PCP comenta OPA sobre o BPI

Atentado à economia nacional

A operação faz parte do processo de concentração do capital financeiro e resultaria na entrega, a uma entidade privada, de instrumentos fundamentais para o controlo da banca, «com graves prejuízos para os portugueses, já hoje fortemente penalizados».

A OPA, a concretizar-se, não se traduzirá em melhores e mais acessíveis serviços

Em nota divulgada segunda-feira, a Comissão Política do Partido «assume o compromisso de tudo fazer, nos planos político e institucional, para que não se venha a concretizar mais este atentado contra a economia nacional, para que os trabalhadores da banca não venham a ser ainda mais penalizados e para que os portugueses não vejam ainda mais hipotecados os seus parcos rendimentos».
A OPA do BCP sobre o BPI, que representa um negócio de cerca de 4,330 mil milhões de euros (já considerado, este ano, o segundo maior na banca europeia), «será lesiva do interesse nacional». Na nota recorda-se os elevados encargos dos clientes com a banca, a par dos elevados lucros que esta obtém. «Só dez dos bancos a operar em Portugal tiveram lucros da ordem dos 2 342 milhões de euros em 2005, sendo que os dois bancos em causa nesta OPA conseguiram mais de 42 por cento desta soma, com mil milhões de euros de lucros», salienta a Comissão Política.

A prática
desmente


O sector financeiro «tem vindo a ser objecto de intenso processo de concentrações, que tudo indica estar ainda longe do fim e que poderá conduzir ao seu controlo quase total por grupos financeiros estrangeiros», o que sucedeu «em notória contradição com o propalado aumento da concorrência», que era referido como um dos objectivos principais das privatizações. Esta OPA, «a concretizar-se, não se traduzirá em melhores e mais acessíveis serviços», como se pode prever, pois alguns bancos pretenderam vedar a abertura de contas a desempregados e volta à ordem do dia a introdução de uma taxa pelo uso do Multibanco.
«Constitui uma falsidade que esta OPA contribua, como outras já realizadas ou anunciadas e ao contrário do que tem sido sistematicamente afirmado por membros do Governo, para o aumento da riqueza ou que seja expressão do dinamismo económico ou da confiança dos empresários nos mercados», acusa a Comissão Política, contrapondo que «apenas se verificará a concentração do capital, alterando a estrutura accionista, e simultaneamente uma maior intervenção da banca privada na definição das políticas financeiras em Portugal».
Mais, «estaríamos perante uma operação financeira que seria um exemplo inequívoco da submissão do poder político ao poder económico e expressão de “uma esfera financeira” cada vez mais especulativa, que se tem transformado num gigantesco sorvedouro da riqueza criada nos sectores produtivos».
Os trabalhadores dos dois bancos também «ficariam a perder», porque «os crescentes níveis de exploração, fruto de elevados ritmos de trabalho e da retirada de direitos e regalias, ao longo dos anos, seriam intensificados, com o despedimento de mais uns milhares» de bancários, «como, aliás já foi anunciado».
Uma das consequências mais graves que teria a concretização da OPA do BCP sobre o BPI seria «uma maior pressão sobre a vida das micro, pequenas e médias empresas, fundamentais para o desenvolvimento económico do País, que já hoje sofrem com o estrangulamento financeiro a que estão sujeitas, por via dos encargos assumidos com a banca», refere-se ainda na nota.

CT do BPI apela à unidade

Na sexta-feira, quatro dias depois da apresentação da OPA do BCP sobre o BPI, a Comissão Executiva do Conselho de Administração do BPI recebeu a Comissão de Trabalhadores, a pedido desta. Na reunião, refere a CT, em comunicado, o presidente da Comissão Executiva do banco, Fernando Ulrich, considerou a OPA «muito hostil ao projecto, à gestão, aos colaboradores e aos clientes». Afirmou que é fácil derrotar a oferta do BCP, tanto por este banco precisar de 75 por cento de votos, a apoiar a desblindagem dos estatutos (que hoje limitam a 12,5 por cento os votos de qualquer accionista, mesmo que possua uma fatia superior do capital social do banco), como por pretender a aquisição de 90 por cento das acções representativas do capital. O patrão do BPI disse ainda aos representantes dos cerca de 7 mil trabalhadores que estranhou a previsão do BCP, sobre o encerramento de cerca de 300 balcões e da redução de 2500 a 3 mil efectivos, caso a OPA fosse bem sucedida.
Por seu turno, a CT manifestou «igual estranheza» e confirmou as suas «apreensões, preocupações e discordância em relação às consequências negativas que esta operação especulativa e concentracionária terá, caso tenha sucesso, no emprego e nas relações de trabalho dos trabalhadores bancários e na segurança das reformas, bem como no desenvolvimento da própria actividade bancária e da economia portuguesa».
Encontrando «pontos de convergência objectivos e pontuais» com a administração do banco, na oposição à OPA, a CT «fundamenta a sua posição, não em razões ou negócios de natureza especulativa-financeira, mas no facto de estarem em causa sobretudo os postos de trabalho de milhares de trabalhadores do BPI e do BCP e o desenvolvimento equilibrado e social do Banco BPI e do País». A CT apela á unidade dos trabalhadores do BPI «na defesa daquilo que sobretudo está em causa nesta OPA, que são os seus postos de trabalho, independentemente das muitas e legítimas discordâncias e insatisfações que tenham em relação à política de pessoal prosseguida pela administração do Banco BPI e independentemente de aliciamentos, eventualmente também objectivos, que possam surgir do BCP».

OPA é «mais concentração»

O Organismo de Direcção dos Bancários de Lisboa do PCP considera, em nota do dia 15, que a anunciada OPA do BCP sobre o BPI é apenas mais um «movimento do capital financeiro em tudo prejudicial aos interesses dos trabalhadores bancários, dos trabalhadores portugueses em geral e dos interesses do desenvolvimento do País». A concretizar-se esta operação, «estamos perante uma fusão de dois grandes bancos» da qual os trabalhadores de ambas as entidades «poderão ser as primeiras vítimas». Os bancários comunistas comprometem-se a tudo fazer para impedir que «sejam os trabalhadores a pagar a factura desta operação».
O PCP alerta para o facto de que o banco que viesse a dar lugar aos actualmente existente «seria a maior instituição financeira do País, ultrapassando largamente a Caixa Geral de Depósitos». Para o PCP, isto significa que o Estado, através da CGD, «deixaria de ter o poder de influenciar a política financeira do País e que então, completamente vulnerabilizada, esta se encontraria à mercê da privatização e da voracidade do capital financeiro nacional e estrangeiro».


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