Institutos Superiores de Prognóstico Desportivo

É para acreditar

José Augusto
Quando, há duas décadas ou mais, em amena cavaqueira sobre coisas da bola e outras, ouvi falar num tal instituto de prognóstico desportivo, fiquei meio assarapantado. Que brincadeira era aquela? Prognóstico desportivo? Ora, se até o João Pinto, craque de reconhecidos méritos e grande experiência, dizia que prognósticos só no fim!
No entanto, mais surpreendido fiquei com a confirmação de que esse estabelecimento existia mesmo, consagrando-se a trabalhos de natureza científica. Chamava-se, na altura, Instituto Superior de Prognóstico Desportivo de Moscovo.
Claro que só descansei as minhas dúvidas depois de ter visitado o referido estabelecimento, onde me esperava um dirigente de uma cordialidade infindável que me explicou, com imensa paciência, como funcionava e para que servia.
Diga-se que, já naquela altura, este não era o único instituto do género na Europa. Estamos a falar da década de 70 do século passado. Pelo menos, havia outro, também muito conhecido, na RDA.
O cientista explicou-me, de modo que eu compreendesse, a complexidade dos cálculos e a quantidade de dados conjugados para se alcançar um prognóstico. Segundo salientou, chegava-se a introduzir nas contas, na busca da previsão mais rigorosa possível, resultados obtidos numa disciplina há mais de cinquenta anos, dados objectivos e subjectivos, factor casa, índice de pressão do público, condições físicas dos recintos desportivos, eu sei lá, uma autêntica babilónia de indicadores e variantes que nada ou pouco diziam a um leigo como eu.
Portanto, desatei a fazer perguntas. Por exemplo, o factor casa. Fiquei a saber que variava de disciplina para disciplina e de país para país. No entanto, se quisesse fazer uma ideia do peso do factor casa num desporto colectivo, ele pesava, em média, 30 por cento no resultado.
Dias antes, disputara-se em Leninegrado o Campeonato do Mundo de Voleibol, com a vitória da equipa cubana, orientada por George Lafite. Fora esse o prognóstico do Instituto? Não, não fora. O estudo concluíra pelo êxito da formação soviética, então muito forte a nível mundial. «A razão do erro» – reconheceu -, «é que conhecíamos deficientemente a equipa cubana, e assim houve muitos dados que ficaram de fora». Lembrei-me, imediatamente, que a necessidade de recolha de informações poderia conduzir à espionagem desportiva. «Mas é claro que ela existe» – esclareceu o meu interlocutor. – «Por exemplo, ao investigarmos as causas dos êxitos das nadadoras da RDA, descobrimos que existiam no país seis piscinas de correntes contrárias, instalações de treino caríssimas. Para nós foi uma verdadeira surpresa, pois então só possuíamos uma. Uma, para um país com o tamanho do nosso e um número de nadadores como o nosso!»
Mas qual a utilidade real do prognóstico desportivo? Um exemplo esclarecedor não se fez esperar. «Na primeira semana dos JO de Montreal, em 1976, no Canadá, os nossos atletas tinham recolhido uma quantidade miserável de medalhas. No entanto, tal facto não desencadeou qualquer onda de pânico no seio da delegação, o que poderia ser fatal para os nossos desígnios. É que os responsáveis estavam na posse de dados, fornecidos por nós, segundo os quais a situação se alteraria profundamente dali a dias. E foi isso que aconteceu. A nossa equipa arrasou completamente, tendo regressado à URSS com 125 medalhas.»
Lembrei-me, e acho que vem a propósito, das mais mirabolantes especulações sobre o domínio dos atletas do Leste europeu em décadas transactas. Era tomado como axioma, por exemplo, que muitos, senão a maioria, dos atletas dos países socialistas de dopava. Óbvio, que outros de outros países também. Em silêncio e conivência gerais. O problema é que ninguém escreveu ou disse de viva voz que certos resultados se espaldavam numa base científica que falhava aos outros. Talvez por ignorância. Quem sabe?


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