O desporto e os intelectuais

Haverá ainda preconceitos?

José Augusto
Sendo o desporto entendido, desde há muito, como parte integrante da vida social e cultural, não se entende a escassez de obras artísticas nele inspiradas, seja no campo da literatura, da pintura, da estatuária ou da cinematografia. Quando me refiro aqui a literatura, claro está que deixo de fora as obras de natureza técnica, essas abundam, ou as biografias, de cariz mais ou menos comercial, que passaram a abundar. Abra-se uma excepção à fotografia, hoje considerada arte em pé de igualdade com as demais, que com invulgar perspicácia tem sabido, desde que apareceu, conjugar aberturas e velocidades para perpetuar instantâneos que enriquecem o imensurável pecúlio do Belo. E também há aqui uma curiosidade: a maior parte dos criadores da fotografia inspirada no desporto, não se tomam nem por intelectuais, nem por artistas, consideram apenas que fazem o seu trabalho.
Até há escassas décadas, como se disse, no complexo mundo dos intelectuais, por razões que estarão por estudar, não cabia o desporto, muito menos o futebol. Ainda não há muitos anos, aqueles que o eram ou julgavam que o eram, não liam em público jornais desportivos, que levavam para casa escondidos entre outra papelada imprensa.
Claro que, com a Revolução de Abril, também neste sentido tudo mudou, o que não quer dizer que com essa mudança profunda tenha crescido a criação artística a que nos vimos referindo.
Se pensarmos bem, este divórcio apresenta contornos muito estranhos, já que o desporto, nomeadamente o futebol, encerra muitos dos condimentos buscados pela realização artística: beleza, emoção, imprevisibilidade, competição, nobreza, covardia e, também quase desde sempre, corrupção.
Paradoxalmente, na Antiguidade, no século IX a. C., Homero narrava as lutas organizadas por Aquiles em honra de Pátroclo, os míticos irmãos de armas no cerco de Tróia; mais tarde, em cada Jogos Olímpicos era designado um poeta para cantar os vencedores das distintas provas. Sabe-se que o maior desses verdadeiros cronistas desportivos desse tempo foi o lírico Píndaro. Entretanto, já na Idade Média, conhecem-se obras descrevendo torneios e caçadas.
Entretanto, os franceses Montaigne e Rabelais, na Renascença, e Rosseau, no século XVIII, exortavam ao exercício físico. Todavia, é no século passado que surgem autores que, embora timidamente, pegam no desporto como tema. Estão neste caso, entre muitos outros, André Obey, Jean Giraudoux, Jack London, Ernest Hemingway e Allan Sillitoe.
Interessante também, por exemplo, é a afirmação, aliás muito conhecida, de Albert Camus, escritor francês de origem argelina: “Tudo o que tenho por mais certo sobre a moral e os deveres dos homens, devo-o ao futebol”.
Na antiga União Soviética, mesmo nos tempos difíceis do antes e do depois da Guerra, creio que não havia diferença no modo como um operário ou um intelectual encaravam, discutiam ou materializavam o que pensavam sobre o desporto. Dmitri Chostakovitch, porventura o maior compositor soviético do século xx, era um apaixonado frequentador dos estádios. Na primeira página do original da partitura da sua famosa Sinfonia n.º 7, consagrada aos heróicos resistentes de Leninegrado, estão anotados pelo compositor todos os resultados do campeonato de futebol da URSS.
Na imensa cinematografia soviética, tão mal conhecida entre nós, há vários filmes que retratam os vários ângulos do fenómeno desportivo. Lembro-me de um, consagrado ao futebol, onde se viam os estádios cheios, e com muitas mais mulheres do que homens. Era o pós-guerra, milhões de homens tinham ficado para sempre no campo de batalha agarrados às armas com que derrotaram o fascismo e libertaram a Europa. As mulheres iam ao estádio vestidas como para um baile. Pudera! Explicavam elas que tinham milhares de olhos masculinos cravados nelas. Depois dos descomunais sacrifícios, havia que dar continuação à vida.
A fotografia, do saudoso Nuno Ferrari, ganhou vários prémios. Aqui a deixo como homenagem ao seu autor e ao batalhão dos que, carregados de máquinas e objectivas fotográficas, nos suavizam a vida com a beleza das imagens que nos oferecem.


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