A Guerra dos Dois Mundos

Jorge Messias
Se o povo pobre tem as suas lutas (contra a fome e o desemprego, em defesa dos seus direitos, pela construção de uma frente comum), também os ricos têm as suas (domínio dos mercados, esmagamento da concorrência, crescente fusão de capitais, expansão). Desta cisão resulta, na fase actual, a noção de que os ricos serão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Mas também pode resultar numa consciência de revolta das classes exploradas contra as classes opressoras. Serão os desenvolvimentos nestes quadros que irão ditar, no futuro, a organização das sociedades humanas. Por enquanto, há dois mundos que apenas se medem mutuamente.
As próprias crises capitalistas espelham este antagonismo. Os sacrifícios dos custos são invariavelmente exigidos aos pobres e os lucros repartidos pelos ricos. A par do «apertar do cinto», brotam do nada fortunas fabulosas. As OPAS são a os anéis dos novos senhores. O aumento do custo de vida, o desemprego, a negação dos direitos, o abandono, correspondem ao ferrete com que, em nome da «crise», o poder marca os trabalhadores, os pobres e os humildes. São as suas grilhetas. Longe de ser recatada, a soberba da classe senhorial exibe-se permanentemente. Tal foi o anúncio agora feito de que o Governo socialista irá acolher, em Lisboa, em Setembro próximo, uma assembleia magna das administrações das 300 maiores multinacionais capitalistas. Isto acontece no país europeu mais atrasado e com o mais profundo fosso das nações da Europa entre pobres e ricos. Ainda que apenas fosse neste sentido, e o simples anúncio do congresso representaria um escândalo e uma provocação deliberada.
Mas há mais, como se lê nos órgãos de comunicação. Sete grupos financeiros portugueses entraram já nos mais conceituados rankings bolsistas. As suas imagens de marca lideram as OPAS milionárias. E se Portugal é dos países que geram menos riqueza, os investimentos no estrangeiro parecem não ter fim. Giram grandes capitais, as holdings acumulam lucros fabulosos e os rendimentos do seus executivos subiram em média, num só ano, 43%. O Espírito Santo não sabe o que fazer aos lucros e compra bancos espanhóis. Os espanhóis da Prisa e da Caixanova reforçam posições na Média Capital. A SONAE aumenta em 3 milhões o seu capital social. A ESCOM, o BPI, a CGD e a CRUZ VERMELHA, investem 82 milhões num hospital privado, em Luanda. Só em operações de reforço do capital, o BCP arrecadou 3,4 mil milhões de euros e o BES 1,575 milhões. A SAG, dos Pereira Coutinho, fechou o ano com lucros líquidos de 33,5 milhões. Os ricos somam e seguem...

A badalada «opção pelos pobres»

A contrapartida desta esmagadora tirania do dinheiro revela-se no aumento do desemprego, do custo de vida, dos impostos e das dívidas das famílias; no encarecimento dos transportes, da saúde e do crédito ; no agravamento dos défices sociais e no alargamento da distância que nos separa dos níveis europeus. Sócrates não esconde que quer fechar escolas, maternidades, hospitais e serviços de urgência, institutos públicos, esquadras, quartéis, etc., etc. Tudo para fazer dinheiro e desarticular o serviço público. Travar o avanço da regionalização, privatizar e despedir, são as grandes metas deste Governo socialista.
Justifica-se que indaguemos como reage a hierarquia da igreja portuguesa a este cenário socialmente catastrófico. Surpreendentemente, não reage ! Procure-se por toda a parte e não se encontrará uma denúncia responsável da hierarquia à miséria material e moral que corrói e alastra neste país, a todos os níveis, incluindo o Estado, o público e o privado e corrompendo a Igreja. Por razões óbvias. Os bispos têm combinações e pactos com muitos dos interesses envolvidos estado de degradação moral em que nos atolamos. Ambiciona voltar à sua idade de oiro e reconquistar o ensino, a segurança social, os órgãos de comunicação, os movimentos juvenis, os jardins de infância, os circuitos culturais, a sociedade civil. Vive obcecada pelo poder. É este o sentido da notícia que vamos evocar. A revelação veio estampada nos jornais da passada semana.
Como se sabe, o grande «cavalo de batalha» do actual Governo é a diminuição do défice público cujo montante não cessa de agravar-se. Como o poder instalado poucos ou nenhuns escrúpulos tem, as Finanças imaginaram um novo estratagema para atenuar o défice : lançaram a crédito da Administração Pública os lucros das lotarias cujo monopólio pertence, como é sabido, à Santa Casa da Misericórdia, uma IPSS sem fins lucrativos ligada à Pastoral Social e Caritativa da Igreja Católica. Nem mesmo assim os bispos se deram por achados. Nestas questões, segreda-lhes a tradição, o mais prudente é fingirem que nada viram.


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