Na gestão do município de Peniche

As pessoas em primeiro lugar

Isabel Araújo Branco
Pela primeira vez, a CDU está à frente dos destinos de Peniche. A vitória alcançada nas eleições autárquicas de Outubro abre um novo capítulo na história do concelho. António José Correia e Delfim Campos – presidente e vereador da autarquia, respectivamente – falam da campanha que culminou na sua eleição e nas prioridades de trabalho.
A vitória da CDU em Peniche não constituiu uma verdadeira surpresa para os candidatos, depois de anos de preparação e contactos. Mas este trabalho não tinha como único objectivo promover a coligação junto dos munícipes, mas essencialmente conhecer os seus problemas e necessidades e a partir daí desenvolver um projecto autárquico responsável, consistente e consequente que respondesse aos anseios da população. Para que tal fosse conseguido, o melhor seria ganhar as eleições para a Câmara Municipal e foi isso que a coligação conseguiu.
Cinco anos depois de se juntar ao projecto da CDU para o concelho de Peniche, António José Correia, o recém eleito presidente do município, lembra que partiu para estas eleições com a ideia de que, «sendo difícil, era possível ganhar e mais provável do que há quatro anos». «Nas conversas que mantínhamos com as pessoas, sentíamos que havia uma predisposição e uma necessidade de mudança. Três semanas antes das eleições, percebi que as coisas estavam muito bem encaminhadas», recorda, dizendo que «a campanha foi em crescendo e as pessoas vinham ter connosco como não acontecia há quatro anos. Mesmo trabalhadores do município passavam por nós e comentavam: “Este ano isto tem de mudar! Vamos ganhar!” Pessoas de outras forças políticas diziam que iam votar na CDU, tal como a família.»
A noite de 9 de Outubro foi, pois, de festa. A CDU aumentou a sua votação nacional, o número de vereadores, recuperou várias autarquias e ganhou pela primeira vez as eleições em Peniche. A votação na coligação nesta terra de pescadores passou de 29 para 38 por cento, um aumento de quase 1400 votos num universo de cerca de 12 mil votantes. A CDU ganhou ainda três das seis freguesias do concelho: Ajuda, São Pedro e Serra D’El Rei.

Proximidade e trabalho

Para António José Correia, a ideia chave é proximidade com a população. Isso concretiza-se através das relações com as colectividades, organizações sociais e empresas. A segunda ideia fundamental é o trabalho. «Podíamos estar próximos e não desenvolver trabalho, mas nós trabalhamos. Para descobrir as coisas que fazem falta, temos de estar em relação com as populações», sublinha.
Esta proximidade foi também protagonizada pelos eleitos na Assembleia Municipal, que sempre colocaram os problemas da população e apresentaram propostas. «A comunicação social deu eco disso, há pessoas lêem as actas das reuniões e quem participou nelas viu a nossa maneira de estar. É difícil dizer o que teve mais peso, mas sem proximidade não tínhamos chegado a lado nenhum», garante o autarca.
Delfim Campos, vereador na Câmara Municipal de Peniche e membro da Organização Concelhia do PCP, valoriza a grande abertura das listas ao jovens, «inclusive aqueles que não estavam ligados à política e que, pela equipa da CDU, acreditaram que valia a pena envolver-se pela primeira vez». «Por trás da vitória está um grande trabalho, empenho e abertura. Já depois das eleições, um jovem professor dizia numa reunião: “Há quatro anos alguma vez me imaginava metido com comunistas! Hoje tenho de dizer que isto é gente diferente.”», lembra o dirigente.

Um projecto popular

Nas eleições autárquicas de 2001, a CDU elegeu dois vereadores, António José Correia e Jorge Abrantes, que, embora não tivessem pelouros, «desempenharam um papel importante na CM», como refere Delfim Campos. As questões levantadas por ambos ao longo do mandato foram coligidas e resumidas numa publicação distribuída à população durante a campanha eleitoral, que servirá como base do trabalho neste mandato. «Vamos ser consequentes», afirma o novo presidente da autarquia.
O programa da coligação teve uma elaboração participada, partindo de iniciativas que envolveram muitas pessoas de muitas áreas sociais. «Não foi difícil, porque estávamos próximos das realidades e já conhecíamos as necessidades», refere António José Correia. «Amar Peniche é ganhar o desenvolvimento e o mar é um dos grandes potenciais de desenvolvimento num concelho onde a taxa de desemprego é superior à média nacional, mais de dez por cento», acrescenta.
«O que conta é as pessoas»: este foi um dos slogans utilizados pela CDU que reflecte o seu projecto autárquico e que guiou a própria campanha. A coligação foi a única força política a organizar sessões de esclarecimento nas aldeias e vilas do concelho. «Demos a cara e tivemos mais contributos para definir quais serão as nossas prioridades», diz o novo presidente, referindo o objectivo de nas próximas eleições fazer com que a CDU seja a força mais votada em todas as freguesias, «graças ao trabalho e acompanhamento que formos fazendo».
Essas sessões de esclarecimento tornaram visível o isolamento de muitas pessoas nas aldeias, na maioria idosos. Os pedidos formulados na altura foram poucos. «As pessoas pediram-nos que nos mantivéssemos iguais a nós próprios e que não aparecêssemos apenas nas eleições», conta António José Correia. Outros pedidos passam pelo embelezamento e a limpeza, a recuperação de estrada e de bermas esguias, a cobertura de poços e a protecção das falésias. Para facilitar o contacto directo e permanente com a população, a autarquia pretende agora criar uma linha telefónica para os munícipes apresentarem comentários, reclamações, reparos, perguntas e pedidos.

Acreditar na vitória

A campanha da CDU em Peniche teve eco na comunicação social. António José Correia comenta: «A forma como os media cobriram a nossa campanha tem muito a ver com os nossos recursos e as nossas iniciativas. A relação com a comunicação social tem de marcar a diferença. Temos de ter conteúdos interessantes para suscitar a atenção.»
Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP, deu um contributo importante na campanha, participando em duas iniciativas em Peniche, no jantar de apresentação dos candidatos e numa arruada. «A simpatia de Jerónimo de Sousa é muito bem correspondida por pessoas do povo. Há uma identificação… e foi o povo que nos elegeu. A sua presença no concelho teve grande repercussão na comunicação social e fez a base social tradicional da CDU acreditar que podíamos ganhar. Só com essas pessoas foi possível alcançar esta vitória, nomeadamente com a difusão junto dos amigos», especifica o autarca.

Um projecto autárquico consistente

«Queremos pôr Peniche no mapa»: este era um dos slogans da CDU e o seu projecto autárquico parte precisamente desta ideia. Como explica António José Correia, o primeiro passo é «arrumar a casa» na área dos recursos humanos, esclarecer a situação financeira e assegurar os meios financeiros para que a CM tenha «uma actividade sem atropelos». «Arrumar a casa à nossa maneira, com os recursos humanos importantes para o desenvolvimento do nosso projecto autárquico», especifica.
Outras prioridades se impõem à nova presidência da Câmara Municipal de Peniche, como a elaboração de um projecto de investimento de emprego e coesão social. Basta olhar à volta e conhecer a realidade económica e social para perceber como é importante uma iniciativa que consiga captar investimentos que criem emprego. O plano é promover um fundo de apoio à criação de novas empresas que contribua para fixar os jovens com mais formação que actualmente saem do concelho em busca de um posto de trabalho melhor. «Queremos também apoiar os desempregados com competências para o empreendorismo», acrescenta o novo presidente do município.
A promoção de uma política social de habitação, em parceria com a Federação Nacional das Cooperativas de Habitação, constitui outro dos objectivos dos eleitos da CDU. «Temos de inverter o que agora acontece: as habitações sociais vão-se degradando e não se constroem novas», diz António José Correia.
Mas as localidades têm de ter ordenamento, não basta construir. Por isso, a coligação pretende implementar instrumentos de planeamento e ordenamento do território. «Nos últimos anos não foi aprovado um único plano de urbanização. A transparência da gestão camarária é facilitada quando há instrumentos de planeamento e ordenamento», comenta.
Outras prioridades passam pelo aumento dos níveis de educação e formação dos munícipes e pela descentralização de meios e competências para as freguesias. «Se a proximidade é uma palavra chave e as freguesias estão mais próximas, a descentralização é importante, inserindo-se nos objectivos estratégicos», defende António José Correia.

A primeira noite de trabalho

A tomada de posse dos novos órgãos autárquicos teve lugar na noite de sexta-feira passada. A primeira iniciativa dos eleitos da CDU foi concretizada imediatamente após a sessão: uma visita a trabalhadores municipais que estavam na altura a trabalhar. «Algumas pessoas que trabalham há 30 anos para a autarquia e disseram-nos que era a primeira visita de responsáveis da CM que recebiam», diz António José Correia.
A formação profissional e a higiene e segurança no trabalho constituem prioridades a implementar. «Há a ideia que a formação é para os engenheiros, para os directores de departamentos e para os que estão no quentinho. Não! A formação vai aproximar-se de todos os trabalhadores da Câmara Municipal e dos Serviços Municipalizados. Um pedreiro também tem necessidade de formação. Formação específica da sua profissão, mas também a formação para a cidadania e o reconhecimento de competências. Queremos que com isso a auto-estima e o orgulho dos trabalhadores possa vir ao de cima», afirma o novo presidente.
A CDU pretende, pois, motivar os trabalhadores para conseguir alcançar os seus objectivos. «Os trabalhadores do município são uma peça chave para que as coisas possam mudar. Muitos manifestaram esperança na nossa eleição e queremos começar pela valorização dos recursos humanos», conta o autarca.

Em pé de igualdade com o PS em Leiria

Depois das eleições de 9 de Outubro, a CDU ficou com duas presidências de câmaras municipais no distrito de Leiria (Peniche e Marinha Grande), ou seja, o mesmo número do PS. Na região do Oeste, a coligação está à frente de duas autarquias (Peniche e Sobral de Monte Agraço), enquanto o PS tem três câmaras.
«São factos que nos alegram muito e são fruto do nosso trabalho», sorri Delfim Campos. «Como comunista, tenho de dizer que representa a concretização dos resultados das directrizes decididas no último congresso do PCP», refere, acrescentando que estes resultados eleitorais constituem «um desafio muito importante a que temos de dar continuidade, fazendo um trabalho em que as pessoas se revejam para que a nossa força cresça ainda mais nos próximos anos».
António José Correia lembra que na região do Oeste, Lezíria e Médio Tejo, há várias câmaras da CDU e «com isto a coligação passa a ter um representação importante e que tem de se ter em conta». Mais do que isso, torna-se agora claro que «a alternância entre PS e PSD que normalmente se coloca passou a ser um mito. Por isso devemos actuar nos órgãos sub-regional com grande disponibilidade para sermos agentes e protagonistas de mudança no Oeste e no distrito de Leiria.»
«No distrito, mostramos que o sonho é possível e que outras câmaras podem ser ganhas. Esta pode ser a oportunidade de comunicação e de divulgação de práticas promissoras de gestão autárquica, de modo a que no futuro o modelo de gestão da CDU possa ser mais divulgado. É uma oportunidade de se intensificar o trabalho com outros autarcas da coligação, para que contribuam para a melhoria continuada do nosso trabalho e para que eles próprios possam acompanhar o trabalho a desenvolver em Peniche. A CDU tem muito peso e o seu trabalho autárquico vale muito», salienta o novo presidente de Peniche.


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«Memória argelina»

Conheci Henri Alleg em 1986, durante um Congresso de Jornalistas, em Sofia. Tínhamos ambos ultrapassado os 60 anos. «É muito raro – ouvi dele recentemente em Serpa – que amizades tão fortes como a nossa se estabeleçam em idades avançadas». Recordei essas palavras ao findar a leitura de Mémoire Algérienne, o seu último livro(1).