Gates e o plano tecnológico

Francisco Silva
Bill Gates esteve em Portugal por ocasião de uma iniciativa anual do grupo empresarial Microsoft de que foi fundador e de que é Presidente, sendo o seu principal accionista (quer dizer, Presidente do plenário do Conselho de Administração, e não o Presidente Executivo propriamente dito, o CEO, o Chefe Executivo da Microsoft, que é o Steve Ballmer). Fascinado pelo «homem mais rico do mundo» - melhor ainda diria, embasbacado -, o pagode nacional dos mediae do Governo prestou-lhe, balofo e agachado, agachado até mesmo de se lhe ver o cu - desculpem qualquer coisinha esta última e deselegante metáfora, esta plebeíssima metáfora -, o evidente preito de submissão que seria de esperar, pelo menos assim percebido por parte de um escriba do tipo do que aqui está. Eles, aquilo que denominei de pagode nacional dos media e do Governo, nem se darão ao trabalho de notar a existência de tão nada influente cronista como o que sobre estas linhas tal fel debita - quando muito, de um olhar de través, para trás, por cima do ombro (talvez por cima do ombro esquerdo), desdenhoso, poderão pensar «estão verdes, não prestam». Sei lá. Continue-se.

Bill Gates, a sua empresa terão desempenhado o seu papel tal como os seus interesses ditaram. É normal. A par de uma permanente atenção a uma maximização de lucros - e, se não o fizerem, serão necessariamente pasto da decadência -, a par de uma concentração de poder financeiro tão grande como a sua - mesmo indo de par com ela algo de pés de barro, tal como é sempre inevitável nos ídolos forrados de ouro -, Bill Gates está também atentíssimo à necessidade de se comportar de uma maneira urbana, não arrogante - o que, aliás, lhe é fácil, pois há muito, muito, ultrapassou as dimensões do pequeno chefe e do pequeno capitalista testa de ferro, que sempre se querem fazer passar por mais fortes do que na realidade alguma vez serão.
Bill Gates, em consequência, também perfeitamente actualizado. Diria mais, perfeitamente líder das práticas de bom cidadão empresarial que hoje se vão tornando moeda corrente. O auxílio aos mais desmunidos, a prioridade estratégica da Educação, com resultados visíveis a longo termo, mas quem, em seu perfeito juízo, poderá ter uma oposição a tais objectivos? Talvez alguns liberais de palavra - boca - mais desbragada considerem tais objectivos atentatórios, condicionantes, do livre funcionamento dos mecanismos de mercado, atentatório mesmo da possibilidade de Desenvolvimento. E, em Portugal, estes, enquanto ostentadores novissimamente ricos da tal tão falada Modernidade, eles são legião, sobretudo nas diversas instâncias do Poder.

Mas, o facto é que estas práticas de bom cidadão empresarial também interpretadas por Bill Gates, nomeadamente através da sua Fundação, não são exclusivas dele. Nada que se pareça. Com efeito, a onda que vai pelo global mundo empresarial - no mundo das diversas empresas, a partir de uma certa dimensão, inclusive no nosso País - é a onda da chamada CSR (Corporate Social Responsibility). Uma onda suscitada tanto pelos benefícios fiscais derivados de actividades de mecenato, como, de certo modo, a funcionar como contrapartida ao «emagrecimento» das forças de trabalho ditado pelas necessidades de maximização de lucros, de optimização de performances, a onda que ditou a criação desta nova doutrina.
No caso de Bill Gates e da sua Fundação os valores de mecenato poderão ser mais elevados do que a média. Uma boa parte deles na área da Educação poderão inclusive aportar-lhe benefícios para além dos benefícios fiscais próprios do mecenato, ou os benefícios da notoriedade mediática ou, poderei mesmo admitir, os benefícios em termos da sua própria consciência. Porque o investimento na Educação envolverá sempre, como é natural, uma contrapartida de conhecimento na operação das ferramentas informáticas da Microsoft. Tudo isto é natural, por parte de Bill Gates e da Microsoft.
Voltando à visita a Portugal. Então, lá vimos a legião de ministros a assinar os protocolos de projectos. De pé, curvando bem a sua espinha sobre a mesa onde se encontravam as cópias dos protocolos para os diversos projectos. A parecer a assinatura de um monte de ajustes directos, como se a Microsoft-Estado (como tudo indica ser a visão dos nossos 1.º, 2. º e 4.º poderes) fosse o único fornecedor do Mundo.
Mas não terá o próprio Bill Gates achado excessivo este zelo num momento em que a Microsoft tem de dirimir um processo anti-trust com a Autoridade da Concorrência da UE?


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