O fogo e as mãos
Fogos, fogos, fogos. Os incêndios que alumiam a nossa angústia desde que ligamos o televisor à hora dos telenoticiários pareceram, por uns dias, irem finalmente reduzir-se; mas logo reapareceram mal regressaram o calor, o vento, e como que um terceiro factor que não sabemos qual, que provavelmente nem sequer existe, mas que pressentimos como se estivesse lá, algures, emboscado. Quanto às estações de TV, bem sabemos todos que muitas vezes parecem gostar deles, dos incêndios, não apenas porque são matéria noticiosa em tempo de real ou suposta penúria de notícias, mas também porque as imagens dos fogos fazem um bonito efeito nos ecrãs, sobretudo se filmadas à noite e com os enquadramentos certos. Poderá supor-se que é injusto e excessivo escrever-se isto, que a TV gosta dos fogos. Mas o caso é que dificilmente se encontra explicação para a frequente imagem dos incêndios na noite, projectada por detrás do pivot dos noticiários, mesmo quando é evidente que aquela imagem não corresponde a qualquer incêndio que esteja a ser reportado em directo, mesmo quando de momento não está a acontecer nenhum incêndio com a dimensão que nos está a ser dada a ver, só como imagem/emblema do assunto que vem dominando a actualidade nacional. E é verdade que a imagem do fogo recortado na noite cumpre sempre o objectivo de emocionar o espectador, de exercer sobre ele um fascínio que se entrelaça com o sentido da tragédia que está a acontecer. Dizem alguns, parece que com sólidas razões, que aquelas imagens do fogo, poderosas, terríveis, fascinantes, podem desencadear em certas criaturas mecanismos psicológicos que desembocam em apetites pirómanos. Houve mesmo um apelo para alguma contenção, mas bem se sabe que isto das contenções que colidem com o interesse jornalístico, o dever de informar e o apetite das e pelas audiências, é uma questão muito difícil de gerir. Uma coisa é certa: as imagens aí têm estado todos os dias e todas as noites, e não está provado nenhum efeito de causa e efeito entre tais imagens e supostos pirómanos, pelo que no mínimo as imagens devem ser absolvidas por falta de provas. Registe-se apenas que a absolvição por falta de provas é um veredicto frequente quando a TV é ré ou arguida de prosseguir práticas nocivas. O caso mais frequentemente em debate é de provável nexo entre as diversas formas de violência na televisão e formação psicológica das gerações de que a TV ser tornou baby sitter. Mas tudo indica que esse caso, porventura exemplar, já transitou em julgado sem que dele tenha resultado nenhuma condenação, ainda que leve.
Dúvidas, sombras
Resta, no que aos fogos da floresta portuguesa diz respeito, um dado concreto que, de resto, não tem tido grande relevo no conjunto das informações que a televisão nos presta: haverá já umas dezenas de indivíduos condenados pelo crime de fogo posto, outras dezenas arguidos pelo mesmo motivo e sujeitos a medidas de coacção diversas. Deixemos estes últimos, já que os seus processos se encontram em curso e provavelmente vão demorar uns tempos, e falemos dos já condenados, isto é, daqueles cujo crime se provou. A pergunta que quanto a estes me apetece fazer, e não será esta uma apetência só minha, é se foram apuradas as razões, os motivos, os eventuais estímulos, que desembocaram no acto criminoso. Da minha profunda ignorância que será a da generalidade das gentes, imagino que em muitos casos terá havido perturbação mental. Mas, inevitavelmente, imagino também outras coisas, que nisto de imaginar todos podemos ser abastados. Assim, imagino que alguns, não sei se muitos se poucos, podem ter posto fogo a matas e bosques a mando de terceiros. E, chegado aqui, pergunto-me naturalmente se esses terceiros foram identificados, se pelo menos se sabe o que os levou à prática incendiária por mãos alheias. É sabido que por aí se murmura, talvez injustamente, de negociatas, aliás de diversas áreas. Talvez seja apenas má-língua, talvez não; talvez seja o sentimento difuso de que desgraças tamanhas hão-de ter raízes não-insignificantes. Mas, de qualquer modo, não posso impedir-me de pensar que a TV, e é claro que não apenas ela, devia pelo menos esforçar-se por dar alguma resposta a estas dúvidas. Não há sequer indícios de que o faça. E, porque é assim, parece-me por vezes que as imagens dos fogos adquirem aspectos ainda mais sinistros, projectam sombras ainda mais inquietantes. Imaginação minha, já se vê. Mas bem se sabe que por vezes as sabedorias começam pela imaginação.
Dúvidas, sombras
Resta, no que aos fogos da floresta portuguesa diz respeito, um dado concreto que, de resto, não tem tido grande relevo no conjunto das informações que a televisão nos presta: haverá já umas dezenas de indivíduos condenados pelo crime de fogo posto, outras dezenas arguidos pelo mesmo motivo e sujeitos a medidas de coacção diversas. Deixemos estes últimos, já que os seus processos se encontram em curso e provavelmente vão demorar uns tempos, e falemos dos já condenados, isto é, daqueles cujo crime se provou. A pergunta que quanto a estes me apetece fazer, e não será esta uma apetência só minha, é se foram apuradas as razões, os motivos, os eventuais estímulos, que desembocaram no acto criminoso. Da minha profunda ignorância que será a da generalidade das gentes, imagino que em muitos casos terá havido perturbação mental. Mas, inevitavelmente, imagino também outras coisas, que nisto de imaginar todos podemos ser abastados. Assim, imagino que alguns, não sei se muitos se poucos, podem ter posto fogo a matas e bosques a mando de terceiros. E, chegado aqui, pergunto-me naturalmente se esses terceiros foram identificados, se pelo menos se sabe o que os levou à prática incendiária por mãos alheias. É sabido que por aí se murmura, talvez injustamente, de negociatas, aliás de diversas áreas. Talvez seja apenas má-língua, talvez não; talvez seja o sentimento difuso de que desgraças tamanhas hão-de ter raízes não-insignificantes. Mas, de qualquer modo, não posso impedir-me de pensar que a TV, e é claro que não apenas ela, devia pelo menos esforçar-se por dar alguma resposta a estas dúvidas. Não há sequer indícios de que o faça. E, porque é assim, parece-me por vezes que as imagens dos fogos adquirem aspectos ainda mais sinistros, projectam sombras ainda mais inquietantes. Imaginação minha, já se vê. Mas bem se sabe que por vezes as sabedorias começam pela imaginação.