João Lopes,
responsável da célula da OGMA do PCP

«Um jornal muito humano»

«O nosso jornal.» É assim que João Lopes se refere ao Avante!, com naturalidade. É tão natural que nem repara. Mas a explicação surge rapidamente: «É “nosso” por ser do nosso Partido; é “nosso” enquanto trabalhadores; é “nosso” porque foca os nossos problemas, esclarece as nossas necessidades; é “nosso” porque é dirigido aos militantes do PCP e aos trabalhadores em geral.»
Responsável pela célula da Oficina Geral de Material Aeronáutico (OGMA) do PCP, em Alverca, João Lopes mantém um arquivo pessoal de artigos do Avante!, a maioria anteriores à edição on line do jornal. Guarda para potencialmente consultar mais tarde, mas nem sempre isso acontece. «No nosso quotidiano precisamos de informação actual. Precisamos essencialmente do último Avante!», comenta.
João traz para a entrevista um número do Avante! de Maio de 1999, publicado durante os bombardeamentos da Jugoslávia, para ilustrar aquilo que qualifica como «o papel insubstituível do Avante!». «Fala de coisas que mais nenhum fala. Em cada edição há exemplos de notícias que só o Avante! dá ou em que apresenta uma abordagem particular», sublinha.
«A justificação formal dos bombardeamentos à Jugoslávia baseou-se no falhanço das negociações e na recusa daquele país de aceitar o chamado “Anexo B”. Na maioria dos jornais dizia-se apenas que a Jugoslávia rompeu as negociações... Se o “Anexo B” era o causador do início da guerra, teria todo o interesse saber o que estava lá escrito. Lendo o documento, percebemos que nenhum país o poderia aceitar, porque previa que a Nato entrasse no país quando quisesse e utilizasse estradas, portos, aeroportos e vias de caminho de ferro sem taxas, que qualquer membro da Nato estaria imune de qualquer processo civil, criminal ou administrativo... Era uma capitulação. O Avante! foi o único jornal que publicou o “Anexo B” na íntegra», afirma.

Completo e uno

João Lopes começa por ter alguma dificuldade em definir o Avante!, mas, conhecendo-o tão bem, as palavras acabam por fluir: «O Avante! é uma espécie de pilar a que recorremos. Serve para nos informarmos, para aprendermos, para nos esclarecermos. É um jornal muito humano... a maneira como aborda alguns assuntos, como a luta de trabalhadoras à porta de uma empresa... consegue transmitir o seu sentimento de angústia de forma muito real. Ou mesmo em textos de fundo. É um jornal que rompe a censura, como aconteceu naquele caso do “Anexo B”. Sendo focalizado para os trabalhadores, consegue ser completo e uno. Tem notícias, entrevistas, crónicas, reportagens, crítica televisiva...»
João começou a ler o Avante! de maneira regular no final da década de 90, pela necessidade de informação que só aqui encontrava. Esta leitura ajuda-o nas suas tarefas no Partido. «Ajuda-me, tal como ajuda qualquer militante que tem necessidade de se informar e de ocasionalmente produzir alguns documentos. Quando queremos abordar uma realidade concreta, numa empresa ou numa freguesia, temos de falar da envolvência. Se falamos do nível de vida ou da retirada de direitos, interessa informar que essa ofensiva se dá também noutros países e que aí os trabalhadores saíram à rua. Não concebo como é possível ter tarefas sem recorrer a esta fonte de informação», comenta.

Um jornal de muitas histórias

João Lopes lamenta que o Avante! chegue a uma percentagem muito pequena dos trabalhadores. «Ou não temos organização para o levar mais longe e temos de fazer crescer a organização, ou haverá potencialidades que não estão exploradas. Nalgumas tentativas de divulgação, o factor impeditivo não foi a falta de aceitação, mas sim a nossa capacidade orgânica de fazer vendas repetidas vezes, de transformar as vendas especiais em iniciativas regulares», explica.
«Há muitos trabalhadores que não têm conhecimento do que é de facto o Avante! e da quantidade de informação que apresenta. Ou então têm uma visão muito limitada, pensam que é apenas uma colecção de textos do PCP... Há uma grande discrepância entre a importância do Avante! para os trabalhadores e o número dos que o lêem», considera.
Ao longo da sua vida de militante, João já participou em muitas vendas. «Não sou um grande vendedor, não tenho muito jeito», confessa, acrescentando que o que apela para a venda «é o Avante! em si». «As pessoas que acedem pelo menos a olhar para o nosso jornal já não têm uma ideia de rejeição do Partido. Penso que sentem que têm ali uma informação que não está em mais lado nenhum. Regra geral, as metas das vendas são cumpridas», assegura.
Como leitor, os 75 anos do Avante! têm um significado especial para João. «É a história de muita gente sem rosto, que assegurou o jornal durante anos a fio sem esperar retribuição alguma. Muitas delas continuam por aí muito discretas... e são pessoas magníficas. É uma história de persistência. É o jornal que mais tempo resistiu na clandestinidade a nível mundial. Mesmo depois do 25 de Abril, foi feito um trabalho em condições com algumas semelhanças. Existem formas de censura cada vez mais subtis, calam-se determinadas correntes de opinião que não estão de acordo com as correntes dominantes... O Avante! resiste a isso.»


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O outro lado do <em>Avante!</em>

No ano em que se comemoram os 75 anos do Avante! , continuamos a fazer um retrato do jornal através das pessoas que o lêem, que o vendem, que o produzem ou produziram.

A menina dos olhos

«A primeira coisa que vi quando abri os olhos foram letras», conta Mariana Morais. Filha dos tipógrafos clandestinos Joaquim e Catarina Rafael, viveu os primeiros anos da sua vida com os pais numa casa isolada, perto de Coina, onde funcionava uma tipografia clandestina. A casa não tinha condições para um parto e Mariana foi nascer a Almada, na casa de Gabriel Pedro, também ele militante comunista.