As pedras voadoras

Abrir a pedra a escopro e maço ou trabalhá-la a cinzel e maceta, ocupou milhares de gerações de canteiros que, de pedras toscas, brutas e informes, criaram monumentos e formas belas imperecíveis.
Entre nós, os importantíssimos jazigos de rochas calcárias no concelho de Sintra, foram objecto de secular exploração, quer na Pedra Furada ou nas Lameiras, em Montelavar e Pero Pinheiro, em Anços ou nos Negrais. Os operários das pedreiras e das serrações derreteram suores e marmorizaram os pulmões com o pó fino e secante do seu ambiente de trabalho. Alvos duma longa exploração salarial e horária, cedo foram conquistados para as lutas reivindicativas do movimento operário e, em Montelavar - Pero Pinheiro ergueram o seu protesto em múltiplas greves de que são exemplo as de Maio de 1896 ou de Abril de 1916. Durante o regime fascista, os cabouqueiros e canteiros voltam a fazer ouvir-se: nas grandes greves de 8 e 9 de Maio - 1944; na denúncia das burlas nos descontos sociais - 1948; nos protestos contra a redução dos salários - 1951; na falta ao trabalho, como forma de comemorar o 1.º de Maio - 1954; na greve às horas extraordinárias na Empresa Pardal Monteiro - 1956; nas paralisações de 1959, 1961 e 1963, exigindo melhores condições de trabalho.
Contudo, neste longo percurso, 1965 ficará na memória como um momento alto na luta de classes em todo o Oeste e Ribatejo. À época reclamava-se um aumento de 10$00, e as movimentações das comissões operárias junto dos sindicatos nacionais, entre Janeiro e Abril desse ano, denotavam um crescente descontentamento. O custo de vida tornara-se insustentável para a maioria dos trabalhadores do mármore que, a 29 de Abril, se reúnem em Pero Pinheiro, impondo um prazo de resposta aos dirigentes sindicais fantoches. Estes, ao sentirem-se acossados, tentaram ganhar tempo mas, em 7 de Maio, na iminência duma grande manifestação, apelaram à GNR. Nesse dia, quando cerca de 2000 operários rumaram ao sindicato, foram acolhidos por uma força militarizada que, de arma aperrada, os aguardava para um «diálogo». Sucederam-se então, as conhecidas acções de concertação social das coronhadas, a que responderam bandos de «pombos sem asas» (pedras) lançadas pelos manifestantes. Daí à greve foi um fósforo e, a 19 de Maio de 1965, 5000 operários iniciaram a sua forma superior de luta até 2 de Junho. Bem tentaram intimidá-los: mobilizaram uma força de 300 homens da GNR; colocaram no terreno uma chusma de pides, chefiados pelo inspector Fiuza; o patronato vacilante, foi proibido de acolher as exigências operárias e, enquanto aumentava o número de grevistas presos, os sindicalistas do regime procuravam quebrar a unidade e determinação dos trabalhadores. Mas, cônscios das suas limitações e face às dificuldades de subsistência, o Comité de Greve reuniu em 1 de Junho, consultou os grevistas e decidiu-se recuar, temporariamente, passando-se recusar horas extraordinárias até à conquista do objectivo de tantos sacrifícios. O PCP acompanhara-os desde a primeira hora, construíra convergências, recolhera donativos, e o seu Comité Local permaneceu na primeira linha do combate operário. Desses homens anónimos e protagonistas das lutas sintrenses na década de 50, sobrevivem na memória das gentes de Montelavar e Pero Pinheiro: o Sabino da Cabrela; o António Estêvão fogueteiro de Montelavar; o Victor Silva, o Salvador, o Jaime de Anços, o Leitão sapateiro da Fação e tantos outros que, de tanto trabalharem as pedras, as ensinaram a voar contra O Capital.


Mais artigos de: Argumentos

O caldinho

O caldo está pronto e, é claro, sem o caldo nunca poderia haver sopa e o mais que adiante se lhe siga. Naturalmente que o caldo só por si não basta: é preciso juntar-lhe ingredientes, temperos, algum entulho, mas a basezinha está feita e o resto virá com vagar, em princípio não há pressas. Convém dizer, antes que...

Euskadi, aqui ao lado (2.ª parte)

Juan Mari ArzakDonostia (San Sebastián)Pais Basco (Euzkadi) – EspanhaQuerido AmigoQueria continuar a carta que comecei a escrever-te na semana passada, contando aos leitores mais alguma coisa sobre a profunda ligação da gastronomia com o povo basco. Por exemplo: as sociedades gastronómicas. Imagina, leitor, uma casa só...

As diferenças subtis

No seu excelente trabalho «Las sotanas del PP», Mariano Sanchez Soler acrescenta algumas curiosas observações acerca do universo das ONG espanholas. Se grande parte das organizações oficialmente inscritas na Coordenadora das Organizações Não Governamentais - CONGDE se dedica prioritariamente ao desenvolvimento local e...