Revolta na América Latina

Da eleição no Haiti à agressão dos EUA ao povo dominicano

Miguel Urbano Rodrigues
Atolado em crises internas e externas, o sistema de poder dos EUA envolveu-se na República Dominicana numa nova agressão contra um povo da América Latina.

«São imprevisíveis as consequências desta nova agressão imperialista»

O desembarque de tropas de ocupação na República Dominicana, realizado com a cumplicidade do governo títere daquele país, coincidiu praticamente com o fracasso da manobra golpista que visava impedir a posse de Rene Preval após a sua vitória nas eleições presidenciais no Haiti.
Este gesto de desespero ao qual o povo dominicano respondeu com gigantescas manifestações de protesto, mobilizando-se contra os invasores, provocou repúdio mundial, sobretudo na América Latina.
Washington temia os resultados das eleições. Mas não esperava que a vitória de Preval, um político progressista, amigo de Cuba, fosse tão esmagadora que o segundo candidato obteve somente 11 % dos votos emitidos. O receio de uma derrota humilhante motivou as manobras que, sob diferentes pretextos, levaram a sucessivos adiamentos das eleições e à criação de uma atmosfera de intimidação.
A pressão popular foi, entretanto, tão forte, que no dia 7 de Fevereiro os haitianos foram às urnas. Pela afluência sem precedentes dos inscritos, logo ficou claro que Preval seria eleito por maioria absoluta, o que inviabilizaria uma segunda volta.
O dispositivo provocatório, preparado com antecedência, foi então accionado. Bernard, o presidente do Conselho Eleitoral, cumpriu as instruções de Washington e, após grosseira manipulação dos resultados, marcada por fraudes, anunciou, transcorridos sete dias, que seria indispensável uma segunda volta porque Preval teria obtido apenas 49% dos votos.
O escândalo foi tamanho que até a Conferência Episcopal da Igreja Católica, de tendência conservadora, denunciou a manipulação.

Revolta popular

Tomando consciência de que a Administração Bush pretendia impedir Preval de assumir a Presidência, o povo haitiano saiu então maciçamente às ruas, exigindo respeito pela vitória do seu candidato. A resposta, ditada uma vez mais de Washington, foi a repressão das manifestações. As tropas de ocupação da ONU, que têm desempenhado no Haiti um papel indecoroso, carregaram sobre a multidão. O balanço oficial dos confrontos refere um morto e vários feridos.
Entretanto era tornado público que uma organização vinculada à CIA, a Natan Endowment for Democracy-NED, havia desenvolvido nos meses anteriores intensa actividade conspirativa no país, financiando os adversários de Preval.
Na capital americana, foi convocada uma reunião de emergência, em que participaram Bush, Condoleeza Rice e o secretário-geral da ONU. O porta-voz do Departamento de Estado, resumindo o que se passara, declarou que «sempre que uma eleição é muito disputada, é importante que as partes se reúnam e cooperem no interesse do país». Isso apesar dos 40 pontos que separavam Preval do segundo candidato mais votado…
Mas a dimensão da revolta popular era tamanha que o governo Bush, temendo uma situação de caos incontrolável, sentiu a necessidade de alterar o plano golpista que concebera.
Quando o Conselho Eleitoral, recuando, proclamou, após nova contagem, a vitória de Preval na primeira volta com 51,15% , surgiu como alternativa ameaçadora e forma de pressão sobre o conjunto da Região Caribenha o desembarque em Barahona, na costa Sul da República Dominicana.
São imprevisíveis por ora as consequências desta nova agressão imperialista. As intervenções dos EUA na República Dominicana no século XX, a de 1915 e a de 1965, ficaram assinaladas por uma repressão selvagem à qual o povo de Camaño resistiu com heroísmo.
A indignação suscitada na América Latina antecipa a certeza de uma vaga de solidariedade com os povos haitiano e dominicano.
«Gringos fora do Caribe!», é o brado que soa do rio Bravo à Patagónia.


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