O Riso

Correia da Fonseca
Como regra geral que comportará um maior número de excepções, no decurso dos numerosos debates que a TV agora nos oferece, não tanto pelo seu amor ao esclarecimento e ao contraditório como porque se trata de programas baratos e que ocupam largo tempo de antena, os participantes de esquerda ou com ela conotáveis são abundantemente interrompidos pelos participantes da direita, enquanto que o inverso raramente acontece. Com razão ou sem ela, tenho como certo que esta espécie de hábito é explicável por duas ou três razões: porque os de direita sabem poder contar com a benevolência dos jornalistas moderadores, porque têm um sentimento de que os media são de facto território seu e porque têm medo dos argumentos dos seus antagonistas. Quanto a este último ponto, salta-me à memória muitas vezes os versos do turco Nazim Hikmet: «Eles têm medo, Robeson, medo da aurora, medo de ver, medo de entender (…)». E, é claro, medo de que quem ouça possa entender, ver, pressentir a aurora. A verdade é que a técnica da interrupção no decurso de debates resulta numa forma de censura consentida para quem os debates dirige (E que, em certos casos mais ou menos desconhecidos, dá o exemplo, feio exemplo, de interromper os argumentos da esquerda, sendo naturalmente legítimo admitir que daí retira factores favoráveis ao sucesso profissional). Porque estamos a viver dias em que muito se fala de censuras e do proclamado temor delas, sem prejuízo de que alguns dos que mais falam se situam na área dos praticantes de indirectas, discretíssimas e muito democráticas providências censórias, não será talvez de todo desatinado recordar aqui o uso da interrupção estratégica.

Confissão, afinal>

Método alternativo à interrupção, e bem mais doce, é a desvalorização das palavras do interveniente de esquerda mediante a exibição de um sorriso desdenhoso e/ou compadecido que as câmaras da TV vão pressurosamente recolher e divulgar. É um método muito usado pela direita, o que bem se compreende não apenas porque as gentes de direita são geralmente criaturas bem instaladas na vida, e por isso com boas razões para sorrir, mas também porque em princípio entendem que a visão que a esquerda tem do mundo e da vida, na actualidade e sobretudo no futuro, é coisa irrealista, mítica, míope, nada que se deva tomar a sério. Há, porém, ainda uma outra explicação para os risos ou sorrisos da direita enquanto a esquerda fala: é um manifesto défice de boa educação, porventura surpreendente em quem provavelmente teve acesso a uma educação muito esmerada. Ora, um dia destes tive eu ocasião de presenciar mais um flagrante caso de falta de educação, para não dizer que de ordinarice, por parte de quem não se esperaria tal coisa. Foi ao ter sintonizado o meu televisor para o canal da Assembleia da República, distribuído por cabo e muito pouco lembrado, o que é grande pena, pois ali se pode recolher informações sobre a vida política portuguesa que nenhum outro canal divulga. O tema abordado era a chamada Lei de Paridade, que estabelece quotas para a participação feminina nas listas de candidaturas para cargos políticos, e falava então a deputada Odete Santos com a clareza, a veemência e a razão que felizmente a caracterizam. Eis senão quando na primeira fila de uma outra bancada uma senhora deputada, distintíssima nos seus longos cabelos loiros, desatou a rir descaradamente, acolitada por um ou dois dos seus camaradas, com perdão da palavra que até nem parece ficar bem na circunstância. Dizia Odete Santos que a suscitada questão das quotas para as mulheres é uma manobra de diversão que sugere uma empenhada defesa da condição feminina enquanto de facto as mulheres portuguesas são abandonadas aos seus dramas, e a loira deputada ria. Evocava Odete Santos as agruras das mulheres desempregadas, das que recebem salário menor para trabalho igual, das que não podem ficar grávidas porque o patrão não gosta, e a distinta deputada ria. Lembrava-lhe Odete Santos, directamente, que o seu irreprimido riso só era possível graças a um estatuto privilegiado, e a risonha deputada não deixou de rir. Sejamos compreensivos: não era só educação deficitária, era também e principalmente o argumento possível. E, inúmeras vezes, o argumento que resta a quem não tem outro e aposta na ilusão de que podia escapar pelo riso. Sem perceber que, muitas vezes, o riso malcriado é também confissão de nenhum argumento sólido.


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