As velhas sentenças

Correia da Fonseca
O «Prós e Contras», rubrica de debate mais suposto que efectivo, é muito frequentado por figuras que preconizam a mudança e a renovação. É uma bonita atitude que «faz jovem» e «faz moderno», o que sempre cai lindamente nos tempos que vão correndo. Por isso sempre me surpreendo, embora já não o devesse, quando verifico que em relação a certas questões os mesmos cavalheiros passam o tempo a desembainhar os velhíssimos argumentos já usados e abusados pelo doutor Salazar, bisavôzinho honorário de todos eles. Tudo indica que o fazem porque conjuntamente com os argumentos herdaram também ódios e medos que são o terreno onde eles, os argumentos ou o que por argumentos passam, cravam raízes. Já não falo das constantes proclamações da morte do comunismo, por sinal de momento metido entre parênteses no nosso País em face dos recentes sinais de vitalidade que o PCP vem dando. Mas falo, porque aliás o último «Prós e Contras» reavivou o tema, da alegada inexistência de fronteiras entre Esquerda e Direita políticas, o que pretensamente resulta na pretensa inexistência da Esquerda. E falo também, já agora e de caminho, no constante bombardeamento operado contra os partidos políticos, aversãozinha de estimação com que Salazar pontuava não apenas os seus discursos mas também a sua acção. Não apenas porque entre todos os partidos possíveis havia um que especialmente o incomodava, mas também por uma motivação mais geral e também mais profunda: porque os partidos são lugares sociais onde os homens se encontram e trocam a solidão por um entendimento, nada havendo de mais inquietante para criaturas como ele que o encontro entre as gentes. Assim, já se irá percebendo porque tanto me parece perigoso e sobretudo nada inocente o discurso contra os partidos que, directamente herdado da mais genuína propaganda fascista, é recorrente na comunicação social com fácil contaminação da chamada opinião pública. Dir-se-á talvez que também há partidos de Direita. Pois sim, mas bem se sabe com que alegre ligeireza a Direita troca, sempre que tanto lhe parece necessário, uma democracia com partidos por uma forma de nazifascismo.

E contudo...

Ora cá estamos nós a falar de Direita e de Esquerda quando, segundo outras opiniões, tal distinção não existe, havendo mesmo crescentes dúvidas sobre se alguma vez terá existido. Voltou a ser assim no «Prós e Contras» da passada segunda-feira com destaque para as intervenções de André Gonçalves Pereira. Só um quarto convidado em palco, João Caraça, se atreveu a sustentar que ainda haverá uma Esquerda e uma Direita, invocando mesmo alguns sinais de diferença e distância: «mais Estado» numa gestão de Esquerda, «menos Estado» (ou tendencialmente nenhum) em gestão de Direita: diferenças quantitativas e talvez qualitativas na redistribuição do produto nacional. Entretanto, veio de longe o depoimento de Eduardo Lourenço, luso pensador correntemente citado quando se trata de tentar escavacar a Esquerda ou o que com a Esquerda se parece: acha Lourenço, pelo que se ouviu, que combates agora travados são contra uma «Direita inventada» que de facto não existe. Vê-se bem que lá pelas Franças e Araganças por onde passeia a sua respeitável idade o velho pensador não foi despedido, recebe reforma aceitável, pode tratar eventuais achaques. Isto é, que não sente efeitos devastadores de uma política de Direita. E, tudo indica, não é capaz de imaginar o que se passa com outra gente. Mas a conversa no «Prós e Contras» teve outros momentos interessantes e até divertidos. Por exemplo, quando foi dito que «Cavaco Silva é filho de Abril», afirmação que aliás suscitou um condenável frisson em certos telespectadores. Ou quando Gonçalves Pereira afirmou, e muito bem, que «para o BE e o PCP o Partido Socialista é de direita», indiferente à antiga sabedoria que ensina ser pelos frutos que se conhece a árvore e, na verdade, abrindo caminho para a verificação de que, havendo uma política de Direita, é capaz de haver Direita mesmo. Ou ainda quando o mesmo acusou o PCP de ser «conservador» por querer conservar direitos e liberdades conquistados em 74. Mais tarde, esgotadas piadas destas, o programa passou a remexer no futuro do enlace Cavaco/Sócrates. Mas o mais importante estava feito: a extinção oficiosa da Esquerda por decreto oral do «Prós e Contras». Uma vez mais, e decerto não a última. Porque, contudo, ela move-se. Como diria o eterno Galileu.


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