No rasto de um piloto detido

Correia da Fonseca
Foi, em Salamanca, a Cimeira Ibero-Americana, e para lá foi, como decerto era preciso, o senhor Presidente da República. Como muitos outros cidadãos, soube-o sobretudo pela televisão, já que os grandes títulos da imprensa diária dita de referência andaram ocupados com outros acontecimentos. Ora foi também a televisão a contar-me que, em conversa com o presidente Hugo Chavéz, Sampaio fizera o que lhe era pedido pela família de Luís Santos, o piloto português detido por suspeita de envolvimento em tráfego de droga, e até pelo próprio piloto, que no seu regime de prisão domiciliária pode usar o telemóvel, felizmente, pois aquilo não é Guantanamo: o presidente português pediu o interesse de Chavéz pela aceleração do processo. Mais não pediu, decerto, pois Sampaio bem sabe que um chefe de Estado não pode nem deve sequer tentar intervir no curso da justiça, decerto tão autónoma na Venezuela como em Portugal. Aliás, segundo também o que a TV me informou, isso mesmo terá dito Chavéz a Sampaio, não seguramente para lho ensinar, mas antes para se desculpar, digamos, por não poder ser mais eficaz, género pegar no telemóvel (pois também ele há-de ter um, não é menos que Luís Santos) e dar ordem para que o piloto luso fosse imediatamente expedido por via aérea para Lisboa, onde certamente está a fazer imensa falta a familiares e amigos. Mas, num outro momento, a TV deu-me a ver e a ouvir mais e melhor, se não estou absurdamente confundido: o próprio Hugo Chavéz não apenas a dizer das suas razões, mas também a lembrar o caso de duas senhoras venezuelanas que, sob acusação semelhante à que pesa sobre Luís Santos, estiveram presas preventivamente em Portugal durante dois anos, após o que afinal foram absolvidas em julgamento. Já o embaixador da Venezuela em Lisboa não se coibira de lembrar o caso em carta dirigida ao «DN» e de acrescentar que a justiça portuguesa não tem a reputação de ser rápida. De qualquer modo, parece ultrapassada a fase das discriminações várias, sendo agora legítimo esperar que tudo acabe em justiça e felicidade finais. E, já se vê, tão depressa quanto possível.

O duelo

Resta, porém, que Luís Santos foi preso, não foi muito bem tratado pela polícia venezuelana (que, ao que consta, tem uma especial aversão aos traficantes de droga) e esteve encarcerado em péssimas condições numa prisão muito má durante algum tempo. Sabe quem o queira saber que a generalidade das prisões sul-americanas têm muito má fama e, pelos vistos, as prisões de Caracas não são excepção a esta tristíssima regra. Contudo, não parece de uma exaltante honestidade intelectual querer responsabilizar por isso Hugo Chavéz, que não está no poder há dez anos, nem mesmo há sete, e que desde a sua eleição não tem tido a vida propriamente facilitada para poder pôr em ordem todos os cantos do país. A questão que deve pôr-se é se antes de Chavéz as prisões venezuelanas eram exemplares ou pelo menos substancialmente melhores. E, é claro, quem fala em prisões fala em muitas outras coisas. Não é preciso ser muito perspicaz para perceber que o caso do piloto Luís Santos tem sido fartamente utilizado pelos media para denegrir a Venezuela de Chavéz, com o habitual destaque para o impacto que a TV tem nesta e noutras campanhas. Chegou a coisa ao ponto de ser divulgada pela televisão o teor da manchete de um jornal diário (de novo o «DN», não talvez por mera coincidência) em que era dada como informação de fonte insuspeita a acusação made in USA Departament State do suposto envolvimento de um comando superior das Forças Armadas da Venezuela no tráfego de droga que utilizara o avião co-pilotado por Luís Santos. Por outro lado, são muitos os portugueses de boa-fé que vão à Venezuela e não gostam da escassa eficácia de serviços, do que sentem como desorganização generalizada. Parece-me esquecerem-se de que aquele país está a viver um tempo de transformação dificílima, semeado de obstáculos e hostilizações ferozes. Que as desarrumações que decorrem da transformação de uma sociedade infame num país menos injusto, mesmo quando são extremamente incómodas e até pontualmente chocantes, não são um preço excessivo. Que, sobretudo, é preciso entender o que está a passar-se. Ora, é esse entendimento que as notícias que a televisão veicula, e também o modo como o faz, tentam impedir. A partir daí, é uma espécie de duelo entre o telespectador que não quer ser ludibriado e a TV que talvez o queira manipular. Como jogo, até pode ser interessante. Mas, se o espectador se deixa vencer, cai sem dar por isso no lado negro da História dos nossos dias.


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