Os homens de mão
Mesmo na selva, sem regra e sem lei, em que se transformou a vida política portuguesa há aspectos que desafiam a nossa imaginação. É o caso das atitudes agressivas assumidas pelo governo socialista contra as instituições tradicionais. Um governo frágil e dividido, como é o de Sócrates, dedica-se a criar situações de quase ruptura na economia, na justiça, no ensino, na saúde, nas forças armadas, etc. Que pretende, afinal, este governo ?
Ponhamos de lado a fachada socialista do poder, esqueçamos as promessas eleitorais nunca cumpridas e disporemos então do espaço necessário para procurarmos, noutras paragens, respostas para as nossas dúvidas. A verdade é que o governo de Sócrates é um somatório de inconfessáveis interesses privados. A ideia de República é-lhe completamente estranha. Lidera um Estado que deseja destruir. Personifica o liberalismo capitalista. Entende que um país se gere como uma sociedade anónima.
No catecismo neoliberal, os dois adversários de primeira linha a eliminar preferencialmente são, por um lado, o Socialismo, qualquer que seja a forma política que revista. Por outro lado, impõe-se-lhe cilindrar todas as velhas instituições que estorvem o rápido avanço do louco projecto da globalização. É este compromisso, de cumprimento obrigatório, que impele os ministros de Sócrates a atacarem as próprias instituições que deveriam servir. O mesmo virá a acontecer com a Constituição, com as pequenas e médias empresas, com a educação, com o serviço nacional de saúde, com o sistema de partidos políticos, etc. Corromper e degradar a vida política é talhar o corredor mais rápido para a desmontagem final de um sistema que tem por base as instituições. É a prática compulsiva da autodestruição política. Sem que, sequer, se aceitem excepções. No curso das práticas que agora se precipitam, também o Partido Socialista será um alvo a abater pelo capitalismo.
Poderá também discutir-se se a Igreja surge em tudo isto como mentora das políticas neoliberais ou, apenas, como uma das suas fiéis aliadas. A questão é de pormenor: em todos os cenários que dividem e dilaceram a humanidade, a igreja católica emerge como apoio firme e cobertura moral das movimentações estratégicas do grande capital. Sempre com extremo cuidado em alinhar posições com os altos interesses financeiros. Procurando justificá-los junto da opinião católica. Usando os seus próprios valores (perdão, reconciliação, conversão, caridade) como instrumentos desmobilizadores da vontade dos povos e dos trabalhadores.
Guerra contra a pobreza
O tema á actual. Calcula-se que, por cada dólar de aumento no preço do barril de «crude», se formem novas fortunas milionárias e milhões de seres humanos sejam votados à miséria e à morte. Cinicamente, os políticos chamam a isto «alargamento do fosso entre pobres e ricos», lamentam o facto e passam adiante. Os bispos e os cardeais apelam à caridade dos ricos pelos pobres. É um discurso que o clero mantém sempre disponível. Discurso de ocasião. Discurso invariavelmente devolvido ao remetente.
É esta a face oculta da guerra contra a pobreza, tema litúrgico que os ricos muito apreciam. «Os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos», declara em tese a doutrina católica. Vai-se depois a ver e constata-se que a doutrina social da igreja é uma vasta construção retórica. A grande dúvida parte da ideia da organização social que a igreja propõe e do papel que a si própria atribui nessa nova ordem. A doutrina católica define uma nova divisão de poderes. A gestão da vida pública deverá ser partilhada entre o Estado, o Governo e a Sociedade Civil. Segundo um princípio central, indiscutível: «Capitalismo, sim!». Só no capitalismo se encontra a força da produção, a criatividade, a democracia, a liberdade religiosa, a abundância. Tudo isto o capitalismo possui. Só lhe faltam valores próprios: política democrática e uma cultura humanista e pluralista. É o espaço vazio que deve ser ocupado pela igreja. A combinação da democracia, do capitalismo e da liberdade religiosa afirma a única verdadeira alternativa aos males resultantes do desaparecimento do socialismo. Nos quadros do desenvolvimento do sistema capitalista, a responsabilidade destas tarefas deve ser atribuída à igreja e à sociedade civil. Só estas podem gerir a distribuição equitativa dos bens produzidos pela iniciativa privada. Frentes principais, como a guerra à pobreza ou a mobilidade humana, serão lideradas pelas instituições caritativas e humanitárias profundamente ligadas, na sua esmagadora maioria, às doutrinas da igreja. Nessa nova ordem circularão os homens de mão, agentes da acção pastoral. Será perfeita a reconciliação da economia com a religião.
Ponhamos de lado a fachada socialista do poder, esqueçamos as promessas eleitorais nunca cumpridas e disporemos então do espaço necessário para procurarmos, noutras paragens, respostas para as nossas dúvidas. A verdade é que o governo de Sócrates é um somatório de inconfessáveis interesses privados. A ideia de República é-lhe completamente estranha. Lidera um Estado que deseja destruir. Personifica o liberalismo capitalista. Entende que um país se gere como uma sociedade anónima.
No catecismo neoliberal, os dois adversários de primeira linha a eliminar preferencialmente são, por um lado, o Socialismo, qualquer que seja a forma política que revista. Por outro lado, impõe-se-lhe cilindrar todas as velhas instituições que estorvem o rápido avanço do louco projecto da globalização. É este compromisso, de cumprimento obrigatório, que impele os ministros de Sócrates a atacarem as próprias instituições que deveriam servir. O mesmo virá a acontecer com a Constituição, com as pequenas e médias empresas, com a educação, com o serviço nacional de saúde, com o sistema de partidos políticos, etc. Corromper e degradar a vida política é talhar o corredor mais rápido para a desmontagem final de um sistema que tem por base as instituições. É a prática compulsiva da autodestruição política. Sem que, sequer, se aceitem excepções. No curso das práticas que agora se precipitam, também o Partido Socialista será um alvo a abater pelo capitalismo.
Poderá também discutir-se se a Igreja surge em tudo isto como mentora das políticas neoliberais ou, apenas, como uma das suas fiéis aliadas. A questão é de pormenor: em todos os cenários que dividem e dilaceram a humanidade, a igreja católica emerge como apoio firme e cobertura moral das movimentações estratégicas do grande capital. Sempre com extremo cuidado em alinhar posições com os altos interesses financeiros. Procurando justificá-los junto da opinião católica. Usando os seus próprios valores (perdão, reconciliação, conversão, caridade) como instrumentos desmobilizadores da vontade dos povos e dos trabalhadores.
Guerra contra a pobreza
O tema á actual. Calcula-se que, por cada dólar de aumento no preço do barril de «crude», se formem novas fortunas milionárias e milhões de seres humanos sejam votados à miséria e à morte. Cinicamente, os políticos chamam a isto «alargamento do fosso entre pobres e ricos», lamentam o facto e passam adiante. Os bispos e os cardeais apelam à caridade dos ricos pelos pobres. É um discurso que o clero mantém sempre disponível. Discurso de ocasião. Discurso invariavelmente devolvido ao remetente.
É esta a face oculta da guerra contra a pobreza, tema litúrgico que os ricos muito apreciam. «Os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos», declara em tese a doutrina católica. Vai-se depois a ver e constata-se que a doutrina social da igreja é uma vasta construção retórica. A grande dúvida parte da ideia da organização social que a igreja propõe e do papel que a si própria atribui nessa nova ordem. A doutrina católica define uma nova divisão de poderes. A gestão da vida pública deverá ser partilhada entre o Estado, o Governo e a Sociedade Civil. Segundo um princípio central, indiscutível: «Capitalismo, sim!». Só no capitalismo se encontra a força da produção, a criatividade, a democracia, a liberdade religiosa, a abundância. Tudo isto o capitalismo possui. Só lhe faltam valores próprios: política democrática e uma cultura humanista e pluralista. É o espaço vazio que deve ser ocupado pela igreja. A combinação da democracia, do capitalismo e da liberdade religiosa afirma a única verdadeira alternativa aos males resultantes do desaparecimento do socialismo. Nos quadros do desenvolvimento do sistema capitalista, a responsabilidade destas tarefas deve ser atribuída à igreja e à sociedade civil. Só estas podem gerir a distribuição equitativa dos bens produzidos pela iniciativa privada. Frentes principais, como a guerra à pobreza ou a mobilidade humana, serão lideradas pelas instituições caritativas e humanitárias profundamente ligadas, na sua esmagadora maioria, às doutrinas da igreja. Nessa nova ordem circularão os homens de mão, agentes da acção pastoral. Será perfeita a reconciliação da economia com a religião.