer o que impunemente também fazem os seus opressores.
Tudo isto são traços do mundo em que vivemos. Um mundo verdadeiramente cão.

O «ópio do povo» e o povo

Importa dizer que a Igreja Católica tem uma presença central em todo este quadro dantesco de mentiras e de crimes. O saque mundial é conduzido por um modelo de organização capitalista que ela inspirou e incluiu nas suas próprias estratégias. Se os esmagadores interesses dos grandes financeiros se organizam em lobbies, holdings e sub-holdings, clusters, trusts e cartéis, a igreja moderna da «nova evangelização» não recusou esse figurino. Tem, pelo contrário, voz determinante nas decisões tomadas pelas administrações dos grupos da economia laica ou profana neocapitalista, através da intervenção poderosa dos bons católicos leigos, accionistas e administradores das empresas. Gere directamente as instituições da economia da igreja, formada por capitais eclesiásticos cotados nas bolsas, e impera na banca, no comércio, nos serviços e na indústria. Recolhe dividendos fabulosos cujas origens, como a qualquer outro banqueiro, não lhe interessa conhecer. Na área social, onde historicamente domina, a igreja controla, através da posse ou da parceria, extensos sectores que deveria competir ao Estado dirigir, como os da saúde, educação e ensino, segurança e assistência social, apoio à juventude, infância e terceira idade, família, comunicação ou tempos livres. Tem uma profunda penetração no mundo dos clubes desportivos, nos movimentos juvenis e nos meios rurais. Dirige e coordena milhares de instituições privadas de acção social (misericórdias, IPSS, movimentos cívicos e de desenvolvimento local, etc.) - não lucrativas, lucrativas ou mistas. A hierarquia católica vai agora tentar alinhar todo este enorme poderio com as modernas tecnologias, especializando as instituições caritativas e fazendo-as trabalhar em rede, em parceria com o Estado neoliberal. Este, ocultamente, não cessa de canalizar para a igreja força, poder e dinheiro.
A hierarquia é na realidade fabulosamente rica. Assim como também é co-responsável pelas políticas de miséria que se abatem sobre nós. Mas não esqueçamos, porém, que o poder do dinheiro, da tirania ou o resplendor das tiaras nunca resolveu os problemas reais nem conseguiu emudecer a força da razão e a sede do progresso e liberdade. Os pesadelos que vivemos dissipar-se-ão se os enfrentarmos, unidos. É pela acção que o povo inverterá as políticas que levam à destruição dos seus valores mais queridos. Cerrando fileiras, recusando individualismos e ajudando a edificar as bases do socialismo. O capitalismo entrou em parafuso. Há força que chegue para vencermos!...


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