<font color="0093DD>• </font>De que falamos, quando falamos de terrorismo?
Os que viveram o fascismo em Portugal ainda se lembram que eram «terroristas» os movimentos de libertação das antigas colónias, e que todos os que apoiavam essa luta eram acusados de «apoiar o terrorismo», de «anti-patriotas», de «conspirar contra a segurança do Estado». E muitos foram os que pagaram por isso com a tortura, a prisão e até com a própria vida.
Também não é preciso recuar muito no tempo para verificar que dirigentes como o sul-africano Nelson Mandela ou o vietnamita Ho Chi Min, para citar apenas dois exemplos, eram considerados dois perigosos «terroristas». E no entanto o seu único «crime» foi o de se atreverem a lutar pela liberdade dos respectivos povos e pelo seu direito à autodeterminação e independência.
De que falamos, pois, quando falamos de terrorismo?
Não é certamente da luta de libertação dos povos; não é seguramente da luta de classes - o terror nunca foi uma arma dos oprimidos, e a auto-defesa não pode ser confundida com terrorismo.
Num mundo tão profundamente desigual como este em que vivemos muitas são as formas de terrorismo - político, económico, militar... -, mas são sobretudo os actos de terror que tiram a vida a civis inocentes que mais chocam a opinião pública e os que mais se prestam a todo o tipo especulações.
Será a bomba que rebenta numa esplanada ou numa paragem de autocarro, numa escola ou num mercado, uma resposta à opressão, um acto de desespero de quem já nada tem a perder?
A melhor resposta a esta questão foi dada a 11 de Setembro de 2001, nos EUA. Os suicidas que fizeram explodir as Torres Gémeas não eram pobres nem desesperados, mas oriundos de classes média e alta e manifestamente apoiados por importantes recursos financeiros.
Não se nega que a pobreza possa contribuir para a ocorrência de certos actos de desespero, mas seria um erro crasso situar aí a principal fonte do terrorismo que tanto inquieta hoje a sociedade. A pobreza poderá ser um pretexto, mas não uma causa.
O mesmo se pode dizer em relação aos fundamentalismos religiosos, que erradamente tendemos a considerar como um sistema homogéneo, quando na verdade se caracterizam pela multiplicidade das suas correntes. Tal como a pobreza, poderão ser um factor susceptível de ser explorado para a prática de actos de terrorismo, mas isso não altera a realidade inegável de que a maioria dos fundamentalistas religiosos não são terroristas.
Do mesmo modo como em política não se pode nem deve confundir uma ideologia conservadora com uma ideologia fascista, também em religião importa traçar uma separação nítida entre o fundamentalismo religioso - por mais que algumas das suas práticas possam ser motivo de contestação - e o fanatismo ou fascismo religioso.
A quem aproveita o crime?
Aqui chegados, a questão que se coloca é literalmente a mesma que sempre se levanta nos romances policiais: a quem aproveita o crime?
Dito de outro modo:
- Que forças sociais estão interessadas em criar um clima de medo, insegurança e ansiedade?
- Quem beneficia em lançar religiões contra religiões, nações contra nações, povos contra povos?
- Qual o sistema político que não hesita em recorrer à força bruta para impor as suas próprias regras?
- Quem pratica a intolerância mesmo quando prega a convivência pacífica?
Não nos iludamos. O terrorismo, para subsistir, necessita de uma base ideológica e de uma organização. E a sua essência, por mais nomes que se lhe dê, é só uma. O terrorismo é uma arma do fascismo e as suas fontes estão no militarismo e nos valores e práticas do imperialismo, fase superior do capitalismo.
Mas quem são afinal os terroristas? Importa, obviamente, fazer a distinção entre organizações terroristas e estados terroristas.
Comecemos por estes últimos.
Se tomarmos como padrão a teoria da administração norte-americana de que os estados mais perigosos são os que:
- têm armazenadas grande quantidade de armas químicas, biológicas, e armas nucleares;
- ignoram as decisões das Nações Unidas;
- recusam subscrever e respeitar os tratados internacionais;
- chegaram ao poder por meios ilegítimos;
então somos forçados a concluir que os EUA não só preenchem todos os itens deste critério como vão ainda mais além, pois são o país que mais armas fabrica e vende no mundo, tal como são também a única nação que até hoje lançou bombas atómicas contra a população civil.
Mais, importa não esquecer que os EUA só renunciaram à utilização de armas nucleares quando deixaram de ter o seu monopólio, e que actualmente, enquanto prosseguem a sua cruzada para desarmar os restantes países, já admitem abertamente usar tais armas, em versões mais modernas e sofisticadas.
Vale a pena recordar aqui os resultados da mega sondagem realizada não há muito tempo pela revista norte-americana Time, que envolveu um quarto de milhão de pessoas em toda a Europa.
A pergunta era: «Qual o país que representa maior perigo para a paz mundial em 2003?» Os leitores deviam assinalar uma de três possibilidades: o Iraque, a Coreia do Norte e os Estados Unidos.
Os resultados são elucidativos:
Oito por cento consideraram o Iraque como o mais perigoso; 9 por cento optaram pela Coreia do Norte; e 83 por cento responderam que eram os Estados Unidos.
Um apelo à consciência americana
A que se deve este sentimento? Conhecemos as teorias, agora tão em voga, do anti-americanismo. Cedamos então a palavra aos 400 veteranos das Forças Armadas dos EUA, que no início de Fevereiro divulgaram um comunicado aos seus compatriotas.
Nesse documento pode ler-se, a determinada altura:
«Durante a Guerra do Golfo as tropas receberam ordens para assassinar a uma distância segura. Destruímos muito do Iraque a partir do ar, matando milhares de pessoas, incluindo civis. Lembramos o caminho para Bassorá - a Estrada da Morte -, onde recebemos ordens para matar os iraquianos que fugiam. Arrasámos com bulldozers as suas trincheiras, enterrando as pessoas vivas.
«O uso de urânio empobrecido deixou radioactivos os campos de batalha.
«O uso maciço de pesticidas, drogas experimentais, o incêndio de depósitos de armas químicas e os incêndios em poços de petróleo combinaram-se para criar um cocktail tóxico que hoje afecta tanto o povo iraquiano como os veteranos da Guerra do Golfo. Um em cada quatro desses veteranos está incapacitado.
«Durante a guerra no Vietname recebemos ordens para destruir tudo por ar e por terra. Em My Lai matámos mais de 500 mulheres, crianças e velhos. Usámos o Agente Laranja contra o inimigo e experimentámos os seus efeitos na própria carne. Sabemos como se vê, como se sente e a que sabe o síndroma do stress pós traumático porque os fantasmas de mais de 2 milhões de homens, mulheres e crianças ainda nos perseguem em sonhos.
«Entre nós são mais os que morreram pelas suas próprias mãos depois de voltar a casa do que os que morreram na batalha.»
No mesmo documento, que é um pungente apelo à consciência dos norte-americanos, pode ainda ler-se:
«Não existe honra no assassinato e esta guerra é um assassinato com outro nome.
«Quando numa guerra injusta uma bomba errante mata uma mãe com o seu filho, isso não é um “dano colateral”, é um assassinato.
«Quando numa guerra injusta uma criança morre de disenteria porque uma bomba deu cabo da estação de tratamento de água, não se está a “destruir uma infra-estrutura inimiga”: é um assassinato.
«Quando numa guerra injusta um pai de família morre de ataque cardíaco porque uma bomba destruiu as linhas telefónicas e não foi possível chamar uma ambulância, isso não é “neutralizar as instalações de comando e controlo”: é um assassinato.
«Quando numa guerra injusta morrem numa trincheira mil camponeses pobres que defendiam a aldeia onde passaram toda a sua vida, isso não é uma vitória: é um assassinato.»
Já depois da divulgação deste documento, quando a destruição e a morte voltaram a assolar o Iraque, outros americanos mostraram ao mundo, ainda que involuntariamente, a verdadeira face deste fascismo de novo tipo. Confrontados com a morte de civis, os soldados resumiram numa frase toda a filosofia do sistema: «lamento, mas a ameixa seguiu o seu caminho».
Os EUA e os outros
Esta é a política da única superpotência mundial, cuja história tem a sua génese no genocídio dos índios; passa pela escravidão dos negros; se desenvolve com o apoio às ditaduras militares da América Latina e a todos os regimes fascistas, incluindo o português; se reforça com as guerras expansionistas e de dominação mundial em nome dos seus «interesses vitais»; se afirma com a destruição da ONU e do direito internacional; e se propõe transformar o planeta numa arena onde - as palavras são de Samir Amin - somos todos «uns “peles vermelhas”, ou seja, povos sem direito à existência» a não ser na medida em que não prejudiquemos a expansão do capital transnacional americano.
Se isto não é terrorismo, então o que é o terrorismo?
Seria certamente mais cómodo para todos nós podermos acreditar que o terrorismo se limita à acção de uns quantos grupos isolados, formados por uma espécie de «vingadores» e de «fanáticos» que aspiram a «limpar» a sociedade de todos os males, mesmo que seja à custa de um banho de sangue e de vítimas inocentes.
Não é assim.
Seja nos EUA ou no Médio Oriente, na Europa ou em África, tais grupos operam em estreita convivência e ao serviço dos interesses do imperialismo, por mais que os seus homens de mão não tenham consciência disso e sejam quais forem as motivações que os levam a cometer actos suicidas.
Das ligações dos Tabilan aos EUA ou do Hamas a Israel o que não falta são evidências da estratégia global que se esconde por trás de terroristas e terrorismo. Na melhor das hipóteses, em alguns casos, o monstro terá escapado ao controlo do criador, mas a sua acção servirá sempre o objectivo final que é o de dar o pretexto para a intervenção e domínio antecipadamente concebidos.
A benefício do inventário
Voltemos então à questão inicial: de que falamos quando falamos de terrorismo?
- Nos últimos 5 anos, o número de pobres na América Latina aumentou em mais 20 milhões (dados do Comité Económico da ONU para a América Latina).
- Morrem anualmente dois milhões de pessoas devido a condições de trabalho desumanas (mais mortes do que as provocadas pela SIDA ou pelas guerras), 12 000 das quais são crianças. Cerca de 340 000 dessas mortes resultam da exposição a substâncias químicas. Os dados são da Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres (CIOSL).
- As pessoas do chamado Terceiro Mundo vivem com 20 litros de água por dia, ou menos, enquanto o mundo industrializado utiliza entre 400 e 500 litros por dia por pessoa.
- A administração Bush está a implementar um plano para desenvolver a energia nuclear dentro das suas fronteiras que prevê a construção de 50 novos reactores até ao ano 2020. Cada central deste tipo produz entre 22 a 30 toneladas de resíduos nucleares, altamente tóxicos e mortíferos. E existem 438 centrais nucleares em 30 países e mais 33 reactores estão em construção (metade dos quais na Ásia). Grande parte destas construções é financiada pelo Export-Import Bank dos EUA.
- O «número dois» do Pentágono, Paul Wolfowitz, disse há dias que a alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque não passou de uma «justificação burocrática» para a guerra e, já esta semana, foi ainda mais explícito, segundo a edição online do jornal The Guardian, ao reconhecer que o motivo da guerra foi o facto de o Iraque nadar «num mar de petróleo».
- Segundo o mesmo jornal (edição de 23 de Janeiro deste ano), um antigo engenheiro químico da Mobil, Fadel Gheit, que é agora um especialista em investimentos numa empresa de agentes da Bolsa de Nova Iorque, declarou numa reunião em que participou antes do Natal de 2002 que a guerra anunciada era «inteiramente por causa do petróleo» e que a guerra global contra o terrorismo não passava de uma «camuflagem» para esconder esse propósito. Gheit disse ainda: «O nosso modo de vida depende de 20 milhões de barris de petróleo por dia, metade dos quais tem de ser importada. Somos como um doente numa diálise de petróleo. É uma questão de vida ou de morte».
- Lee Raymond, presidente da ExxonMobil, conhecida como Esso na Europa, declarou o ano passado, numa entrevista à CNBC, em 23 de Setembro, que a empresa quer estar envolvida «em todas as principais áreas de prospecção do mundo». Um dos seus substitutos, Morris Foster, lembrou na mesma época que «metade dos fornecimentos de petróleo e gás necessários para 2010 não está ainda a ser produzida», pelo que se coloca a necessidade do «acesso geopolítico a novos recursos».
- Também em Setembro de 2002, a Heritage Foundation - cuja acção pretensamente benemérita conhecemos de séries televisivas, e que recebeu 65 000 dólares da Esson em 2001 - afirmou que a administração Bush «deve deixar claro que, depois da guerra, permanecerá no Iraque uma presença militar dos EUA para assegurar os interesses vitais norte-americanos».
- Anthony Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, que recebeu igualmente 135 000 dólares da Esson em 2001, defendeu no Senado, em Março de 2001, que os EUA necessitam de «uma doutrina formal de Bush que defina as nossas linhas vermelhas, que diga de maneira bem clara que a segurança do Golfo e o fluxo contínuo de petróleo são do interesse nacional e vital para a segurança dos EUA, e que continuaremos comprometidos com a contenção militar e com a estreita cooperação com os nossos aliados do Golfo enquanto exista uma ameaça do Iraque ou do Irão».
Estes são apenas alguns dos muitos dados que poderíamos citar, aqui trazidos à colação para que em conjunto nos possamos questionar por que razão realidades destas nos chocam infinitamente menos do que um atentado em qualquer ponto do mundo, não obstante fazerem infinitamente mais vítimas. Se isto não é terrorismo, o que lhe devemos chamar?
Contributo para o debate
O que deveremos chamar ao ataque sem precedentes, em democracia, que hoje se regista contra os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, tanto nos EUA como na Europa, em nome do combate ao terrorismo?
Como classificar a monstruosa trama de mentiras divulgadas pela comunicação social a nível mundial, com o deliberado intuito de manipular e condicionar a opinião pública a aceitar não só a restrição dos seus próprios direitos, conquistados em séculos de luta e evolução civilizacional, como ainda a «apoiar» que se espezinhem os direitos dos outros povos?
Como rotular o facto de as Nações Unidas serem já tratadas pelos EUA e seus vassalados como no passado a Liga das Nações foi tratada pelos estados fascistas?
Como explicar que, durante uma visita de Colin Powell às Nações Unidas, a Guernica de Picasso tivesse sido tapada com uma cortina para não incomodar o representante do império?
Muitos são hoje os que afirmam, como o jornalista australiano John Pilger, que o Iraque não teria sido invadido se tivesse armas nucleares, e que a grande lição desta guerra para os governos que não alinham com o imperialismo norte-americano é apenas uma: armar-se com o nuclear rapidamente.
Esta é, certamente, uma das mais trágicas consequências do terror e do terrorismo, que de afinal não cheguei a dar uma definição.
Não foi por acaso. Deixo-vos essa tarefa, como contributo para o debate colectivo que teremos de travar para que efectivamente um outro mundo seja possível.
De que falamos, pois, quando falamos de terrorismo?
Não é certamente da luta de libertação dos povos; não é seguramente da luta de classes - o terror nunca foi uma arma dos oprimidos, e a auto-defesa não pode ser confundida com terrorismo.
Num mundo tão profundamente desigual como este em que vivemos muitas são as formas de terrorismo - político, económico, militar... -, mas são sobretudo os actos de terror que tiram a vida a civis inocentes que mais chocam a opinião pública e os que mais se prestam a todo o tipo especulações.
Será a bomba que rebenta numa esplanada ou numa paragem de autocarro, numa escola ou num mercado, uma resposta à opressão, um acto de desespero de quem já nada tem a perder?
A melhor resposta a esta questão foi dada a 11 de Setembro de 2001, nos EUA. Os suicidas que fizeram explodir as Torres Gémeas não eram pobres nem desesperados, mas oriundos de classes média e alta e manifestamente apoiados por importantes recursos financeiros.
Não se nega que a pobreza possa contribuir para a ocorrência de certos actos de desespero, mas seria um erro crasso situar aí a principal fonte do terrorismo que tanto inquieta hoje a sociedade. A pobreza poderá ser um pretexto, mas não uma causa.
O mesmo se pode dizer em relação aos fundamentalismos religiosos, que erradamente tendemos a considerar como um sistema homogéneo, quando na verdade se caracterizam pela multiplicidade das suas correntes. Tal como a pobreza, poderão ser um factor susceptível de ser explorado para a prática de actos de terrorismo, mas isso não altera a realidade inegável de que a maioria dos fundamentalistas religiosos não são terroristas.
Do mesmo modo como em política não se pode nem deve confundir uma ideologia conservadora com uma ideologia fascista, também em religião importa traçar uma separação nítida entre o fundamentalismo religioso - por mais que algumas das suas práticas possam ser motivo de contestação - e o fanatismo ou fascismo religioso.
A quem aproveita o crime?
Aqui chegados, a questão que se coloca é literalmente a mesma que sempre se levanta nos romances policiais: a quem aproveita o crime?
Dito de outro modo:
- Que forças sociais estão interessadas em criar um clima de medo, insegurança e ansiedade?
- Quem beneficia em lançar religiões contra religiões, nações contra nações, povos contra povos?
- Qual o sistema político que não hesita em recorrer à força bruta para impor as suas próprias regras?
- Quem pratica a intolerância mesmo quando prega a convivência pacífica?
Não nos iludamos. O terrorismo, para subsistir, necessita de uma base ideológica e de uma organização. E a sua essência, por mais nomes que se lhe dê, é só uma. O terrorismo é uma arma do fascismo e as suas fontes estão no militarismo e nos valores e práticas do imperialismo, fase superior do capitalismo.
Mas quem são afinal os terroristas? Importa, obviamente, fazer a distinção entre organizações terroristas e estados terroristas.
Comecemos por estes últimos.
Se tomarmos como padrão a teoria da administração norte-americana de que os estados mais perigosos são os que:
- têm armazenadas grande quantidade de armas químicas, biológicas, e armas nucleares;
- ignoram as decisões das Nações Unidas;
- recusam subscrever e respeitar os tratados internacionais;
- chegaram ao poder por meios ilegítimos;
então somos forçados a concluir que os EUA não só preenchem todos os itens deste critério como vão ainda mais além, pois são o país que mais armas fabrica e vende no mundo, tal como são também a única nação que até hoje lançou bombas atómicas contra a população civil.
Mais, importa não esquecer que os EUA só renunciaram à utilização de armas nucleares quando deixaram de ter o seu monopólio, e que actualmente, enquanto prosseguem a sua cruzada para desarmar os restantes países, já admitem abertamente usar tais armas, em versões mais modernas e sofisticadas.
Vale a pena recordar aqui os resultados da mega sondagem realizada não há muito tempo pela revista norte-americana Time, que envolveu um quarto de milhão de pessoas em toda a Europa.
A pergunta era: «Qual o país que representa maior perigo para a paz mundial em 2003?» Os leitores deviam assinalar uma de três possibilidades: o Iraque, a Coreia do Norte e os Estados Unidos.
Os resultados são elucidativos:
Oito por cento consideraram o Iraque como o mais perigoso; 9 por cento optaram pela Coreia do Norte; e 83 por cento responderam que eram os Estados Unidos.
Um apelo à consciência americana
A que se deve este sentimento? Conhecemos as teorias, agora tão em voga, do anti-americanismo. Cedamos então a palavra aos 400 veteranos das Forças Armadas dos EUA, que no início de Fevereiro divulgaram um comunicado aos seus compatriotas.
Nesse documento pode ler-se, a determinada altura:
«Durante a Guerra do Golfo as tropas receberam ordens para assassinar a uma distância segura. Destruímos muito do Iraque a partir do ar, matando milhares de pessoas, incluindo civis. Lembramos o caminho para Bassorá - a Estrada da Morte -, onde recebemos ordens para matar os iraquianos que fugiam. Arrasámos com bulldozers as suas trincheiras, enterrando as pessoas vivas.
«O uso de urânio empobrecido deixou radioactivos os campos de batalha.
«O uso maciço de pesticidas, drogas experimentais, o incêndio de depósitos de armas químicas e os incêndios em poços de petróleo combinaram-se para criar um cocktail tóxico que hoje afecta tanto o povo iraquiano como os veteranos da Guerra do Golfo. Um em cada quatro desses veteranos está incapacitado.
«Durante a guerra no Vietname recebemos ordens para destruir tudo por ar e por terra. Em My Lai matámos mais de 500 mulheres, crianças e velhos. Usámos o Agente Laranja contra o inimigo e experimentámos os seus efeitos na própria carne. Sabemos como se vê, como se sente e a que sabe o síndroma do stress pós traumático porque os fantasmas de mais de 2 milhões de homens, mulheres e crianças ainda nos perseguem em sonhos.
«Entre nós são mais os que morreram pelas suas próprias mãos depois de voltar a casa do que os que morreram na batalha.»
No mesmo documento, que é um pungente apelo à consciência dos norte-americanos, pode ainda ler-se:
«Não existe honra no assassinato e esta guerra é um assassinato com outro nome.
«Quando numa guerra injusta uma bomba errante mata uma mãe com o seu filho, isso não é um “dano colateral”, é um assassinato.
«Quando numa guerra injusta uma criança morre de disenteria porque uma bomba deu cabo da estação de tratamento de água, não se está a “destruir uma infra-estrutura inimiga”: é um assassinato.
«Quando numa guerra injusta um pai de família morre de ataque cardíaco porque uma bomba destruiu as linhas telefónicas e não foi possível chamar uma ambulância, isso não é “neutralizar as instalações de comando e controlo”: é um assassinato.
«Quando numa guerra injusta morrem numa trincheira mil camponeses pobres que defendiam a aldeia onde passaram toda a sua vida, isso não é uma vitória: é um assassinato.»
Já depois da divulgação deste documento, quando a destruição e a morte voltaram a assolar o Iraque, outros americanos mostraram ao mundo, ainda que involuntariamente, a verdadeira face deste fascismo de novo tipo. Confrontados com a morte de civis, os soldados resumiram numa frase toda a filosofia do sistema: «lamento, mas a ameixa seguiu o seu caminho».
Os EUA e os outros
Esta é a política da única superpotência mundial, cuja história tem a sua génese no genocídio dos índios; passa pela escravidão dos negros; se desenvolve com o apoio às ditaduras militares da América Latina e a todos os regimes fascistas, incluindo o português; se reforça com as guerras expansionistas e de dominação mundial em nome dos seus «interesses vitais»; se afirma com a destruição da ONU e do direito internacional; e se propõe transformar o planeta numa arena onde - as palavras são de Samir Amin - somos todos «uns “peles vermelhas”, ou seja, povos sem direito à existência» a não ser na medida em que não prejudiquemos a expansão do capital transnacional americano.
Se isto não é terrorismo, então o que é o terrorismo?
Seria certamente mais cómodo para todos nós podermos acreditar que o terrorismo se limita à acção de uns quantos grupos isolados, formados por uma espécie de «vingadores» e de «fanáticos» que aspiram a «limpar» a sociedade de todos os males, mesmo que seja à custa de um banho de sangue e de vítimas inocentes.
Não é assim.
Seja nos EUA ou no Médio Oriente, na Europa ou em África, tais grupos operam em estreita convivência e ao serviço dos interesses do imperialismo, por mais que os seus homens de mão não tenham consciência disso e sejam quais forem as motivações que os levam a cometer actos suicidas.
Das ligações dos Tabilan aos EUA ou do Hamas a Israel o que não falta são evidências da estratégia global que se esconde por trás de terroristas e terrorismo. Na melhor das hipóteses, em alguns casos, o monstro terá escapado ao controlo do criador, mas a sua acção servirá sempre o objectivo final que é o de dar o pretexto para a intervenção e domínio antecipadamente concebidos.
A benefício do inventário
Voltemos então à questão inicial: de que falamos quando falamos de terrorismo?
- Nos últimos 5 anos, o número de pobres na América Latina aumentou em mais 20 milhões (dados do Comité Económico da ONU para a América Latina).
- Morrem anualmente dois milhões de pessoas devido a condições de trabalho desumanas (mais mortes do que as provocadas pela SIDA ou pelas guerras), 12 000 das quais são crianças. Cerca de 340 000 dessas mortes resultam da exposição a substâncias químicas. Os dados são da Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres (CIOSL).
- As pessoas do chamado Terceiro Mundo vivem com 20 litros de água por dia, ou menos, enquanto o mundo industrializado utiliza entre 400 e 500 litros por dia por pessoa.
- A administração Bush está a implementar um plano para desenvolver a energia nuclear dentro das suas fronteiras que prevê a construção de 50 novos reactores até ao ano 2020. Cada central deste tipo produz entre 22 a 30 toneladas de resíduos nucleares, altamente tóxicos e mortíferos. E existem 438 centrais nucleares em 30 países e mais 33 reactores estão em construção (metade dos quais na Ásia). Grande parte destas construções é financiada pelo Export-Import Bank dos EUA.
- O «número dois» do Pentágono, Paul Wolfowitz, disse há dias que a alegada existência de armas de destruição maciça no Iraque não passou de uma «justificação burocrática» para a guerra e, já esta semana, foi ainda mais explícito, segundo a edição online do jornal The Guardian, ao reconhecer que o motivo da guerra foi o facto de o Iraque nadar «num mar de petróleo».
- Segundo o mesmo jornal (edição de 23 de Janeiro deste ano), um antigo engenheiro químico da Mobil, Fadel Gheit, que é agora um especialista em investimentos numa empresa de agentes da Bolsa de Nova Iorque, declarou numa reunião em que participou antes do Natal de 2002 que a guerra anunciada era «inteiramente por causa do petróleo» e que a guerra global contra o terrorismo não passava de uma «camuflagem» para esconder esse propósito. Gheit disse ainda: «O nosso modo de vida depende de 20 milhões de barris de petróleo por dia, metade dos quais tem de ser importada. Somos como um doente numa diálise de petróleo. É uma questão de vida ou de morte».
- Lee Raymond, presidente da ExxonMobil, conhecida como Esso na Europa, declarou o ano passado, numa entrevista à CNBC, em 23 de Setembro, que a empresa quer estar envolvida «em todas as principais áreas de prospecção do mundo». Um dos seus substitutos, Morris Foster, lembrou na mesma época que «metade dos fornecimentos de petróleo e gás necessários para 2010 não está ainda a ser produzida», pelo que se coloca a necessidade do «acesso geopolítico a novos recursos».
- Também em Setembro de 2002, a Heritage Foundation - cuja acção pretensamente benemérita conhecemos de séries televisivas, e que recebeu 65 000 dólares da Esson em 2001 - afirmou que a administração Bush «deve deixar claro que, depois da guerra, permanecerá no Iraque uma presença militar dos EUA para assegurar os interesses vitais norte-americanos».
- Anthony Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, que recebeu igualmente 135 000 dólares da Esson em 2001, defendeu no Senado, em Março de 2001, que os EUA necessitam de «uma doutrina formal de Bush que defina as nossas linhas vermelhas, que diga de maneira bem clara que a segurança do Golfo e o fluxo contínuo de petróleo são do interesse nacional e vital para a segurança dos EUA, e que continuaremos comprometidos com a contenção militar e com a estreita cooperação com os nossos aliados do Golfo enquanto exista uma ameaça do Iraque ou do Irão».
Estes são apenas alguns dos muitos dados que poderíamos citar, aqui trazidos à colação para que em conjunto nos possamos questionar por que razão realidades destas nos chocam infinitamente menos do que um atentado em qualquer ponto do mundo, não obstante fazerem infinitamente mais vítimas. Se isto não é terrorismo, o que lhe devemos chamar?
Contributo para o debate
O que deveremos chamar ao ataque sem precedentes, em democracia, que hoje se regista contra os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, tanto nos EUA como na Europa, em nome do combate ao terrorismo?
Como classificar a monstruosa trama de mentiras divulgadas pela comunicação social a nível mundial, com o deliberado intuito de manipular e condicionar a opinião pública a aceitar não só a restrição dos seus próprios direitos, conquistados em séculos de luta e evolução civilizacional, como ainda a «apoiar» que se espezinhem os direitos dos outros povos?
Como rotular o facto de as Nações Unidas serem já tratadas pelos EUA e seus vassalados como no passado a Liga das Nações foi tratada pelos estados fascistas?
Como explicar que, durante uma visita de Colin Powell às Nações Unidas, a Guernica de Picasso tivesse sido tapada com uma cortina para não incomodar o representante do império?
Muitos são hoje os que afirmam, como o jornalista australiano John Pilger, que o Iraque não teria sido invadido se tivesse armas nucleares, e que a grande lição desta guerra para os governos que não alinham com o imperialismo norte-americano é apenas uma: armar-se com o nuclear rapidamente.
Esta é, certamente, uma das mais trágicas consequências do terror e do terrorismo, que de afinal não cheguei a dar uma definição.
Não foi por acaso. Deixo-vos essa tarefa, como contributo para o debate colectivo que teremos de travar para que efectivamente um outro mundo seja possível.