Ligações perigosas e pântano moral
«O país está a saque!» é uma expressão que se ouve a cada esquina e sintetiza os sentimentos de vergonha e de revolta do povo português. Convém, porém, esclarecer que o saque, as falcatruas e as faltas de vergonha, cujas notícias ocupam colunas e colunas dos jornais, não são protagonizadas pelo homem da rua, pelo cidadão comum. Portugal está a ser saqueado pelas elites que ocupam o poder e nele se organizam como autênticos «gangs». Casa Pia, Apito Doirado, Moderna, Galp, EDP, Eurominas, Iberdrola, Portugal Telecom, Caixa Geral dos Depósitos, são negócios escuros ou muito escuros que envolvem enormíssimas massas financeiras e só são acessíveis às elites do poder e do dinheiro. O homem da rua fica desde já absolvido de cumplicidade nesses crimes. Trata-se de círculos fechados onde só entram os poderosos. E, como o crime compensa, vemos como as fortunas florescem no deserto da miséria e da exclusão.
Hierarquias e relações pantanosas
Todas estas misérias são fruto do capitalismo e da globalização. Da gula pelo lucro desenfreado e pelas grandezas do poder. Seria pois natural e lógico que todas as forças que condenam teoricamente a injustiça social e as misérias da sociedade unissem esforços e vozes para denunciarem o que se está a passar. Sobretudo, a poderosa igreja católica portuguesa. Dispõe de informação abundante sobre a situação real do nosso povo. A sua doutrina social, as suas pastorais, os seus tesouros e a sua imensa rede de organizações não governamentais permitir-lhe-iam facilmente saltar para o lado dos explorados e oprimidos e praticar o que a sua doutrina social católica apregoa aos quatro ventos. Que terrores paralisarão a hierarquia quando salta aos olhos que o próprio interesse da igreja impõe a prática real da sua opção pelos pobres ? Ou quando, nesta altura de correlação de forças é evidente que grupos católicos poderosos traficam os valores da Ética e trocam a cruz pelo cifrão ?
Duas notícias recentes, sem relação entre si, permitem levantar uma ponta do véu sobre este enigma. Ambas as fontes pertencem ao mundo católico. A primeira diz respeito às recentes eleições que levaram a Papa o cardeal Ratzinger (El País, 27.i2.05). Como se sabe, este jornal pertence a um grupo com íntimas ligações à igreja espanhola mas pratica uma política editorial «aberta». Mas contemos a história.
Um dos quatro cardeais brasileiros que participaram na eleição decidiu falar. Manteve o anonimato, com receio da excomunhão, pena com que os tribunais apostólicos punem os violadores do segredo dos conclaves. E o que este cardeal conta sobre os bastidores do Vaticano são do maior interesse, ainda que os factos que descreve não sejam inesperados. A designação de Ratzinger foi minuciosamente preparada. O cardeal, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ocupou-se em estabelecer uma apertada rede de poder pessoal que agora, na sua designação, funcionou como previsto. O acto da votação foi ocultamente precedido por uma movimentada campanha eleitoral. Houve dezenas de reuniões secretas entre os «lobbies» da hierarquia. Usaram-se todas as armas possíveis, incluindo a mentira. E o bispo brasileiro recorda as palavras de Ratzinger proferidas em 1978: «Não é o Espírito Santo que dita aos cardeais o nome do novo Papa.»
A outra revelação foi recolhida de um site da Internet, com data de 15.1.06. Assina-o Maria Rita Rendeu, jornalista espanhola que entrevistou um juiz católico ligado à igreja e destacado para Palermo, cidade considerada como capital da Mafia italiana. A entrevista é longa e dela destacaremos uma simples frase. A certa altura, a jornalista perguntou: «O anúncio evangélico da justiça e da vinda do Reino dos Céus completam-se reciprocamente. Isto deveria determinar que o catolicismo italiano surgisse como protagonista principal de uma acção clara contra os desvios evidentes do Estado de direito. No entanto, não se verifica essa intervenção, essa nitidez da acção. Que pensa o dr. Scarpinato a este respeito?» Ao que Scarpinato respondeu: «Dizia Sartre que a Ética é aquilo que queremos que seja. Se partirmos desta perspectiva laica, poderemos dizer que a Igreja tem tido, ao longo da história, um comportamento anti-ético que consiste em não se afirmar e em permitir que cada crente tenha o seu próprio deus. Há, portanto, um Deus da aristocracia, um Deus da alta burguesia, um outro da baixa burguesia, um Deus dos ditadores, uma Deus das vítimas, um Deus dos mafiosos e um Deus dos que lutam contra as mafias. Cada qual tem o seu deus enquanto a hierarquia católica quase nunca toma partido. O que permite que o Deus dos assassinos possa conviver com o Deus das suas vítimas.»
Hierarquias e relações pantanosas
Todas estas misérias são fruto do capitalismo e da globalização. Da gula pelo lucro desenfreado e pelas grandezas do poder. Seria pois natural e lógico que todas as forças que condenam teoricamente a injustiça social e as misérias da sociedade unissem esforços e vozes para denunciarem o que se está a passar. Sobretudo, a poderosa igreja católica portuguesa. Dispõe de informação abundante sobre a situação real do nosso povo. A sua doutrina social, as suas pastorais, os seus tesouros e a sua imensa rede de organizações não governamentais permitir-lhe-iam facilmente saltar para o lado dos explorados e oprimidos e praticar o que a sua doutrina social católica apregoa aos quatro ventos. Que terrores paralisarão a hierarquia quando salta aos olhos que o próprio interesse da igreja impõe a prática real da sua opção pelos pobres ? Ou quando, nesta altura de correlação de forças é evidente que grupos católicos poderosos traficam os valores da Ética e trocam a cruz pelo cifrão ?
Duas notícias recentes, sem relação entre si, permitem levantar uma ponta do véu sobre este enigma. Ambas as fontes pertencem ao mundo católico. A primeira diz respeito às recentes eleições que levaram a Papa o cardeal Ratzinger (El País, 27.i2.05). Como se sabe, este jornal pertence a um grupo com íntimas ligações à igreja espanhola mas pratica uma política editorial «aberta». Mas contemos a história.
Um dos quatro cardeais brasileiros que participaram na eleição decidiu falar. Manteve o anonimato, com receio da excomunhão, pena com que os tribunais apostólicos punem os violadores do segredo dos conclaves. E o que este cardeal conta sobre os bastidores do Vaticano são do maior interesse, ainda que os factos que descreve não sejam inesperados. A designação de Ratzinger foi minuciosamente preparada. O cardeal, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ocupou-se em estabelecer uma apertada rede de poder pessoal que agora, na sua designação, funcionou como previsto. O acto da votação foi ocultamente precedido por uma movimentada campanha eleitoral. Houve dezenas de reuniões secretas entre os «lobbies» da hierarquia. Usaram-se todas as armas possíveis, incluindo a mentira. E o bispo brasileiro recorda as palavras de Ratzinger proferidas em 1978: «Não é o Espírito Santo que dita aos cardeais o nome do novo Papa.»
A outra revelação foi recolhida de um site da Internet, com data de 15.1.06. Assina-o Maria Rita Rendeu, jornalista espanhola que entrevistou um juiz católico ligado à igreja e destacado para Palermo, cidade considerada como capital da Mafia italiana. A entrevista é longa e dela destacaremos uma simples frase. A certa altura, a jornalista perguntou: «O anúncio evangélico da justiça e da vinda do Reino dos Céus completam-se reciprocamente. Isto deveria determinar que o catolicismo italiano surgisse como protagonista principal de uma acção clara contra os desvios evidentes do Estado de direito. No entanto, não se verifica essa intervenção, essa nitidez da acção. Que pensa o dr. Scarpinato a este respeito?» Ao que Scarpinato respondeu: «Dizia Sartre que a Ética é aquilo que queremos que seja. Se partirmos desta perspectiva laica, poderemos dizer que a Igreja tem tido, ao longo da história, um comportamento anti-ético que consiste em não se afirmar e em permitir que cada crente tenha o seu próprio deus. Há, portanto, um Deus da aristocracia, um Deus da alta burguesia, um outro da baixa burguesia, um Deus dos ditadores, uma Deus das vítimas, um Deus dos mafiosos e um Deus dos que lutam contra as mafias. Cada qual tem o seu deus enquanto a hierarquia católica quase nunca toma partido. O que permite que o Deus dos assassinos possa conviver com o Deus das suas vítimas.»