Contra Bush, o racismo e a pobreza

Comunidade negra desafia Washington

John Catalinotto
Milhares de afro-americanos concentraram-se em Washington, a 15 de Outubro, numa grande manifestação de protesto contra o racismo e a pobreza nos EUA.

A principal mensagem da manifestação foi «Black power» (Poder negro)

A manifestação foi ainda maior do que a recente iniciativa contra a guerra. Foi uma manifestação anti-guerra, anti-Bush e de indignação pela forma como a população negra de Nova Orleães foi tratada no passado mês de Março. Esta «Marcha de Mais Milhões», assinalando o 10.º aniversário da «Marcha de um Milhão de Homens» de 1995, não foi apenas uma massiva expressão de força da comunidade afro-americana nos Estados Unidos, foi também uma plataforma para um programa político que desafia as regras dos EUA.
A principal mensagem da manifestação foi «Black power» (Poder negro). Não havia bandeiras dos EUA na multidão, mas sim muitas bandeiras vermelhas, negras e verdes da libertação negra.
Nessa marcha de 1995, a Nação do Islão, o grupo organizador, trouxe a Washington cerca de um milhão de afro-americanos para o que foi designado por «Marcha de um Milhão de Homens». Em 1995, a organização não fez exigências políticas ao governo. A maioria dos oradores era composta por dirigentes religiosos, e pediram aos participantes para olharem para dentro de si e improvisarem respostas.

Uma força a ter em conta

Seria um grave erro subestimar as potencialidades organizadoras da Nação do Islão. A iniciativa de sábado foi simultaneamente um apelo à população negra e uma forte organização. Nenhuma outra instituição consegue trazer uma manifestação deste tamanho a Washington.
A fracassada ocupação do Iraque e o crime de Nova Orleães estiveram entranhados nos discursos de toda a gente. Os oradores, na sua maioria, eram activistas políticos representando um largo espectro de vozes negras, incluindo figuras dos direitos civis como Jesse Jackson. As intervenções incluíram moções de solidariedade com presos políticos como Mumia Abu-Jamal e o dirigente indígena Leonard Peltier. Dirigentes sindicais como Patricia Ann Ford do Conselho de Trabalho do Metro de Washington, o líder da organização internacional dos Estivadores Clarence Thomas e Teamster Chris Silvera (que concedeu uma entrevista ao Avante! na última Marcha) terminaram as suas intervenções apelando em uníssono ao «poder aos trabalhadores».
Na parte internacional da manifestação, o presidente da Assembleia Nacional de Cuba, Ricardo Alarcon, falou cerca de 10 minutos por vídeo, referindo os cerca de 1500 médicos oferecidos por Cuba para ajudar as vítimas do furacão, os cinco patriotas cubanos presos nos EUA e o terrorista Luis Posada Carriles. A maioria das restantes intervenções foi limitada a dois ou três minutos.

Um forte apelo à luta

Farrakhan, dirigente da Nação do Islão, proferiu o discurso de fundo que colocou os maiores desafios à multidão. Agradeceu o papel de Cuba e pediu para ser aproveitada a oferta cubana para treinar 500 médicos que estejam dispostos a servir a comunidade.
O orador sublinhou que o fracasso do governo norte-americano na assistência à população negra e pobre ficou demonstrado na ausência de resposta ao furacão Katrina. Farrakhan recomendou que o Departamento de Segurança Interna juntamente com a sua agência, FEMA, devem ser alvo de uma acção judicial por parte dos sobreviventes do Katrina que devem ser plenamente compensados por tudo o que perderam devido à negligência criminosa por parte do governo.
Farrakhan instou toda a gente a voltar a casa para organizar rua a rua e casa a casa as bases de um movimento que deve ser preparado antes que ocorra outro desastre. Apelou ainda à escolha de um ministro da Educação, de um ministro da Cultura e também de um ministro da Defesa e da Justiça, etc., numa palavra, de tudo o que integra um gabinete presidencial. Na sua opinião, um ministro da Defesa é vital porque todos os soldados que estão no Iraque e no Afeganistão devem voltar para casa para defender as suas comunidades e não para se matarem uns aos outros nas ruas ou para travar guerras injustas no estrangeiro. Em suma, apelou a um estado independente dos que se distanciam de Washington. Esta nação não deve ser apenas afro-americana, mas incluir também as pessoas de origem latina e indígena e «os pobres».
Farrakhan lembrou que uma das razões por que os imigrantes oriundos da América Latina foram forçados a ir para os EUA para procurar trabalho foi o roubo de terras ao México pelos Estados Unidos, o roubo das terras que hoje constituem o Arizona, a Califórnia, o Texas, o Novo México e outros estados.
Até ao momento, a reacção do governo e dos média ao discurso de Farrakhan foi a de minimizar a sua importância. Mas o forte apelo à luta foi ouvido pela imensa multidão concentrada em Washington e talvez por muitos mais milhões através da televisão CSPAN. Muitos activistas acreditam que o apelo dará um forte impulso à luta por direitos e pela igualdade.


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