de Maria Eugénia Cunhal
Dar um sentido ao dia
A arte poética de Maria Eugénia Cunhal radica em dois pólos principais: a felicidade como forma de reorganização existencial e a denúncia daqueles que tentam prolongar o mundo detestável, como afirmou Mário Dionísio.
O que é de imediato percepcionável na escrita de Maria Eugénia Cunhal, tanto na poesia como na prosa, é a felicidade, uma felicidade solar e tocante que os seus textos expressam: a felicidade da luta e da partilha quotidianas. A autora convoca quase sempre o inusitado, não glosa o conformismo mesmo quando nos fala do fundo cansaço de viver os dias amargos: «Não fossem aqueles sapatos/Tão dolorosamente verdadeiros/Calçados nos pés dessa mulher/E o meu coração tinha quebrado/(...) Tinha quebrado, sim, eu sei que tinha//(...) Não fosse/O mistério tão dolorosamente verdadeiro/Dos sapatos velhos nos pés dessa mulher.» Há nesta poesia um ritmo, uma articulação sintáctica, uma semântica que nos cativa e torna receptores imediatos e rendidos. E igualmente uma poética que se urde em torno dos elementos, atenta ao pulsar da vida, das coisas e das gentes, do Amor como entrega e partilha: «Estendemos a toalha// Trouxeste o pão, o vinho/Eu trouxe a fome, a sede, o cansaço/E a mão para colher/A pureza espontânea do teu gesto/Que tem a dimensão exacta do teu braço// Eu recebi/Tu deste/Compartilhámos. /Da refeição comum ficou o travo doce e bom do mel/E a certeza daquilo que está certo.»
Armando Silva Carvalho diz que o poema é um modo antigo de sair dos ossos. Na poesia de Maria Eugénia Cunhal existe, sobretudo, o ímpeto da fala, a urgência de dizer o amor e a alegria de o dizer: a comunhão com o outro, com os outros, um modo, quase no limite do pulsar do verbo, de sair dos ossos, emergir do nosso próprio e limitado espaço para chegar ao outro, mesmo quando o poeta sabe, como Philip Roth, que ninguém sabe nada de si mesmo e que a escrita é o espelho em que permanentemente nos buscamos.
A poética de Maria Eugénia é feliz porque o amor, apesar de tudo, existe (e existe em entrega, em absoluto e em recusa), mas é igualmente empenhada, crítica, questionando o real quotidiano: «No céu aquele azul monótono, indiferente,/que os poetas gostam de cantar/». E, no mesmo poema, lembrando Sena: «o resto quem o canta?// Quem canta os pés doridos da velha dos barquilhos de lenço e bata branca/ que a areia não afaga,/Pra quem o sol é duro, cruel, cansa/ e leva nos olhos uma tristeza vaga/ de quem envelheceu sem ter sido criança?» .
Se existem diferentes modos de dizer entre Silêncio de Vidro e As Mãos e Os Gestos, é apenas de maturidade, de uma escrita mais madura, porque a matriz do primeiro livro, a iniciática e circular abordagem dos afectos, se mantém e é comum a ambos. Há nestes dois livros, apesar do tempo que os separa (38 anos, com História de Um Condenado à Morte, de 1983, de permeio) uma visão do mundo e da essência existencial que os torna facilmente referenciáveis. Em ambos a poesia flui sem enigmas, é água límpida, entrecortada por uma musicalidade cantabille, mesmo quando se inquieta e estremece «com as mãos suadas/cansadas/gretadas» mas que, apesar de ter olhos de ver o cinzento do mundo, consegue sorrir, deslumbrada, ao menino que lhe acena à beira da linha.
Para Maria Eugénia Cunhal, a realidade nunca é trágica porque o poeta sabe, como demiurgo que é, que o real é sempre transformável. Ter razão, mesmo perante as adversidades, é sempre uma forma de alegria.
Existe ainda na escrita de Maria Eugánia, uma discreta sensualidade, um quase murmúrio das palavras essenciais para dizer a paixão, a entrega sem mácula, o corpo vibrante em cosmicidade elementar: «Bastou aquele gesto/a tua mão tocar tão docemente a minha/Pra nascerem raízes/que me prendem à terra e me alimentam/Nas horas mais vazias(...).»
A poesia de Maria Eugénia Cunhal (sobretudo em Silêncio de Vídro), lembra em sua desmedida entrega, o Pablo Neruda de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, mas situa-se, no discurso interior e na ossatura vocabular (na extrema contenção metafórica), perto de algumas associações semânticas e formais da Poesia 61, embora na raiz matricial lhe descubramos poemas herdeiros de um neo-realismo próximo de Manuel da Fonseca: «Capitão, aqui estou//Comigo, a bagagem:/No saco de marujo trago um naco de pão/Dentro do peito a ânsia da viagem.» A voz poética de Maria Eugénia é, na sua tocante sobriedade, original e fecunda, conseguindo, com alguma mestria oficinal, lardear a atracção de reescrever os universos imaginísticos geracionais, optando por uma escrita que humaniza a palavra e traz de novo o homem ao cerne do discurso poético. A poesia de Maria Eugénia Cunhal, na denúncia social que lhe subjaz, dá «um sentido ao dia», ou seja, à vida.
O que é de imediato percepcionável na escrita de Maria Eugénia Cunhal, tanto na poesia como na prosa, é a felicidade, uma felicidade solar e tocante que os seus textos expressam: a felicidade da luta e da partilha quotidianas. A autora convoca quase sempre o inusitado, não glosa o conformismo mesmo quando nos fala do fundo cansaço de viver os dias amargos: «Não fossem aqueles sapatos/Tão dolorosamente verdadeiros/Calçados nos pés dessa mulher/E o meu coração tinha quebrado/(...) Tinha quebrado, sim, eu sei que tinha//(...) Não fosse/O mistério tão dolorosamente verdadeiro/Dos sapatos velhos nos pés dessa mulher.» Há nesta poesia um ritmo, uma articulação sintáctica, uma semântica que nos cativa e torna receptores imediatos e rendidos. E igualmente uma poética que se urde em torno dos elementos, atenta ao pulsar da vida, das coisas e das gentes, do Amor como entrega e partilha: «Estendemos a toalha// Trouxeste o pão, o vinho/Eu trouxe a fome, a sede, o cansaço/E a mão para colher/A pureza espontânea do teu gesto/Que tem a dimensão exacta do teu braço// Eu recebi/Tu deste/Compartilhámos. /Da refeição comum ficou o travo doce e bom do mel/E a certeza daquilo que está certo.»
Armando Silva Carvalho diz que o poema é um modo antigo de sair dos ossos. Na poesia de Maria Eugénia Cunhal existe, sobretudo, o ímpeto da fala, a urgência de dizer o amor e a alegria de o dizer: a comunhão com o outro, com os outros, um modo, quase no limite do pulsar do verbo, de sair dos ossos, emergir do nosso próprio e limitado espaço para chegar ao outro, mesmo quando o poeta sabe, como Philip Roth, que ninguém sabe nada de si mesmo e que a escrita é o espelho em que permanentemente nos buscamos.
A poética de Maria Eugénia é feliz porque o amor, apesar de tudo, existe (e existe em entrega, em absoluto e em recusa), mas é igualmente empenhada, crítica, questionando o real quotidiano: «No céu aquele azul monótono, indiferente,/que os poetas gostam de cantar/». E, no mesmo poema, lembrando Sena: «o resto quem o canta?// Quem canta os pés doridos da velha dos barquilhos de lenço e bata branca/ que a areia não afaga,/Pra quem o sol é duro, cruel, cansa/ e leva nos olhos uma tristeza vaga/ de quem envelheceu sem ter sido criança?» .
Se existem diferentes modos de dizer entre Silêncio de Vidro e As Mãos e Os Gestos, é apenas de maturidade, de uma escrita mais madura, porque a matriz do primeiro livro, a iniciática e circular abordagem dos afectos, se mantém e é comum a ambos. Há nestes dois livros, apesar do tempo que os separa (38 anos, com História de Um Condenado à Morte, de 1983, de permeio) uma visão do mundo e da essência existencial que os torna facilmente referenciáveis. Em ambos a poesia flui sem enigmas, é água límpida, entrecortada por uma musicalidade cantabille, mesmo quando se inquieta e estremece «com as mãos suadas/cansadas/gretadas» mas que, apesar de ter olhos de ver o cinzento do mundo, consegue sorrir, deslumbrada, ao menino que lhe acena à beira da linha.
Para Maria Eugénia Cunhal, a realidade nunca é trágica porque o poeta sabe, como demiurgo que é, que o real é sempre transformável. Ter razão, mesmo perante as adversidades, é sempre uma forma de alegria.
Existe ainda na escrita de Maria Eugánia, uma discreta sensualidade, um quase murmúrio das palavras essenciais para dizer a paixão, a entrega sem mácula, o corpo vibrante em cosmicidade elementar: «Bastou aquele gesto/a tua mão tocar tão docemente a minha/Pra nascerem raízes/que me prendem à terra e me alimentam/Nas horas mais vazias(...).»
A poesia de Maria Eugénia Cunhal (sobretudo em Silêncio de Vídro), lembra em sua desmedida entrega, o Pablo Neruda de Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada, mas situa-se, no discurso interior e na ossatura vocabular (na extrema contenção metafórica), perto de algumas associações semânticas e formais da Poesia 61, embora na raiz matricial lhe descubramos poemas herdeiros de um neo-realismo próximo de Manuel da Fonseca: «Capitão, aqui estou//Comigo, a bagagem:/No saco de marujo trago um naco de pão/Dentro do peito a ânsia da viagem.» A voz poética de Maria Eugénia é, na sua tocante sobriedade, original e fecunda, conseguindo, com alguma mestria oficinal, lardear a atracção de reescrever os universos imaginísticos geracionais, optando por uma escrita que humaniza a palavra e traz de novo o homem ao cerne do discurso poético. A poesia de Maria Eugénia Cunhal, na denúncia social que lhe subjaz, dá «um sentido ao dia», ou seja, à vida.