A parábola Berlusconi

Correia da Fonseca
De todos os fragmentos da campanha eleitoral italiana que a televisão me trouxe a casa, o que me pareceu mais interessante, por esclarecedor, vi-o no TV5, o canal francês que a TV Cabo ainda me permite olhar depois de ter radicalmente “emagrecido” a ementa com que em tempos me convenceu a ser seu subscritor. O tal fragmento mostrou-nos Il Cavalieri, fórmula italiana que tem sido usada para designar Berlusconi e que, suponho, corresponde mais ou menos à expressão portuguesa «cavalheiro da indústria», a pregar com grande veemência em favor da cada vez menor intervenção do Estado na vida social. Por sinal, achei um pouco paradoxal, até porventura ligeiramente patusco, que a mais alta figura do Estado italiano, candidata à renovação do mandato, advogasse com tamanha convicção e furor a redução do mesmíssimo Estado, tanto quanto possível, à sua expressão mais simples. Mas esse sentimento há-de ter sido produzido pelo meu entendimento, velho de muitos anos e cada vez mais reforçado, de que o Estado é de todos os cidadãos, ou assim deve ser, e que o seu desmantelamento só favorece os mais fortes, que desse modo ficam mais à vontade para saltar sobre o que ainda sobra aos mais fracos, designadamente em matéria de direitos que são assim como que a sua última trincheira, e reduzi-los a cisco. Porém, a TV5 não se limitou a fornecer imagens e palavras de Berlusconi em discurso muitíssimo directo, acrescentou também informações prestadas pelo seu correspondente em Roma. E o correspondente foi explicando que, quanto a desregulamentações legislativas, que são a forma de reduzir o Estado e de liquidar a sua capacidade de ordenação e controle, já o ilustre Berlusconi fizera muitas e grandes coisas durante os anos em que estava na Presidência da República. Tantas e tais que conseguira anular todas ou quase todas as leis que, se assim não fosse, permitiriam que fosse acusado, julgado, condenado, destituído e provavelmente preso. Sendo assim, percebe-se claramente que Berlusconi tinha os mais fortes motivos para ser medularmente contra o Estado, esse intrometido que lhe não permitia viver descansado, e para prosseguir a sua pregação contra ele, decerto porque ainda algumas vulnerabilidades próprias se mantêm na área regulamentadora actual do Estado italiano.

Uma outra cadeia

Ora, como muitas vezes diria a minha avó, nas costas dos outros descobre a gente o nosso espelho. No caso, nas diatribes de Berlusconi contra o Estado e nos motivos que tão intensamente o inspiram talvez possamos ver, guardadas as devidas proporções e considerando que Berlusconi é uma espécie de caso-limite, alguns traços do pensamento político que está na moda e que os sempre inocentíssimos media propalam aos quatro ventos e sem a mínima preocupação de preservarem o «contraditório» noutros momentos agitado como sagrado, e que reivindica a drástica redução do Estado, aliás sempre pelos vistos insuficiente. Não direi, nem de longe, que quem anda por aí a explicar que continua a haver «Estado a mais» o faz para escapar à acção da Justiça por malfeitorias de qualquer ordem. De modo nenhum. Mas, em verdade, parece-me que tamanha sanha contra o Estado nas mais diversas áreas não é apenas resultado do incontido desejo de praticar o Bem. É verdade que muito se repete, embora nem sempre com esta linearidade, que quanto menos Estado houver, designadamente na área do complexo empresarial português, mais se acrescenta a riqueza nacional. Mas, por outro lado, a redução das regulamentações legais, isto é, da tal intervenção do Estado como legislador, mesmo quando apenas se trata do processo produtivo, redunda sempre, como está suficientemente visto, no aumento dos lares em que a miséria se infiltra, embora porventura com efeitos de sinal contrário em mansões onde a designação de «lares» parece palavra acanhada. Porque, já se sabe, tudo tem a ver com tudo. Admito que na Itália berlusconiana a desejada amputação do Estado tenha a ver com casos de cadeia, mas por cá, felizmente, não creio que as coisas sejam tão extremas. Há, porém uma outra cadeia: a cadeia da pobreza que pode estender-se velozmente de Norte a Sul se, precisamente, ao Estado for sendo retirada a capacidade de defender os mais fracos contra a cavalgada dos mais fortes. Em verdade, quase se poderia dizer que cada país tem os seus Berlusconi, embora não se trate de irmãos gémeos entre si mas apenas de primos talvez até afastados, talvez nem tanto. De qualquer modo, o certo é que as sábias palavras de Berlusconi funcionaram comigo como uma parábola que me fez pensar e descobrir coisas. Foi simpático. Fico em dívida.


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