Falar dos velhos

Correia da Fonseca
A emissão do «Prós e Contras» trazia o título bonito mas não exageradamente esclarecedor de «A Cidade Silenciosa». Uma peça introdutória recordou alguns dados que são aliás conhecidos mas também apressadamente esquecidos pela generalidade das gentes, sobretudo por quem menos os deveria esquecer. Depois, Fátima Campos Ferreira passou à interpelação dos convidados em palco, primeiro o neurologista Alexandre Castro Caldas, depois Raul Solnado. Tinham decorrido poucos minutos quando Alice Vieira iniciou a sua participação dizendo qualquer coisa de fundamental: que a marginalização de que tanto se fala é a marginalização dos pobres e que nunca vira um milionário velho a ser marginalizado. Era colocar a questão no terreno onde poderia ser feita uma abordagem séria e lúcida, que é o desta sociedade que alguns constroem sobre os escombros dos outros, designadamente dos velhos que não são ricos. Disso mesmo falou ainda, logo a seguir e com suficiente clareza, o médico fisiatra Pedro Soares Branco quando disse que não é possível falar do problema da velhice sem falar do problema da sociedade, acrescentando uma também clara responsabilidade dos media que, apostando «no novo e no descartável», contribuem de forma decisiva para a confortável anestesia colectiva perante a tragédia da velhice por vários modos abandonada. Parecia, então, que o programa poderia encaminhar-se para aquilo que talvez pudesse designar-se por «apuramento de responsabilidades», fase preambular do apontar de soluções. Porém, foi o momento em que Fátima Campos Ferreira passou a entrevistar duas pessoas que se sentavam na primeira fila da plateia, o médico Manuel Ferreira e Boanova do Anjo. Do que eles contaram das suas experiências pessoais pareceu poder emergir a esperança de que as coisas talvez se solucionem, ou significativamente atenuem, se se multiplicarem iniciativas generosas e avulsas. De então em diante, a conversa deslizou para temas um pouco laterais, se bem que importantes, tanto e de tal modo que para o final do programa chegou a falar-se da questão da eutanásia, assunto por agora tabu, se não amaldiçoado ou atirado para um informulado índex por quem manda na grande comunicação social e influencia a que não é assim tão grande. De qualquer modo, a deriva que a conversa sofreu teve por consequência afastá-la do encontro com a responsabilidade da sociedade que produz doses maciças de velhos atirados para a vala comum do desprezo e da pobreza. E, naturalmente, de quem a quer assim, à tal sociedade, porque assim lhe serve bem.

A derivação bem comportada

A simpática irrelevância com que a conversa foi fluindo viu-se interrompida, contudo, por um excelente «sketch» do Gato Fedorento, talvez o mais notável alguma vez produzido pelo grupo, decerto um dos mais notáveis. Alguns dos presentes chamaram-lhe «violento», com isso sublinhando a excelência da sua capacidade de impacto; mas é claro que a violência não estava no «sketch» mas sim na realidade que ele denunciava em traços caricaturais, sim, mas não desajustados. Seria talvez a oportunidade para que o programa retomasse um caminho aberto e directo, o que chegou a aflorar quando Solnado falou em «registo político» e, mais tarde, quando a apresentadora lhe perguntou o que acontecera à sociedade ocidental para que resvalasse para um tão criminosos desprezo pelos velhos (expressão esta que é minha, não dela), respondeu que acontecera «a televisão a cores» como grande responsável pela gula consumista e pelo «dinheirismo» que lhe está acoplado. Também quando Alice Vieira, embora num outro registo, evocou as velhas mulheres do Chaço, na Argentina, que conhecera e cuja intervenção social a encantara. Mas Fátima Campos Ferreira já introduzira o que é de facto a derivação do costume para uma alternativa bem comportada: o apelo implícito ou explícito à solidariedade, como se a solidariedade nascesse assim, espontaneamente ou quase, sem ser semeada. Melhor: sem que o Estado, quem o dirige, não implante as estruturas, legislativas e outras, que consubstanciem a solidariedade já não como um bom sentimento mas sim como justiça social cuja consecução é o seu primeiro dever. Que é o verdadeiro e profundo sentido do contrato social de que emerge a própria legitimidade do próprio Estado. Mas entende-se que o programa conduzido por Fátima Campos Ferreira não tenha enveredado por tão ásperos caminhos. Afinal, como lembrou Alice, não há milionários marginalizados. E, sendo assim, já se vê que não estão as coisas tão mal como poderiam estar se esta «ordem social» fosse radicalmente alterada.


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